A chegada da Corazul Cruzeiros ao mercado brasileiro, trazendo como grande novidade o navio Buenavista, transformou-se em um fiasco comparável ao famoso Fyre Festival. Apostando em tarifas populares com sistema all-inclusive, a empresa tentou atrair o público que ficou órfão da Pullmantur. No entanto, a viagem inaugural foi assolada por longas filas, desorganização geral, piscinas fechadas e problemas estruturais graves, incluindo goteiras, vazamentos de esgoto, ausência de água quente e banheiros com descargas quebradas em algumas cabines.
Operada pela recém-criada companhia espanhola Corazul Cruceros, a embarcação aportou no Brasil cercada de desconfianças. Diante de um desempenho comercial abaixo das expectativas na Europa, a empresa cancelou sua estreia no Mediterrâneo e decidiu iniciar as atividades diretamente no país. O navio, originalmente batizado de Piano Land e operado a partir de Hong Kong, enfrentou problemas durante o translado, resultando no cancelamento da primeira saída de Santos, agendada para 26 de outubro.
A partida oficial rumo ao Rio de Janeiro e Búzios ocorreu na sexta-feira, 30 de outubro, com um atraso de duas horas devido a um embarque confuso. A bordo estavam majoritariamente agentes de viagem, jornalistas e influenciadores, além de dezenas de passageiros pagantes remanejados.
Problemas estruturais e caos na alimentação
Nas primeiras horas a bordo, o atendimento sofreu com a escassez de tripulantes nos poucos bares abertos e filas unificadas para qualquer tipo de pedido. Enquanto a cabine deste repórter não apresentou defeitos, multiplicaram-se relatos de suítes afetadas por goteiras, falta de água quente e descargas inoperantes.
Das três piscinas disponíveis, apenas duas funcionavam inicialmente, sendo uma delas esvaziada e fechada logo no dia seguinte, já no Rio de Janeiro. A chegada à capital fluminense também sofreu atraso, encurtando o tempo em terra e elevando a insatisfação geral. Na primeira e na segundanoite, as filas para os restaurantes à la carte atravessavam o navio, gerando aglomerações e esperas superiores a duas horas. Como alternativa, muitos recorreram ao bufê, que oferecia pratos insossos e filas para bebidas.
Desembarque frustrado em Búzios e revolta a bordo
A programação era informada em cima da hora, pegando os passageiros de surpresa ao chegarem a Búzios por volta das 8h do domingo com aviso de retorno obrigatório até as 12h30, devido a supostas condições climáticas desfavoráveis no retorno a Santos. Como a cidade não possui porto, o desembarque ocorreu por meio de lanchas. A tripulação distribuiu senhas divididas em pelo menos 31 grupos, mas apenas os 16 primeiros conseguiram descer.
Diante do acúmulo de problemas, o COO da Corazul Cruceros, Camille Appeldoorn, e o Ricardo Amaral, CEO da R11 Travel — representante da marca no Brasil —, convocaram os agentes de viagem para uma reunião no teatro. Os executivos tentaram apaziguar os ânimos e prometeram melhorias, mas enfrentaram forte pressão de profissionais constrangidos e de passageiros pagantes que invadiram o local exigindo o reembolso total. Inicialmente oferecendo 50% de desconto em uma futura viagem, a diretoria cedeu após a revolta e prometeu a devolução integral de 100% do valor pago, além de 25% de desconto em uma próxima oportunidade.
Para piorar o cenário, na mesma noite, um cano de esgoto estourou no andar superior, espalhando um odor fétido próximo à entrada do restaurante Corazon. O desembarque em Santos, após três dias de caos, seguiu o mesmo tom desorganizado, com passageiros ignorando a divisão de grupos e gerando aglomerações.
Em entrevista coletiva realizada a bordo, o COO admitiu as falhas na operação: “Ainda temos que ajustar muitas coisas. É como se eu tivesse comprado um carro usado, e vocês são os primeiros a sentar no banco de trás. Em alguns dias vamos acertar tudo.”
Avaliação e posicionamento oficial
Apesar das falhas de gestão e da escassez de tripulantes, o navio mostrou-se bem preservado, com áreas comuns mantendo um estilo luxuoso, ainda que datado.
Em nota oficial, a Corazul lamentou os transtornos, confirmou que analisa todos os relatos e destacou que várias adequações já foram implementadas durante a viagem. A empresa informou que o quadro de funcionários e a oferta de alimentos e bebidas estão sendo ampliados, garantindo que as piscinas funcionarão plenamente nas próximas saídas. Passageiros com dúvidas ou solicitações foram orientados a procurar seus agentes de viagem.
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