A relação de Hanayrá Negreiros com a caixa de fotografias da família Negreiros começou na infância e se aprofundou à medida que ela buscou entender suas origens, marcadas pelas lacunas que o processo escravista deixou em muitas famílias afro-brasileiras. O ato de tatear acervos transformou-se em profissão: após se graduar em moda, ela seguiu para a pesquisa, conectando história, arte e vestimenta. Nesse caminho, descobriu mais sobre seus antepassados, fascinou-se pelas joias, balangandãs e pela estética de mulheres negras em fotos oitocentistas, incomodou-se com a ausência de nomes nesses registros, estudou a moda no candomblé e atuou como curadora nas artes visuais.
“Escrever este livro foi como secar um varal de roupas à sombra fresca”, conta Negreiros nas primeiras páginas da publicação, um projeto iniciado em 2021, quando escrevia para a revista Elle. Como estreia literária da autora paulistana, “Negras maneiras de vestir: moda, memória e arte afro-brasileira” propõe um olhar renovado para a moda, valorizando acervos familiares e saberes herdados, além de repensar a história do Brasil para além do viés colonial.
Raízes e registros familiares
Negreiros inicia o livro investigando a trajetória de sua família em São Paulo e no Maranhão por meio de imagens antigas, analisando roupas e contextos dos retratos. Documentos pessoais adquirem relevância coletiva devido às vivências compartilhadas por diversas famílias negras, como o aniversário de 15 anos da tia Ana Luiza em Luís, nos anos 80, e a foto do avô trajando roupa de baile no Aristocrata Clube nos anos 60 e 70.
A autora relata que permitir a emoção guiar sua escrita foi essencial. “Não queria romantizar, mas mostrar a beleza”, afirma a pesquisadora, cujos familiares mantêm longa relação com a moda: a avó Therezinha atuava como costureira na Liberdade, em São Paulo, enquanto o avô Alcindo trabalhava como alfaiate no Maranhão, e a avó Janoka lavava e engomava roupas profissionalmente.
O poder e o silêncio das imagens oitocentistas
No segundo capítulo, o foco recai sobre as fotografias do século 19 que impressionaram Negreiros em 2014, durante um curso sobre joalheria africana e afro-brasileira. As imagens, pertencentes a acervos como o de Marc Ferrez no Instituto Moreira Salles, destacam as vestimentas, acessórios, poses, olhares e também as ausências de identificação.
Uma dessas fotos foi determinante: originalmente rotulada como “Mulher negra da Bahia”, ela passou a ser chamada pela autora de “A belíssima da Bahia”, imagem que estampa a capa do livro em registro fotográfico de Juh Almeida. A autora compreendeu a importância de “ouvir arquivos, escutar imagens” e de “imaginar para além do que lhe foi contado”, unindo rigor documental e subjetividades para fabular criticamente diante de histórias subjugadas, conforme ensina a estadunidense Saidiya Hartman. Uma peça vestida por essa mulher conduziu a pesquisadora pelos jornais em busca de vestígios sobre o pano da costa, herança africana de grande popularidade no Brasil imperial.
Axé e religiosidade
Candomblecista, Hanayrá Negreiros dedicou seu mestrado na PUC-SP para analisar a relação entre moda e axé no Redandá, terreiro criado em 1970 em Embu-Guaçu, na Grande São Paulo, que ela frequenta desde 2012. A autora recorda sua primeira visita ao templo, vestindo jeans, tênis e jaqueta, sentindo-se “totalmente fora de moda” até perceber uma nova estética e compreender que aquelas vestes guardavam “histórias, afetos e legados”.
O terceiro capítulo examina fotografias de sacerdotes da casa, enfatizando as vestimentas como linguagem própria do candomblé na cultura visual do país, e resgata a capa da revista O Cruzeiro de 1967 com o babalorixá Joãozinho da Goméia (1914–1971), avô de santo de Pai Guiamazy, líder do Redandá.
Diálogo com as artes visuais
O quarto e último capítulo reflete a trajetória de Negreiros como curadora, tendo passado por exposições diversas e atuado como curadora-adjunta de moda no MASP. A autora aproxima trabalhos de artistas como Rosana Paulino, Aline Motta, Ângela Brito e Larissa de Souza, integrando moda e artes visuais por meio de temáticas como cotidiano, cura e memória, além de processos que incluem fotografias costuradas, impressas em tecidos e roupas estampadas com retratos.
Para Negreiros, encerrar a obra dialogando com outras artistas negras consolida uma prática presente em toda a publicação, que também recorre a escritoras e pesquisadoras. “Tem um universo que faz este livro existir. O que eu acho incrível é poder me basear nessas mulheres, porque elas me permitiram pensar de outra forma”, pontua.
A escolha por integrar investigação acadêmica e narrativa pessoal veio de referências como Angela Davis, Beatriz Nascimento, bell hooks, Carol Tulloch e Lélia Gonzalez, além do estímulo de Ana Paula Xongani, autora do prefácio. “Fui entendendo como essas mulheres têm uma produção escrita grande, mas também uma oralidade muito forte”, conclui a autora, que coroa sua pesquisa com uma obra reparadora da memória nacional.
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