Índia cruza o oceano atrás dos minerais críticos do Brasil

Índia busca minerais críticos no Brasil para acelerar sua indústria

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De olho em reservas estratégicas para impulsionar seu setor industrial, gerar empregos e diminuir a dependência de Pequim, o governo da Índia voltou suas atenções para a América do Sul, com foco especial no Brasil. O país asiático busca transformar antigos laços diplomáticos em parcerias comerciais sólidas para garantir o suprimento de matérias-primas essenciais.

Para alimentar sua economia em expansão, Nova Déli necessita de lítio, níquel, cobalto e grafita para baterias, além de cobre para redes elétricas e terras raras para motores e turbinas. Como a China domina cerca de 60% da extração e 85% do processamento global desses elementos, o acesso a novos fornecedores tornou-se uma questão de segurança econômica e nacional para os indianos.

“Hoje há uma mudança clara em direção aos países da América do Sul”, diz Keshav Chandra, secretário do Ministério de Minas da Índia. “Num futuro próximo, veremos uma guinada clara e parcerias mais fortes com os países sul-americanos.”

Chandra reforça que a aproximação decorre diretamente da geologia global. “A América Latina é extremamente importante, porque buscamos grande parte dos nossos minerais na região. As maiores reservas de minerais críticos estão nos países sul-americanos. Então, vamos buscar cooperação mútua, engajamento e amizade”, afirma.

Estratégia global e investimentos

Em 2023, o governo indiano selecionou 30 minerais cruciais para o seu futuro tecnológico e industrial. Diante do controle chinês sobre exportações e tecnologias de refino, a escassez de insumos virou um risco crítico. Por isso, a Missão Nacional de Minerais Críticos (NCMM), lançada em 2025 pelo governo de Narendra Modi, planeja realizar 1.200 projetos de pesquisa geológica até 2031 e injetar cerca de US$ 4 bilhões para assegurar pelo menos 50 ativos minerais no exterior.

A estatal indiana Kabil já atua em jazidas de lítio na Argentina, e o Brasil desponta como o próximo grande alvo devido à sua liderança mundial em nióbio e às imensas jazidas de grafita, níquel, lítio e terras raras. Em fevereiro, durante visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Índia, os dois países assinaram acordos de cooperação em terras raras, minerais críticos e na cadeia de suprimentos do aço.

“Como sabemos, a China tomou a liderança nessa área muito externamente e está em uma posição confortável”, diz Chandra. “Mais, no meu modo de ver, isso não é o fim do mundo. Vivemos em um mundo dinâmico, onde a tecnologia e as parcerias mudam. A China tomou a frente, mas há amplo espaço e oportunidade para que todos possam prosperar.”

Parcerias além da mineração

Apesar do interesse em garantir matérias-primas, autoridades indianas asseguram que a intenção não é apenas extrair recursos do solo brasileiro. “Vamos aumentar os investimentos em minerais críticos no Brasil, mas o objetivo não é apenas explorar o minério e ir embora, e sim agregar valor localmente e processar com o Brasil”, diz Vaishali Sahni, diretor da Federação das Câmaras de Comércio e Indústria da Índia (FICCI) e líder do Grupo de Trabalho de Comércio do Brics.

Essa lógica de cooperação bilateral também se estende a outros setores, como a bioenergia — fortalecida por parcerias históricas em etanol desde 2002 e pela criação da Global Biofuels Alliance — e o setor aeroespacial. No início do ano, a Embraer e a indiana Adani Defence & Aerospace anunciaram planos para estabelecer na Índia uma linha de montagem final dos jatos E175, promovendo transferência de tecnologia e capacitação local.

“Sobre esse memorando com o Brasil, o acordo deve progredir naturalmente em direção a investimentos significativos, transferência de tecnologia e parcerias em áreas específicas”, pontua Chandra. “Para ter o mineral, primeiro é preciso garantir o fornecimento para depois processá-lo na indústria. A Índia quer estabelecer uma posição nessa área, mas isso não será alcançado isoladamente. Queremos alcançar isso em parceria e colaboração com nações amigas”, conclui o secretário.

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