Irmãs disputam à bala o controle de torcida organizada do futebol argentino

Irmãs travam guerra armada pelo comando de torcida na Argentina

Esportes

Uma disputa familiar inédita e violenta pelo controle de uma torcida organizada choca o futebol argentino. Na Grande Buenos Aires, duas irmãs lideram facções rivais da “barra brava” do Chacarita Juniors, clube da segunda divisão, em uma guerra sangrenta pelo domínio de negócios ilegais, extorsões e do tráfico de drogas na região.

“Você só pode estar brincando. Sobre a barra não se fala”, diz o homem, que aparentava cerca de 60 anos, ao abrir a porta de sua casa na rua Gutiérrez, na Villa Maipú, bairro que cresceu em tradição de trabalhadores ferroviários, na Grande Buenos Aires.

“Barra” é referência a barras bravas, líderes das torcidas organizadas da Argentina. Grupos associados a atos violentos, eles controlam negócios ilegais e lucrativos ao redor do estádio. Comandam cambistas, vagas de estacionamento, aluguéis por espaços para venda de alimentos, de camisas do time e drogas. Os barras dos grandes times se orgulham das ligações políticas e do poder para mobilizar gente em manifestações a favor ou contra o governo.

A barra do Chacarita Júnior, clube da 2ª divisão, é diferente porque a escalada de violência dos últimos anos é a maior do país. É a única barra que tem como líder uma mulher. E vive uma guerra com grupo dissidente comandado pela sua irmã.

Nesta segunda-feira (2), o time joga uma decisão para permanecer na divisão de acesso. Precisa vencer o Nueva Chicago, em casa, para não cair.

O temor dos moradores da região ouvidos pela reportagem é a repetição das cenas do último dia 5 de setembro, quando o Chacarita perdeu para o Atlanta por 1 a 0. Após a partida, nas ruas repletas de residências ao redor do estádio, estourou a guerra pelo controle da barra, com troca de tiros. Foram quatro feridos.

“É uma história única no futebol argentino e em todo o planeta. Se, com as naves de Elon Musk,chegarmos em algum momento a Marte ou Vênus, encontrarmos vida parecida com a nossa e contarmos essa história, dirão que não é mentira”, disse a um programa de YouTube um jornalista especializado em barras bravas e o primeiro a apresentar o assunto à atenção do público.

Moradores dos arredores do estádio, um ex-dirigente e jornalistas que acompanham o clube conversaram recentemente sob a condição de anonimato. Todos não querem que seus nomes sejam divulgados. Entre os procurados, a maioria se recusou a falar.

Uma das feridas no tiroteio de setembro foi Angélica Molina, 60. Ela é a líder da “Famosa Barra de San Martín”, a organizada oficial da equipe. A disputa que resultou em tiroteio foi com a dissidência chamada “Los Pibes de Chacarita”, comandada por Ana Molina, sua irmã.

A reportagem tentou localizá-las, mas não conseguiu. O mesmo vale para seus advogados.

A ascensão ao poder A chegada ao poder de Angélica foi pela união estável com Raúl Escalante, o Muchinga, chefe da barra do Chacarita Júnior e influente na AFA (Associação de Futebol Argentino). Ele foi convidado a se tornar dirigente da clube em 2017. Aquilo poderia ser um problema. Seria inviável estar no centro do poder e controlar a barra. Perder o comando dos organizados significaria abrir mão de dinheiro. A solução foi colocar Angélica em seu lugar.

De acordo com especialistas, o estilo da nova chefe, de dividir menos os lucros e concentrar decisões, começou a causar desgaste. Em 2018, Escalante sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e ficou inválido, antes de morrer em maio de 2024. Angélica assumiu de vez o poder ao lado do filho Diego Canteros.

Os atos se tornaram ainda mais centralizados, o que aumentou a irritação de antigas lideranças. Uma mais do que todas: Juan Cegal, cunhado de Ana Molina. A irmã de Angélica começou a arregimentar os descontentes para formar um grupo e lutar pelo controle da barra.

Segundo um ex-dirigente do Chacarita, houve tentativas de conciliar as facções, mas as conversas foram abortadas. A percepção foi que os interesses eram inconciliáveis. Nenhuma das irmãs queria dividir qualquer coisa. Troca de áudio, mostrada publicamente, fala em ameaças de morte entre as duas e contra os respectivos filhos.

Um jornalista que cobre o clube lembra outro fato que causou fúria na dissidência: Angélica teria registrado em seu nome todas as músicas cantadas pela torcida do Chacarita Júnior. Especialistas lembram que os dois grupos começaram a brigar pelo controle do poliesportivo do clube, em que cobravam pelo uso de outros torcedores. Em uma das disputas, Canteros levou oito tiros, mas sobreviveu.

Tráfico e rotina no bairro A guerra envolve também o domínio da venda de drogas na região do estádio e bairros vizinhos. E, neste caso também Angélica e Ana estão em campos opostos. Cada uma escolheu cartel diferente como grupo de apoio para derrotar a rival. O prêmio, em caso de vitória, seria o domínio do tráfico naquela área.

A guerra das irmãs barras bravas acontece longe do dia a dia dos sócios. Chacarita, na zona norte de Buenos Aires, foi eleita pela revista Time Out, o 22º bairro mais descolado do mundo. O time joga fora da capital após ter perdido para maior maior adversário, o Atlanta, o terreno em que atuava.

A sede social, na rua Teodoro Garcia, a dez quilômetros de distância do estádio, tem frontaria em vermelho e preto, em parte envidraçada, com piscinas, quadras, bar e restaurante. Em visita ao local, a reportagem perguntou a funcionários sobre as irmãs Angélica e Ana Molina. Ninguém ouviu falar delas.

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