Uma das uniões mais duradouras e bem-sucedidas do design nacional ganha um novo capítulo. Ao completar 22 anos de parceria criativa, a Melissa e o Estúdio Campana anunciam a chegada da coleção Laguna, prevista para desembarcar nas lojas em outubro. A novidade coroa uma trajetória histórica marcada por mais de oito milhões de pares de calçados comercializados ao longo de dez grandes lançamentos.
Fundado em 1984 pelos irmãos Humberto e Fernando Campana (1961-2022), o ateliê brasileiro conquistou prestígio internacional e espaço nos principais museus do mundo ao ressignificar materiais ordinários — como papelão, borracha, pelúcias e cordas — em peças de alta relevância estética. Essa mesma visão disruptiva aproximou os designers da fabricante de calçados, que revolucionou o mercado ao transformar o plástico em artigos de moda desejados, distanciando-se do uso convencional do couro.
“Design de produto e moda estão conectados, fazem parte de um mesmo universo”, reflete Humberto. “Logo de início, houve um entendimento de que o segredo era sair da zona de conforto”, relembra o designer.
Inovação e expansão para além dos calçados
A cooperação teve início em 2004 com o modelo ZigZag, cujo visual marcante de tiras entrelaçadas de PVC testou a capacidade técnica da injeção plástica. Nos períodos seguintes, o experimentalismo ditou o ritmo das coleções: a linha Papel reproduziu a textura do papelão ondulado, enquanto a série Barroca misturou elementos tropicais brasileiros com referências estéticas romanas.
A força da colaboração também extrapolou o universo dos calçados e alcançou a arte monumental. Na Semana de Design de Milão de 2019, a dupla apresentou no distrito de Brera uma instalação de dois metros de altura feita com fios de PVC reciclado — obtidos a partir de produtos descartados da própria marca — e trançada à mão por mais de 20 grupos artesanais, incluindo a ONG Projeto Arrastão.
Coleção Laguna: tributo à natureza brasileira
Para marcar mais de duas décadas de trabalho conjunto, a sapatilha Laguna traz uma particularidade: trata-se do primeiro item da história da colaboração concebido do zero, sem derivar de peças de mobiliário previamente desenvolvidas pelo Estúdio Campana. O modelo traz recortes circulares que deixam os pés à mostra, inspirando-se diretamente na paisagem dos Lençóis Maranhenses.
“As linhas orgânicas e a pureza daquele lugar são impressionantes. Quis trazer a fluidez e a transparência para esta coleção”, afirma Humberto Campana.
O gerente de marca da Melissa, Paulo Pedó, pontua que a longevidade da aliança vai muito além dos números expressivos de vendas. “Existe uma simbiose poética, tecnológica e ética”, comenta ele. “A Melissa nunca tentou enquadrar os Campana em uma fórmula comercial rígida, e o Estúdio Campana jamais tratou a Melissa como uma mera licença de marca”, pondera.
Para os criadores, o impacto reside na democratização estética aliada à produção em massa. “A Melissa nos permitiu extrapolar possibilidades em escala industrial e democratizar o acesso ao design”, reflete Humberto. “Hoje, vejo pessoas usando nossas sapatilhas no país todo, e no exterior também. Isso me dá orgulho. É como se eu fizesse parte do cotidiano delas de alguma forma”, comemora.
“Provamos que o plástico original da Melissa não se curva a modismos e tendências passageiras. Ele guia o tempo e constrói um vínculo afetivo que passa de geração em geração”, resume Paulo Pedó.
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