No interior gaúcho, as ruínas da igreja erguida por jesuítas e guaranis no século 18 são o único pedaço brasileiro de um Patrimônio Mundial dividido com a Argentina desde 1983

Ruínas de São Miguel das Missões guardam a história jesuíta no Sul

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Localizada no noroeste do Rio Grande do Sul, a fachada de arenito avermelhado da antiga igreja de São Miguel das Missões permanece de pé em meio ao gramado, quase trezentos anos após sua construção por padres jesuítas e indígenas guaranis. O local representa o único trecho brasileiro integrante das Missões Jesuíticas Guaranis reconhecidas pela Unesco, figurando como parada obrigatória em roteiros históricos pela região Sul.

As origens e a construção da redução Fundada inicialmente em 1632, a redução foi reerguida em 1638 em outro ponto do atual território gaúcho. O local integrava os Sete Povos das Missões, aldeamentos onde os jesuítas reuniam os guaranis para atividades de catequese, lavoura e artesanato.

A edificação da igreja ocorreu entre 1735 e 1750, com projeto atribuído ao jesuíta italiano Giovanni Battista Primoli. Os blocos de pedra foram esculpidos pelos próprios guaranis, que dominavam técnicas de cantaria, escultura e música. A trajetória do Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo também é marcada pela Guerra Guaranítica, conflito que esvaziou o povoado na década de 1750.

O reconhecimento da Unesco e a conexão com a Argentina A inclusão das ruínas de São Miguel das Missões na lista do Patrimônio Mundial pela Unesco aconteceu em 1983. No ano seguinte, a inscrição foi ampliada para formar um bem transfronteiriço único denominado Missões Jesuíticas Guaranis, agregando quatro reduções situadas na província argentina de Misiones. O tombamento do sítio gaúcho pelo Iphan, contudo, é muito anterior, datando de 1938.

Do lado argentino, as reduções que compõem o título são: * San Ignacio Miní, a mais visitada e com o portal barroco mais bem preservado; * Santa Ana, cercada por mata nativa; * Nuestra Señora de Loreto, com vestígios de oficinas e moradias; * Santa María la Mayor, que ficou inacabada.

Principais atrações do sítio arqueológico A fachada da igreja, composta por colunas e arcos, destaca-se como o elemento mais fotografado e a estrutura mais resistente ao tempo. Ao redor, encontram-se os restos das moradias indígenas, do colégio, do cemitério e da ampla praça que centralizava a rotina do povoado.

O Museu das Missões, concebido por Lucio Costa em 1940, abriga imagens sacras entalhadas em madeira por artistas guaranis. Ao cair da noite, as paredes de pedra servem de tela para um espetáculo de som e luz que narra a trajetória da redução. O espaço integra o Parque Histórico Nacional das Missões, estabelecido em 2009 junto com São Lourenço Mártir, São Nicolau e São João Batista.

Planejamento e dicas para o roteiro Situado a cerca de 490 km de Porto Alegre, o acesso a São Miguel das Missões ocorre predominantemente de carro ou ônibus via Santo Ângelo, cidade com aeroporto regional localizada a cerca de 60 km das ruínas. Recomenda-se observar alguns cuidados antes de iniciar a viagem: * Reserve pelo menos um dia inteiro para as ruínas, o museu e a apresentação noturna; * Prefira o outono e a primavera, porque o verão na região passa fácil dos 35 °C e o inverno traz geadas; * Use calçado confortável, já que o percurso é todo em gramado e chão batido; * Leve RG ou passaporte em dia se quiser esticar até San Ignacio Miní, do lado argentino; * Separe um tempo para comprar o artesanato guarani vendido na entrada do sítio.

Herança histórica entre fronteiras Caminhar por entre as ruínas permite compreender como jesuítas e guaranis estruturaram, em uma área disputada pelas coroas de Espanha e Portugal, povoados autossuficientes com igreja, oficinas e escolas musicais. Cada bloco de arenito trabalhado reflete a maestria dos indígenas que habitaram a região por mais de um século.

Para os viajantes que exploram o Rio Grande do Sul, a visita às Missões proporciona um trajeto que une arqueologia, arte sacra e as paisagens do pampa. Com as reduções argentinas no roteiro, o circuito das Missões Jesuíticas Guaranis possibilita cruzar fronteiras e séculos em poucos dias de viagem, complementada por pousadas aconchegantes e a culinária típica local.

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