Como você pode perder 30% investindo em renda fixa?

Entenda como é possível perder 30% em investimentos de renda fixa

Mercados

Emprestar R$ 100 mil ao governo brasileiro e descobrir pouco tempo depois que a aplicação vale apenas R$ 70 mil parece um cenário improvável. Contudo, é perfeitamente possível perder 30% em um título de renda fixa sem que nenhum calote tenha ocorrido, revelando um risco frequentemente subestimado pelos aplicadores: a oscilação dos preços dos ativos antes do vencimento.

Enquanto a escolha entre CDI, prefixado e IPCA+ exige avaliar as características de cada modalidade, compreender por que um título seguro apresenta perdas expressivas no mercado secundário passa diretamente pelo conceito da marcação a mercado.

O impacto da taxa de juros no preço do título

Ao adquirir um prefixado, contrata-se uma remuneração para uma data futura específica. Um papel adquirido por R$ 100 mil, com vencimento em dez anos a 12% ao ano, pagará aproximadamente R$ 311 mil no final do prazo, desde que o emissor honre o compromisso. Contudo, o preço do ativo muda conforme as exigências do mercado.

Em um cenário hipotético onde as taxas de juros sobem para 16% ao ano logo após a compra, o papel antigo perde atratividade. Como ninguém pagaria o valor original por um rendimento inferior ao novo patamar, o preço do título recua para cerca de R$ 70 mil, configurando a desvalorização de 30%. O governo continua pagando o combinado, mas o valor aceito por outro investidor para negociar esse direito no presente é que sofreu alteração.

Quando as taxas diminuem, o movimento se inverte e os preços sobem. O mesmo princípio afeta os indexados à inflação, como o Tesouro IPCA+.

O papel do prazo e da duration

A intensidade da variação do preço diante de mudanças nos juros depende principalmente do prazo até o recebimento dos pagamentos. Quanto mais distante estiver o dinheiro, maior será a sensibilidade do ativo.

Dois títulos prefixados contratados a 12% ao ano ilustram bem essa diferença: – O que vence em um ano perde cerca de 3,4% se os juros subirem para 16%. – O que vence em dez anos sofre uma desvalorização próxima de 30%.

Essa sensibilidade é medida pelo duration. Papéis com o mesmo vencimento podem apresentar riscos distintos caso um pague juros periódicos e o outro concentre todo o pagamento no final.

Levar até o vencimento versus vender antes

Manter um prefixado sem pagamentos intermediários até o fim garante o recebimento do valor nominal combinado, independentemente das oscilações do caminho. Porém, quem vende antes transforma a desvalorização em prejuízo efetivo.

Apesar disso, manter o papel não anula todas as consequências econômicas. Se o mercado passou a oferecer 16% e a taxa contratada foi de 12%, o investimento perde valor frente às novas oportunidades. Ademais, a inflação pode corroer o poder de compra independentemente do rendimento nominal.

Por outro lado, a marcação a mercado pode atuar a favor. Se os juros caírem para 8% logo após a compra de um título a 12% ao ano, o preço poderá subir aproximadamente 44%, permitindo um ganho expressivo caso o investidor decida vender antes do prazo.

Estratégia e planejamento patrimonial

Fundo de renda fixa que batem o CDI em alguns períodos e registram resultados negativos em outros refletem justamente esses riscos de mercado assumidos pelos gestores. Além disso, uma queda de 20% motivada por altas nos juros não impede novas desvalorizações se as taxas continuarem subindo.

A principal defesa contra esse cenário consiste em compatibilizar os vencimentos com os objetivos financeiros, separando recursos de liquidez daqueles que podem ficar investidos por longos anos.

“Na renda fixa, o risco não depende apenas da possibilidade de o emissor deixar de pagar. Um título pode ser bastante seguro quanto ao valor prometido no vencimento e extremamente arriscado quanto ao preço pelo qual poderá ser vendido antes dele. Quem não entende essa diferença pode descobrir, da maneira mais cara, que renda fixa não significa preço fixo”, resume Michael Viriato, planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.

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