Mortes: Fazia delivery de sabedoria e se foi aos 91 anos ainda cheio de planos

Morre aos 91 anos Eder Krausz, economista e militante político

Brasil

Aos 91 anos e cheio de planos para o futuro, Eder Krausz faleceu no último dia 20, deixando familiares e amigos perplexos com sua partida. Mesmo com passagens compradas para o Chile em novembro e planos de passar meses na Europa em 2027, ele sentiu-se indisposto em casa e morreu deitado no ombro do filho mais velho, no carro, a caminho do hospital. Viúvo de Lydia, deixou 2 filhos, 2 noras, 3 netas e 1 neto, além de uma legião de admiradores conquistados ao longo da vida.

Origens e juventude em São Paulo

Eder nasceu no Brasil devido a uma série de reviravoltas familiares. Seu pai, o húngaro Elimir Krausz, decidiu viajar pelo mundo após perder a mãe e os irmãos menores, que morreram envenenados por cogumelos colhidos no campo. Elimir percorreu países da Europa Oriental, escapou de ser queimado vivo durante um ataque no Oriente Médio e conheceu Malka Abramovitch na Turquia, por quem se apaixonou.

Quando a família dela decidiu imigrar para o Brasil em 1926, ele acompanhou o grupo. Casaram-se em Erechim (RS), onde tiveram três filhos. Eder, o caçula, mudou-se para São Paulo com apenas seis meses de idade, crescendo em diferentes endereços nos bairros do Bom Retiro e do Brás. Na juventude, era sócio do Clube de Regatas Tietê e costumava atravessar a nado o rio homônimo para chegar ao local.

Carreira, militância e resistência

Aos 15 anos, Eder ingressou como contínuo no antigo Iapi por meio de concurso público. Mais tarde, foi aprovado no curso de economia na FEA-USP e, anos depois, passou em novo concurso para a Cesp, onde atuou no planejamento energético até se aposentar.

Ainda jovem, integrou o Habonim Dror, movimento da juventude sionista-socialista, e posteriormente militou na Polop. Durante a ditadura militar, foi preso e torturado, mantendo-se fiel aos ideais até os últimos dias. No dia 11, por exemplo, passou três horas na avenida Paulista participando de uma manifestação pró-Lula.

Nos anos 1960, durante uma excursão da USP para o Nordeste, conheceu a musicista e também militante da Polop Lydia Jardim Loes. O namoro começou na viagem e, como ela era desquitada — e o divórcio só foi regulamentado no Brasil em 1977 —, os dois se casaram na Bolívia.

Perícia técnica e dedicação à família

Após se aposentar, Eder buscou nova ocupação e atuou como perito da Justiça do Trabalho realizando cálculos. Em ações coletivas, produzia laudos com mais de 2.000 folhas repletas de contas, utilizando apenas uma planilha e um editor de textos do antigo DOS, recusando o uso de Excel ou Word.

Permaneceu nessa atividade até os 85 anos, quando encerrou definitivamente os trabalhos profissionais para se dedicar à família, aos amigos e a desconhecidos, contagiados por sua conversa sagaz e bem-humorada. Eram clássicos seus envios de livros, problemas de matemática para os netos, sobrinhos-netos e sobrinhos-bisnetos, além de clippings personalizados com recortes de jornais fotografados e enviados por WhatsApp. “Tio Eder deve ter lido todos os livros e jornais do mundo”, resumiu uma sobrinha-neta após sua despedida.

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