Natural do Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, a chef Alessandra Montagne foi criada pelos avós na cidade mineira de Poté. Sua jornada rumo à Europa começou aos 22 anos, quando embarcou para a França com um visto de estudante válido por seis meses. Ao chegar à Cidade Luz, apaixonou-se pelo local e decidiu fixar residência definitiva.
Após se formar em gastronomia na escola Médéric, ela construiu uma sólida reputação em Paris à frente de dois estabelecimentos elogiados por público e crítica: o Nosso, focado em culinária contemporânea francesa com toques brasileiros, e o bistrot Tempero, que aposta em uma vertente mais casual e afetiva.
A carreira da chef ganhou novos horizontes em julho de 2026, quando inaugurou um restaurante no mezanino do Louvre, o museu mais visitado do planeta. Além disso, ela prepara sua estreia assinando um cardápio no Brasil e assumindo a cozinha do Nanö Beach Hotel, localizado na Bahia. No dia 14 de novembro, Alessandra é uma das presenças confirmadas no Mesa Tendências para debater a hospitalidade como motor de transformação socioambiental.
Abaixo, confira a entrevista exclusiva com a chef sobre sua trajetória e os próximos passos:
O que da cozinha brasileira você faz questão de levar para a sua gastronomia na França?
“Faço questão de levar comigo a alma da cozinha brasileira: essa generosidade, essa espontaneidade e essa capacidade de transformar ingredientes simples em algo cheio de significado. A cozinha brasileira é profundamente ligada à memória, à terra, à biodiversidade e às histórias das pessoas. São sabores que carregam afeto e identidade. Levo também o nosso jeito de cozinhar, essa coisa de não ter medo de misturar influências, de experimentar. Mesmo estando na França, minha cozinha sempre teve raízes brasileiras. Sempre mantive viva essa maneira de olhar para a comida e entender que ela é, antes de tudo, uma forma de compartilhar minha história.”
Como construir uma cozinha mais humana, tanto para quem trabalha nela quanto para quem se senta à mesa?
“Acredito que uma cozinha mais humana começa pelo respeito. Durante muito tempo, o ambiente profissional da gastronomia foi associado a uma cultura de pressão, hierarquia rígida e sacrifício. Mas não acredito que seja preciso sofrer para fazer uma cozinha de excelência. É possível exigir qualidade, disciplina e comprometimento sem perder a empatia. Quem trabalha comigo precisa sentir que faz parte de um projeto, que sua voz é ouvida e que seu trabalho tem valor. E isso se reflete diretamente na experiência de quem se senta à mesa. Uma equipe respeitada, feliz e envolvida transmite outra energia. A hospitalidade não começa quando o prato chega na mesa do cliente, ela começa dentro da cozinha, na maneira como tratamos uns aos outros todos os dias.”
O que é, para você, de fato, a hospitalidade?
“Hospitalidade é fazer alguém se sentir esperado, acolhido e pertencente, mesmo que esteja entrando em um lugar pela primeira vez. É perceber o outro, entender as necessidades e expectativas e oferecer algo que vá além do serviço e do ambiente. Para mim, a hospitalidade está nos pequenos gestos, na atenção, no cuidado, no sorriso sincero. Não é apenas receber bem, é criar uma conexão. Acredito muito que a comida tem esse poder de aproximar pessoas, de diminuir distâncias e de construir pontes entre culturas. No Muses, dentro do Louvre, essa ideia ganha uma dimensão ainda mais bonita: recebemos pessoas do mundo inteiro, de diferentes origens, línguas e culturas. Quero que cada uma delas encontre na nossa mesa um lugar onde possa se sentir em casa.”
O que os brasileiros têm de particular na maneira de receber? E o que você aprendeu com os franceses?
“O brasileiro tem essa generosidade muito espontânea, essa capacidade de abrir a casa, a mesa e a vida para o outro. Muitas vezes a gente recebe com aquilo que tem, sem grandes formalidades, mas com muito carinho. Já na França, aprendi a importância do rigor, da técnica, da valorização do produto e também dos rituais à mesa. Os franceses têm uma relação muito especial com o tempo da refeição, com a escolha dos ingredientes e com a construção de uma experiência gastronômica. Acho que minha identidade está justamente nesse encontro: trago o calor e a generosidade brasileira e a técnica e a tradição que aprendi na França. São duas culturas que se complementam muito bem.”
Estar dentro do Louvre, cercada por algumas das maiores obras da humanidade, mudou sua maneira de compreender a gastronomia como expressão cultural?
“Sem dúvida! Estar dentro do Louvre é uma experiência que provoca muitas reflexões porque sou apaixonada por arte. Estamos cercados por obras que atravessaram séculos, que contam histórias de civilizações, de povos, de identidades e de diferentes maneiras de compreender o mundo. Isso me faz pensar ainda mais na gastronomia como uma expressão cultural. A comida também conta a história de um povo, revela suas origens, seus deslocamentos, suas influências e sua relação com a natureza. Um prato pode carregar tanta história quanto uma obra de arte. Assumir a cozinha do Muses, em julho, dentro de um espaço tão simbólico e que recebe visitantes do mundo inteiro, é também assumir a responsabilidade de apresentar um pouco da minha própria história e da cultura brasileira a esse público. É uma oportunidade extraordinária de mostrar que a gastronomia é uma linguagem universal.”
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