Uma década foi necessária para que Marina Soares, 23, tivesse as queixas sobre dores menstruais reconhecidas e recebesse o diagnóstico de Somp (Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina).
Nesse período, ela passou por uma peregrinação em unidades de saúde, desenvolveu anemia e perdeu um dos ovários até receber o tratamento indicado. “Cheguei a achar que menstruar era um castigo por tudo que passei nessa vida”, afirma.
O caso ilustra a chamada violência menstrual, termo que define situações como negligência médica, escassez de dados informativos e negação de atendimento médico digno a quem menstrua.
O conceito e o lançamento
A expressão ganha espaço no “Almanaque de Saúde Menstrual – Livres Para Menstruar”, lançado em evento online pela organização Girl Up Brasil. O material está disponível para download gratuito no site da instituição.
Conforme Munah Malek, gerente de projetos da entidade, o conceito vai além da pobreza menstrual, que engloba a escassez de absorventes, água potável ou banheiros adequados com saneamento básico.
“A pobreza menstrual está muito ligada ao acesso a direitos e à gestão da menstruação. Mas violência menstrual tem um outro polo quando é negada uma educação emancipatória sobre menstruação, quando dores são negadas e meninas ficam desprotegidas”, afirma.
Questões como a ausência de diretrizes nas escolas para lidar com acidentes menstruais, a proibição de pausas laborais para o manejo dos sintomas e o déficit de investimentos em políticas públicas de saúde menstrual também integram a lista de episódios de violência menstrual.
Um levantamento da Vital Strategies Brasil em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora revelou que apenas 0,5% dos prontuários analisados com registros de dores menstruais receberam dos profissionais de saúde os códigos oficiais de doenças para diagnóstico e tratamento.
A investigação examinou dados de 469 mil meninas e mulheres de 10 a 49 anos atendidas na rede municipal de saúde do Recife no intervalo entre 2016 e 2025.
Apesar da subnotificação, milhares de pessoas convivem com quadros álgicos incapacitantes. Um levantamento dos institutos Alana e Equidade.info indica que 4 em cada 10 meninas brasileiras que menstruam faltam às aulas pelo menos uma vez por mês por causa dos sintomas.
Racismo e acolhimento dos jovens
O guia também debate o racismo menstrual, fenômeno em que a dor de meninas negras é subestimada ou ignorada devido a estereótipos raciais, a exemplo do mito de que esses corpos suportariam mais o sofrimento.
“A violência menstrual que atinge mais populações negras, indígenas, povos originários, povos quilombolas, tanto na questão dos estigmas sobre esses corpos quanto na falta de garantia de acesso a serviços”, explica Malek.
Destinado ao público jovem, o compêndio traz orientações essenciais para o período anterior à menarca, estratégias de diálogo com a família e a escola, além de um roteiro prático para o manejo das dores físicas e emocionais. A publicação ainda traz um diário menstrual voltado ao autoconhecimento e ao suporte nas consultas médicas.
A concepção do guia nasceu de debates em núcleos formados por jovens de 13 a 22 anos vinculados aos clubes da Girl Up Brasil. A iniciativa está presente em 14 estados brasileiros, oferecendo espaços de troca e esclarecimento de dúvidas sobre a saúde menstrual.
Especialistas como ginecologistas, pesquisadores, psicólogos, uma fisioterapeuta pélvica e uma educadora colaboraram na apuração de dúvidas e na construção do conteúdo.
“Quando fiquei menstruada pela primeira vez, não sabia o que era. Vi o sangue e achei que estava doente, que ia morrer. Hoje a situação é até cômica, mas no dia eu chorei de desespero”, afirma Renata Porto, 17, integrante da organização em Maceió.
Para a jovem, o guia auxiliará meninas que ainda não passaram pela menarca, introduzindo conceitos de higiene, autocuidado e naturalizando o evento.
A publicação reforça que a primeira menstruação não anula a infância, período em que a menina deve continuar recebendo amparo e acolhimento integral.
“Você pode menstruar e continuar sendo uma menina”, destaca o texto, que também contesta a premissa de que o corpo está automaticamente pronto para a gravidez após a menarca.
Mascote para o público infantil
Paralelamente ao almanaque, a Girl Up Brasil apresenta a mascote Maria Menarquinha em São Paulo, personagem desenvolvida para auxiliar responsáveis a dialogarem com crianças sobre o tema. A estreia ocorre em um cortejo na avenida Paulista, em frente ao parque Trianon.
Voltado a crianças de 4 a 10 anos, o projeto disponibiliza um caderno com atividades pedagógicas e desenhos para colorir para download gratuito, estimulando o debate sobre saúde menstrual desde a infância.
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