Com as altas temperaturas, a busca por exercícios ao ar livre cresce em todas as idades, incluindo mulheres na menopausa, tornando fundamental redobrar os cuidados com a reposição hídrica.
“A desidratação não é apenas uma questão de sede. A redução da água corporal modifica o volume circulante e a concentração de solutos no sangue e aciona mecanismos hormonais que tentam preservar o equilíbrio interno. Entre eles estão a vasopressina, também conhecida como hormônio antidiurético (ADH), e o sistema renina-angiotensina-aldosterona”, diz a endocrinologista Dra. Deborah Beranger, com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ).
“É importante entender que a relação entre hidratação e hormônios não significa que beber água simplesmente aumente ou diminua a produção de determinado hormônio. Na verdade, quando o organismo perde água, ele modifica a secreção de vários hormônios para tentar conservar líquido e manter a pressão e a circulação adequadas. É uma resposta de defesa do próprio organismo”, completa Beranger.
O cenário ganha complexidade durante a transição para a menopausa, momento em que ondas de calor e suor excessivo afetam a regulação térmica. Combinados ao esforço físico sob sol forte, esses fatores exigem atenção redobrada aos sinais do corpo.
“A menopausa não significa, necessariamente, que a mulher ficará mais desidratada, mas os sintomas vasomotores podem tornar o calor mais desconfortável e interferir na rotina de treinos. Por isso, é importante que ela reconheça seus sinais, observe a intensidade da transpiração e organize a hidratação de acordo com as características da atividade física”, explica a ginecologista Dra. Ana Paula Fabricio.
O papel do hipotálamo e dos rins A regulação do equilíbrio hídrico é comandada principalmente pelo hipotálamo. De acordo com a Dra. Deborah, quando o suor concentra os solutos no sangue, os osmorreceptores identificam a mudança e liberam vasopressina.
“O hormônio atua principalmente nos rins, aumentando a reabsorção de água. Na prática, isso faz com que o organismo tente eliminar menos água pela urina”, explica. O processo também desperta a sensação de sede.
No entanto, exercitar-se no calor exige que o corpo divida sua atenção entre irrigar a musculatura e direcionar fluxo sanguíneo para a pele, dissipando o calor.
“O suor é uma das principais formas de resfriamento corporal. Porém, ele representa perda de água e eletrólitos. Se a reposição não acompanha essas perdas, o volume plasmático diminui. Com isso, o sistema cardiovascular precisa trabalhar mais para manter o débito cardíaco e a pressão arterial, enquanto a capacidade de dissipar calor pode ficar prejudicada”, explica a endocrinologista. “Quanto maior a perda de líquido e maior a exposição ao calor, maior a preocupação”, afirma a Dra. Deborah.
Impactos no metabolismo e na glicose O metabolismo da glicose também sofre influência direta da hidratação.
“Em pessoas com hiperglicemia importante, a glicose em excesso ultrapassa a capacidade de reabsorção dos rins e passa a ser eliminada pela urina. E isso favorece a perda de água, levando à chamada diurese osmótica. Por isso, pessoas com diabetes descompensado podem apresentar sede intensa e urinar em excesso”, diz a médica.
“Isso, porém, não significa que simplesmente beber água seja capaz de normalizar a glicemia. A hidratação é fundamental para evitar ou corrigir a perda de líquidos, mas o controle do diabetes depende do tratamento adequado da doença”, reforça a endocrinologista.
Como se reidratar corretamente após o treino Para quem encerra o exercício consciente e capaz de engolir líquidos, a recuperação precisa acontecer de forma gradual.
“Em exercícios leves e de menor duração, especialmente quando a perda de suor não foi grande, a própria alimentação e a ingestão de água ao longo do dia geralmente são suficientes para recuperar o equilíbrio. Já depois de exercícios prolongados, intensos ou realizados em temperaturas elevadas, a reposição de água e sódio pode ser importante, principalmente quando houve sudorese abundante. Bebidas isotônicas geralmente contêm também carboidrato para favorecer a absorção intestinal de água”, explica a endocrinologista.
“Por isso, em situações de desidratação associada a perdas importantes, soluções de reidratação contendo água, carboidratos e eletrólitos podem ser mais adequadas do que simplesmente ingerir grandes quantidades de água”, diz.
A especialista alerta ainda sobre os perigos da ingestão desregrada: “Beber água em excesso e rapidamente após uma atividade prolongada, sem considerar a reposição de sódio, pode contribuir para uma queda perigosa da concentração de sódio no sangue, chamada hiponatremia associada ao exercício”.
A Dra. Ana Paula reforça que a água é apenas uma das ferramentas de cuidado na menopausa: “A ingestão adequada de líquidos contribui para o funcionamento fisiológico e para a prática segura de exercícios, mas não substitui outras medidas, como adaptar o horário do treino, escolher ambientes ventilados, usar roupas apropriadas e respeitar os limites individuais. Em atividades prolongadas ou com sudorese intensa, a reposição de eletrólitos pode ser necessária, conforme as perdas e as características do exercício”.
Relação com dores de cabeça e enxaqueca Embora sede, boca seca, urina concentrada, fadiga e queda de rendimento acompanhem a desidratação, algumas pessoas sofrem com dores de cabeça persistentes após os treinos.
“Com o aumento da temperatura, o esforço se soma à dificuldade de dissipar o calor produzido pelos músculos, ao aumento da transpiração e à perda de líquidos, criando condições que podem favorecer o aparecimento do sintoma. Para pessoas com enxaqueca, especialmente quando a doença não está bem controlada, essas mudanças podem funcionar como gatilhos para uma crise”, explica o neurologista Dr. Tiago de Paula, especialista em cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP).
O médico pontua que o exercício causa reações fisiológicas normais, como aceleração cardíaca e alteração no fluxo sanguíneo. “Em pessoas suscetíveis, essas respostas podem contribuir para o desencadeamento da dor. É importante deixar claro que a atividade física é benéfica para o organismo e ajuda no tratamento da enxaqueca, mas quando a doença está descontrolada, pode apresentar dor durante o exercício. O cérebro dessas pessoas é mais sensível a determinadas mudanças fisiológicas”, esclarece.
“Isso não significa que esses pacientes precisem abandonar a atividade física e a rotina de treinos, mas que devem identificar possíveis fatores desencadeantes e adotar medidas para reduzir os riscos. Pessoas com a doença podem ser mais sensíveis às mudanças fisiológicas que ocorrem durante o esforço. O aumento da temperatura corporal, a perda de líquidos, o jejum e a intensidade excessiva do exercício podem contribuir para o surgimento de crises, sobretudo quando a enxaqueca não está bem controlada”, acrescenta.
“Não dá para deixar de fazer exercício físico porque tem dor de cabeça. É preciso entender o que está acontecendo, tratar a doença e reduzir os fatores desencadeantes. É importante pontuar que conforme o tratamento avança os gatilhos perdem força”, conclui.
Sinais de alerta para buscar ajuda médica Alguns sintomas exigem intervenção profissional urgente após longos períodos sob o sol, como confusão mental, alterações de consciência, desmaios, convulsões, incapacidade de beber líquidos, vômitos constantes ou febre interna muito alta, indícios de insolação ou doenças associadas ao calor. Nesses casos, apenas oferecer água não basta, sendo obrigatório o atendimento médico imediato.
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