As investigações conduzidas pela Polícia Civil a respeito dos cadáveres localizados em espaços públicos da capital paulista registraram avanços expressivos, com a elucidação da motivação em quatro episódios distintos. Os agentes concluíram que os homicídios foram praticados contra indivíduos que teriam descumprido determinações impostas por marginais ou que mantinham desavenças com eles, permitindo a proximidade da conclusão de alguns inquéritos.
De acordo com o levantamento policial, uma das vítimas era um dependente químico que teria desviado recursos do tráfico de entorpecentes. Em outra ocorrência, o assassinato serviu como represália pela prática de furtos executados sem autorização prévia. Um terceiro caso envolveu um homicídio motivado por vingança após a denúncia da comercialização de drogas, enquanto a quarta situação decorreu de um conflito direto com faccionados. Outros detalhes não foram divulgados.
Desde o início, a principal hipótese da polícia era de que as mortes eram resultado de retaliações por parte de criminosos. Delegados e investigadores ouvidos explicaram que a maior parcela dos crimes ainda sem solução também abrange usuários de entorpecentes suspeitos de furtos e delitos de menor potencial ofensivo. A suspeita recai sobre execuções ordenadas pelo chamado tribunal do crime, estrutura voltada a punir quem desrespeita as normas locais.
“Ensacar e descartar é uma forma de melhor transportar o corpo e também evitar fluidos biológicos, sangue e odores. Além de dificultar localização, identificação e investigação”, afirmou a diretora do DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa), Ivalda Aleixo, no começo de outubro, liderando as apurações. A polícia ressalta a inexistência de conexões diretas entre as ocorrências, executadas por diferentes facções, enquanto analisa eventual envolvimento do PCC (Primeiro Comando da Capital) ou a atuação de células locais.
Estatísticas e novos desdobramentos No intervalo de dois meses, entre 5 de setembro e quinta-feira (5), contabilizaram-se pelo menos 14 corpos desovados sob circunstâncias semelhantes em São Paulo, alguns amarrados com cordas. A Secretaria de Segurança Pública da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) registra 20 ocorrências no total da região metropolitana.
Um caso recente ocorreu na manhã de quarta-feira (4), quando o cadáver de um homem foi abandonado dentro de um carrinho de supermercado na avenida 23 de Maio, nas proximidades de uma concentração de usuários de crack. Um suspeito acabou preso pela Polícia Militar portando um revólver, mas permaneceu em silêncio durante os questionamentos da Polícia Civil.
Entre os alvos de apuração está Jean Victor Sousa Guimarães, localizado em 22 de outubro em um terreno baldio na rua Paulo da Silva, Jardim do Lago, zona oeste da capital. Imagens de segurança registraram o descarte do corpo, que apresentava as mãos amarradas e a cabeça coberta por um saco. Familiares informaram que ele nasceu em Valença (BA), tinha histórico de consumo de drogas e furtos, e havia retornado para a casa de uma tia após se desentender com um colega em Santos. A polícia não confirmou se este caso está entre os quatro já esclarecidos.
Dispersão da cracolândia e recados de poder Policiais da periferia avaliam que a dispersão da antiga cracolândia no centro de São Paulo influenciou o cenário, pois a migração de dependentes para novos bairros gerou atritos com moradores e traficantes locais. O episódio da avenida 23 de Maio reforça essa leitura. A vítima encontrada sob o viaduto Jaceguai exibia sinais de violência, como mordidas de cães e ferimentos na cabeça, além de cordas ao redor do corpo, sem identificação até a manhã de quinta-feira (5).
Moradores de rua relataram ter visto o carrinho durante a madrugada, sem verificar o conteúdo. Uma delegada pontuou que, enquanto grupos locais preferem ocultar corpos em matagais para dificultar o trabalho policial, a exposição em vias públicas pode indicar uma estratégia de facções para demonstrar presença.
O promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) do Ministério Público paulista, entende o abandono em áreas públicas como um aviso. “Não acredito em nova dinâmica. A questão dos cemitérios clandestinos era para casos de julgamento pelo tribunal do crime, em que não precisam passar um recado para outros integrantes e para inimigos”.
Para o professor da FGV Rafael Alcadipani, o fenômeno exige rigor analítico. “Você colocar uma pessoa morta num carrinho de supermercado no caminho da avenida 23 de Maio é você estar querendo mandar um sinal de poder. Já tem toda uma repercussão a respeito disso. Não é uma coisa que está começando agora. Quer se entrar dentro dessa lógica, dessa repercussão, que está acontecendo e mandar um sinal.”
Em nota oficial, a Secretaria de Segurança Pública informou que a Polícia Civil realiza diligências para elucidar a morte na avenida 23 de Maio, enquanto os demais inquéritos prosseguem. “O Departamento de Homicídios e as unidades descentralizadas aguardam a finalização de laudos periciais que devem subsidiar a continuidade das investigações sobre os casos”.
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