Educação midiática encontra ciência e aproxima estudantes do território

Projeto escolar no Piauí une biologia, vídeos e ciência local

Educação

O que o Rio Parnaíba, as plantas medicinais da Região dos Cocais e o descarte de lixo nas ruas do município de Luzilândia, no Piauí, têm em comum? Todos esses temas se transformaram em oportunidades para investigar e comunicar a ciência por meio da educação midiática, com vídeos, entrevistas e podcasts.

Localizada no norte do Piauí, às margens do Rio Parnaíba e na divisa com o Maranhão, Luzilândia tem pouco mais de 25 mil habitantes. É nessa cidade que fica o CETI (Centro Estadual de Tempo Integral) Professora Cleonice de Castro Teles, onde desenvolvi o projeto “BioMídias: Explorando a Vida com Ciência e Tecnologia Digital”, entre maio e agosto de 2025.

A iniciativa envolveu aproximadamente 210 estudantes de sete turmas dos 2º e 3º anos do ensino médio. Minha proposta era aproximar os conteúdos de biologia da realidade dos jovens e incentivá-los a usar as tecnologias digitais para investigar e compartilhar conhecimentos científicos.

Como surgiu o projeto

Sou professora de ciências e biologia há 20 anos. Durante as aulas, percebia que muitos estudantes tinham dificuldade para relacionar os conhecimentos científicos a situações do dia a dia. Ao mesmo tempo, observava seu envolvimento com redes sociais e conteúdos audiovisuais. Criei o BioMídias para transformar essa familiaridade com as tecnologias em uma oportunidade de aprendizagem e comunicação da ciência.

O projeto integrou o programa Conexão Ciência Piauí, uma iniciativa da Secretaria de Estado da Educação e da Secretaria de Inteligência Artificial, Economia Digital, Ciência, Tecnologia e Inovação, com apoio da Fapepi (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí). Fui selecionada como professora bolsista por meio de edital, em primeiro lugar na 2ª Gerência Regional de Educação. O programa busca popularizar a ciência e aproximar os jovens das pesquisas universitárias e das possibilidades de formação científica.

Antes de iniciar as produções, perguntei às turmas quais influenciadores acompanhavam e se conheciam perfis que divulgavam ciência, oportunidades de estudo e bolsas de pesquisa. Queria ampliar seu repertório de uso das redes e ajudá-los a reconhecer possibilidades de formação, inclusive a partir da participação em olimpíadas científicas.

Confira a entrevista que os estudantes concederam ao canal Docência Diferente

Escolher o que investigar

Apresentei aos estudantes a proposta de aprender ciência pela investigação e pela produção de conteúdos digitais. Cada turma poderia escolher um assunto que articulasse suas curiosidades, os conteúdos de biologia e a realidade local.

Surgiram investigações sobre a biodiversidade do Rio Parnaíba, plantas medicinais, descarte de resíduos, mudanças climáticas no Nordeste, saúde mental, alimentação e riscos dos cigarros eletrônicos. Os temas permitiram trabalhar ecossistemas, relações ecológicas, botânica, efeito estufa, sustentabilidade, funcionamento do organismo e prevenção de doenças.

Organizados em grupos, os jovens pesquisaram, entrevistaram convidados e elaboraram roteiros. Com minha orientação, decidiram quem ouvir, quais imagens registrar e como apresentar os assuntos.

Investigar e verificar

Na dinâmica “Fake ou Fato – Ciência sem Fake News”, apresentei afirmações sobre saúde, biologia e meio ambiente, e os estudantes levantavam plaquinhas com as palavras “FAKE” ou “FATO” para avaliar cada informação. Em seguida, discutíamos as respostas e suas explicações científicas.

Entre os exemplos estavam “Beber água com limão em jejum cura todas as doenças”, “Vacinas podem causar autismo” e “O aquecimento global não afeta o Nordeste brasileiro”, todas classificadas como falsas. Também conversamos sobre a necessidade de orientação adequada no uso de plantas medicinais, pois substâncias naturais podem provocar efeitos adversos.

Essa atenção às evidências acompanhou a produção dos vídeos e podcasts. Os grupos precisavam questionar as informações que recebiam e compartilhavam e verificar sua confiabilidade.

Selecionar fontes confiáveis e comunicar as pesquisas em linguagem acessível foram dificuldades recorrentes. Orientei consultas, esclareci conceitos e revisei roteiros, trabalhando a clareza e a precisão dos conteúdos e a responsabilidade nas escolhas de imagens, falas e textos.

O território como espaço de pesquisa

A turma do 2º A investigou a biodiversidade do Rio Parnaíba e os impactos das ações humanas sobre esse ecossistema. Os jovens registraram imagens do rio, da paisagem e de resíduos próximos à água, relacionando as observações aos conceitos de ecologia, equilíbrio ecológico e conservação.

O 2º A Integrado pesquisou o descarte de lixo em Luzilândia. Os jovens acompanharam profissionais da limpeza urbana, visitaram o local de destinação dos resíduos e entrevistaram a secretária de Serviços Urbanos. Identificaram que, naquele momento, o município não dispunha de coleta seletiva.

Orientei a turma a ir além das imagens dos resíduos acumulados e relacionar o problema à poluição do solo e da água, à decomposição dos materiais e aos riscos à saúde coletiva. As observações, entrevistas e explicações dos estudantes deram origem a uma reportagem audiovisual. O grupo discutiu as responsabilidades do poder público e da população e defendeu a coleta seletiva e a destinação adequada do lixo, sintetizando sua conclusão na mensagem: “Cidade limpa não se faz sozinha!”.

O 2º B investigou as plantas medicinais da Região dos Cocais, aproximando os conhecimentos tradicionais das famílias e da comunidade das pesquisas sobre propriedades e cuidados no uso dessas plantas.

Um podcast com o farmacêutico Náiguel Castelo Branco Silva, de Luzilândia e autor de um livro sobre plantas medicinais, ampliou a discussão. Ele apresentou o projeto Farmácia Viva Comunitária e conversou com os estudantes sobre a qualidade dos fitoterápicos e sua relação com a saúde pública. Trabalhamos a compreensão de que valorizar os saberes tradicionais também exige conhecer os limites e os riscos de cada uso.

Do trabalho de campo à produção de vídeos

Durante dois meses, realizamos oficinas de produção de vídeos e podcasts e preparamos os materiais para a feira. Com os recursos de apoio ao projeto, contratei um profissional de edição para ensinar os estudantes a utilizar aplicativos no celular, posicionar a câmera e fazer cortes. A proposta era que aprendessem a editar suas próprias produções.

Os jovens utilizaram os próprios celulares, com autorização da escola, e trabalharam com CapCut e Canva. Os vídeos curtos reuniram apresentações diante da câmera, entrevistas com moradores, imagens do território e textos explicativos. Por trás de cada produção, houve pesquisa, coleta de informações, observação e reflexão. Assisti aos materiais, participei da edição e orientei revisões antes da apresentação.

Estudantes conduzem as entrevistas

O projeto contou com entrevistas com três pesquisadores e uma atividade presencial com Valdemiro Brito Gomes, estudante do 1º ano do ensino médio em São Bernardo (MA), município vizinho. Convidei-o por sua participação em olimpíadas científicas e pela divulgação de oportunidades a outros jovens. Ele compartilhou experiências com robótica, astronomia e ciência, mostrando aos estudantes uma possibilidade de atuação ainda durante a educação básica.

Para preparar as entrevistas, consultei com os estudantes os currículos Lattes dos convidados. Conhecer sua formação e suas pesquisas ajudou a direcionar as perguntas. Também apresentei o Lattes como uma forma de registrar cursos e experiências acadêmicas desde o ensino médio.

Estudantes de todas as turmas participaram dos encontros e compartilharam os vídeos com os colegas. Os jovens conduziram as entrevistas e realizaram as gravações, inclusive pelo Google Meet, com meu acompanhamento.

Em uma das conversas, as estudantes entrevistaram o físico Welberth Santos Ferreira, professor e pesquisador da UEMA (Universidade Estadual do Maranhão), que também é meu orientador no Profei (Mestrado Profissional em Educação Inclusiva).

Gabriele perguntou como ele havia se aproximado da física, como foi estudar em Portugal e quais dificuldades enfrentou na carreira. O pesquisador contou que começou a trabalhar aos 13 anos, vendendo bananas na feira, e se tornou o primeiro doutor de sua família. Também destacou a influência de uma orientadora em seu compromisso de incentivar a presença feminina na ciência.

Maria Mariele conduziu o bloco sobre inclusão. O pesquisador descreveu um modelo da dupla hélice do DNA com recursos em braile e experiências com simulações e realidade aumentada. Defendeu a participação de toda a turma, com os apoios necessários, e relatou a doação de materiais de ciência a escolas da Baixada Maranhense sem laboratório.

As perguntas sobre educação 5.0, ferramentas digitais e inteligência artificial levaram o convidado a relacionar tecnologia, pensamento crítico, criatividade e habilidades socioemocionais. Sobre a IA (Inteligência Artificial), alertou para o risco de copiar respostas sem revisão e elaboração próprias.

Luana perguntou sobre os caminhos para se tornar cientista e sobre como utilizar a tecnologia para transformar o lugar onde se vive. O convidado recomendou conhecer as áreas de pesquisa, aprofundar os estudos e buscar aproximação com as universidades. Também destacou a importância do financiamento para a produção científica.

Conhecer a pesquisa sem sair da escola

Outra convidada foi Tânia Patrícia Silva e Silva, minha ex-aluna de uma escola da zona rural e então doutoranda em ciência dos materiais. Ela compartilhou sua trajetória como mulher nordestina na pesquisa e falou sobre a importância do incentivo recebido na escola, mesmo diante da falta de materiais e recursos tecnológicos.

Durante o encontro pelo Google Meet, Tânia mostrou o laboratório, apresentou equipamentos e explicou sua pesquisa relacionada ao câncer de pele. A conexão permitiu aos jovens conhecer um espaço de pesquisa sem precisar se deslocar até a universidade.

A gravação apresentou uma falha e não pôde ser recuperada. Tânia se dispôs a responder novamente às perguntas para um novo registro, mas a visita virtual já havia sido acompanhada ao vivo pelos participantes.

As conversas ofereceram referências para as pesquisas e mostraram possibilidades de aproximação com a ciência ainda na educação básica.

Compartilhar e justificar as escolhas

O projeto culminou na Feira BioMídias, realizada em 15 de agosto de 2025, na escola. Foram apresentados sete trabalhos, um por turma. Os estudantes exibiram suas produções audiovisuais à comunidade escolar, explicaram os temas investigados, compartilharam descobertas e justificaram suas escolhas.

A banca reuniu professores de química, física e biologia da própria escola e de outras unidades, além de Valdemiro e Tânia. Foram considerados domínio do conteúdo, clareza, organização, criatividade, qualidade técnica e adequação ao tema. Os três trabalhos com as melhores notas receberam placas de destaque, e os avaliadores ofereceram devolutivas sobre as produções.

A comunidade foi convidada, e os estudantes do 1º ano, que não haviam participado da produção dos trabalhos, puderam assistir às apresentações. Os vídeos também circularam em grupos de WhatsApp da cidade, ampliando o público dos conteúdos.

O que observei na aprendizagem

A avaliação ocorreu ao longo do processo, pelo acompanhamento das pesquisas, discussões, roteiros, entrevistas e produções audiovisuais. Observei a participação dos estudantes, as explicações que construíam e sua capacidade de relacionar os conteúdos às situações investigadas. Também acompanhei mudanças na comunicação. Alguns jovens que inicialmente demonstravam timidez e insegurança passaram a conduzir entrevistas, gravar vídeos e apresentar suas pesquisas com mais confiança e desenvoltura. Não houve coleta sistemática de depoimentos individuais.

Aprendizados para a minha prática

Conciliar as oficinas e as pesquisas com o currículo exigiu organização e apoio da coordenação. Mesmo em uma escola de tempo integral, os horários já estavam preenchidos, especialmente para o 3º ano, com a preparação para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). A conexão instável e a disponibilidade de equipamentos também exigiram adaptações.

Em uma próxima edição, reservaria mais tempo para as investigações e oficinas. Também aplicaria questionários antes e depois do projeto para acompanhar mudanças na maneira de buscar, avaliar e compartilhar informações científicas. Incluiria momentos de autoavaliação e registros dos depoimentos dos jovens para compreender melhor os percursos individuais.

Ao escolher temas, ouvir pessoas, registrar o território e explicar o que aprenderam, os estudantes participaram da construção e da comunicação do conhecimento científico. O BioMídias reforçou minha convicção de que ensinar biologia é criar oportunidades para investigar e compreender o mundo.

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