A Nasa está acelerando os preparativos para enviar um trio de helicópteros à atmosfera de Marte, impulsionados pela espaçonave interplanetária SR-1 Freedom. Programada para decolar em 2028, a nave cargueira será a primeira propulsionada por fissão nuclear na história e terá a função primordial de transportar a cápsula de entrada SkyFall, encarregada de liberar os três veículos aéreos sobre o Planeta Vermelho.
A trajetória traçada para a missão fará com que as aeronaves cheguem ao hemisfério norte marciano durante a primavera local, estratégia pensada para evitar as perigosas tempestades de poeira da região. O projeto bebe da fonte do Ingenuity, primeiro veículo a voar em outro planeta, que foi desenvolvido originalmente para realizar apenas cinco voos, mas superou todas as expectativas ao completar mais de 70 missões na Cratera Jezero antes de danificar seu rotor.
No projeto SkyFall, as três aeronaves idênticas serão soltas pelo veículo de entrada a cerca de 1.000 metros de altitude (aproximadamente 3.300 pés, ou pouco menos de uma milha) na atmosfera marciana, descendo e pousando de maneira completamente independente.
Alvos científicos e preparação para viagens humanas
A missão tem como meta realizar investigações essenciais para a ciência planetária e pavimentar o caminho para a futura exploração humana de Marte. As previsões apontam que as aeronaves voarão para além da elipse de pouso inicial, alcançando setores de grande interesse dentro de uma área exploratória ampliada.
Para definir os trajetos de voo e as regiões prioritárias, o Programa de Exploração de Marte da Nasa e a equipe do SkyFall no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) trabalharão em conjunto. Um primeiro workshop técnico está marcado para o início do próximo ano para avaliar potenciais locais de pouso e zonas adjacentes, respeitando as restrições de engenharia da nave. Um segundo encontro ocorrerá no final de 2027 para consolidar as escolhas.
“O projeto identificou um local de pouso de referência que tem como alvo depósitos de gelo de água subterrâneos com terrenos glaciais ou periglaciais”, explicou Matthew Golombek, cientista do projeto SkyFall no JPL.
Segundo Golombek, os helicópteros têm capacidade de percorrer de um a dois quilômetros a cada dois sóis (dias marcianos), viabilizando trajetórias acumuladas entre 200 e pouco mais de 300 quilômetros (de 125 a 185 milhas). “Os helicópteros foram projetados para durar 6 meses, com uma meta de um ano terrestre e cada um pode voar a cada dois sóis, portanto, múltiplos voos são esperados”, acrescentou o pesquisador.
Tecnologia avançada e caça ao gelo marciano
Mesmo com dimensões ligeiramente maiores que as do pioneiro antecessor, a base operacional permanece a mesma. “Embora os helicópteros sejam um pouco maiores que o Ingenuity, eles estão sendo projetados para operar exatamente da mesma forma, de modo que toda a experiência com as operações do Ingenuity será diretamente relevante”, ressaltou Golombek.
A carga útil de cada aeronave contemplará cinco instrumentos científicos, somados a câmeras de navegação. Esse conjunto estudará a estrutura subterrânea, a meteorologia, os níveis de radiação e a geologia de Marte. Sem um instrumento específico para vento, os próprios helicópteros atuarão como sensores móveis, podendo entrar em um “Modo Balão” para flutuar ao sabor das correntes atmosféricas.
Um dos equipamentos mais importantes a bordo é o radar de penetração no solo (GPR), capaz de identificar camadas e depósitos rasos inacessíveis aos radares orbitais. A detecção de gelo próximo à superfície é fundamental para o abastecimento de expedições com astronautas e guarda pistas vitais sobre o passado climático do planeta, além de representar um ambiente prioritário na busca por possíveis sinais de vida passada ou presente.
Manobra inovadora de pouso
A empresa AeroVironment (AV), parceira do JPL e co-desenvolvedora do Ingenuity — que encerrou suas atividades com 72 voos realizados —, foi contratada em agosto passado para atuar no co-design e na fabricação dos novos veículos aéreos.
“Agora, com o SkyFall, estamos levando a mentalidade de sistemas não tripulados de alto volume da AV para a exploração planetária e mostrando que os helicópteros de Marte podem ser construídos como uma linha de produtos repetível, não como uma entrega única”, declarou Jeff Rodrian, chefe da MacCready Works, divisão de pesquisa e desenvolvimento da companhia.
Para tocar o solo marciano, as aeronaves realizarão a inédita “manobra SkyFall”: serão soltas diretamente da nave de entrada, desdobrando-se no ar e completando a descida sob sua própria sustentação. “Ao eliminar a necessidade de um estágio de pouso descartável ou de um rover hospedeiro (como o Ingenuity exigiu com o Perseverance), essa abordagem reduz significativamente o risco técnico e financeiro de chegar à superfície marciana”, destacou o comunicado da parceira tecnológica.
O alcance aéreo promete transformar a coleta de informações no planeta vizinho. “Assim como aqui na Terra, os helicópteros de Marte podem cobrir distâncias rapidamente e ir a lugares que seriam impossíveis de alcançar por terra”, observou Will Pomerantz, diretor de empreendimentos espaciais da AeroVironment. “Os três helicópteros SkyFall vão nos mostrar partes de Marte que nunca vimos antes e retornar montanhas de dados para os cientistas analisarem minuciosamente”, concluiu.
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