Primata peçonhento “perdido” há quase um século reaparece na Indonésia

Primata peçonhento esquecido por quase um século ressurge na Indonésia

Curiosidades

O lóris-lento-de-Bangka, um primata capaz de produzir veneno, voltou a figurar em registros científicos depois de quase um século sendo tratado como praticamente extinto. Embora tenha passado despercebido pelos radares da ciência global, o animal nunca havia desaparecido de fato. Na ilha de Bangka, na Indonésia, a espécie vivia rotineiramente diante dos moradores, sendo avistada em quintais, margens de rodovias e até mesmo sobre cabos de transmissão de energia elétrica.

Em um estudo recém-divulgado, pesquisadores detalham que habitantes da região acionaram o Centro de Resgate de Animais Selvagens de Alobi em busca de auxílio. Conforme os relatos, mais de 90 exemplares do lóris-lento-de-Bangka circularam pela localidade nos últimos anos, sendo posteriormente resgatados pela instituição.

Enquanto diversos animais foram salvos sem ferimentos em residências, jardins, plantações e estradas, outros apresentavam lesões severas — principalmente decorrentes de choques em redes elétricas — e alguns acabaram morrendo apesar dos cuidados médicos. Após passarem por reabilitação, 86 espécimes foram devolvidos a ambientes naturais apropriados.

Sobrevivência em meio à destruição

Os espécimes resgatados vieram de diferentes áreas da ilha de Bangka. Para os especialistas, tal fato evidencia a resiliência da espécie frente à intensa degradação de seu habitat e a décadas de esquecimento científico. A retração ambiental na zona é impulsionada pela extração de estanho e pelo desmatamento voltado a plantações de dendê.

O lóris-lento-de-Bangka (Nycticebus bancanus) é reconhecido por sua aparência dócil. Trata-se de um primata noturno de pequeno porte, dotado de pelagem castanho-avermelhada e olhos proeminentes. Em contraste com outros primatas arborícolas, como lêmures e macacos, ele se movimenta de forma pausada pelas árvores, lembrando um desfile.

Os últimos apontamentos científicos sobre o animal datavam do início da década de 1930. Desde então, nenhuma nova evidência sobre a presença dos bichos na ilha havia surgido e, no ano de 2020, a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) categorizou a espécie como criticamente ameaçada e possivelmente extinta.

“Trazer o lóris-lento de Bangka de volta ao radar científico é apenas o primeiro passo”, afirmou o autor da pesquisa, Timon Glaw, em nota direcionada à imprensa. “Precisamos urgentemente de uma estratégia de conservação de longo prazo, baseada em levantamentos populacionais, em estudos genéticos e, acima de tudo, na proteção do seu habitat remanescente. O próximo desafio é garantir que ela não chegue, de fato, à extinção.”

A ilha de Bangka abriga uma população superior a 1 milhão de habitantes. De acordo com a pesquisa, vias rodoviárias, áreas urbanizadas e cabos elétricos configuram perigos consideráveis para a espécie, que também é visada pelo mercado clandestino de animais de estimação no continente asiático.

Os responsáveis pelo estudo aconselham a implementação de um plano de preservação em Bangka focado na salvaguarda dos habitats e na manutenção do monitoramento veterinário. As próximas etapas contemplam contagens populacionais, análises genéticas e o acompanhamento contínuo da reintegração dos bichos à natureza.

Características do primata peçonhento

Na árvore genealógica dos primatas, o lóris-lento-de-Bangka possui maior proximidade genética com os lêmures malgaxes e os gálagos africanos do que com os macacos ou símios de grande porte. Assim como ocorre com os demais integrantes do grupo dos lóris-lentos, estes animais são peçonhentos — um traço bastante incomum entre os mamíferos.

Isso significa que eles sintetizam compostos tóxicos e utilizam estruturas corporais adaptadas para inocular a toxina em predadores ou presas. Tais secreções ficam armazenadas na região interna dos braços. Dessa forma, ao se sentirem ameaçados, eles elevam os membros superiores, lambem as glândulas e desferem mordidas contra os rivais.

Essa tática é empregada primordialmente em disputas territoriais contra outros lóris-lentos, embora também possa servir para espantar predadores e parasitas. Agressões a seres humanos são raras, mas, caso ocorram, a toxina pode desencadear quadros alérgicos severos, com risco inclusive de morte.

Conforme pontuou Glaw, a dieta exata desses animais ainda carece de detalhamento científico. Até o momento, os biólogos estimam que, a exemplo de seus parentes próximos, eles se alimentem preferencialmente de insetos, exsudados de árvores, néctar e outros elementos vegetais.

Os dados detalhando a espécie e as operações de salvamento foram veiculados na revista científica Spixiana.

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