Diante da escassez de mão de obra que afeta o setor de varejo, a rede de franquias Le Petit Macarons encontrou nas máquinas de autoatendimento uma alternativa estratégica para manter o ritmo de vendas. “Ou você fica chorando ou dá jeito de vender lenço”, resume o cofundador e diretor de novos negócios da marca, Roger Coelho.
A ideia de utilizar os equipamentos surgiu inspirada no modelo norte-americano de vending machines, muito difundido nos Estados Unidos. A iniciativa começou a ser testada em 2025 e conta atualmente com quatro equipamentos em operação. Com a aprovação recente do fim da escala 6×1, a procura por essas máquinas por parte dos franqueados disparou. Atualmente com 28 unidades entre lojas e quiosques no Brasil, a empresa planeja fechar o ano com 30 máquinas e atingir a marca de cem equipamentos até 2027. Além disso, a rede negocia a abertura de sua primeira unidade no exterior, prevista para o próximo ano nos Estados Unidos.
Embora a empresa não abra seus resultados financeiros, o faturamento consolidado — somando fábrica e lojas — registrou alta de 13,08% em 2025 na comparação com 2024. A meta estabelecida para 2026 é alcançar um crescimento adicional de 16,12%.
Da inspiração nos EUA à solução para o varejo
A inspiração para o formato veio do exterior. “Tivemos a ideia nos Estados Unidos, porque lá a vending machine é muito mais disseminada do que aqui. Eles vendem bolos, cookies, brownies. Tem muita gente que prefere sentar em um quiosque para consumir nosso produto ou ir até o balcão e escolher os sabores. Mas tem muitos que chegam e dizem: ‘eu quero três [macarons], não importa o sabor, só coloca em uma embalagem porque estou com pressa e é para presente’. Então, se eu tenho esse público, por que não vender em uma máquina, com sabores pré-selecionados e a pessoa somente escolhe qual coleção ela quer? E fizemos alguns testes.”
O alívio na gestão de pessoal foi decisivo para a escolha. “Sim, porque estamos em uma crise de mão de obra. Não quero entrar no motivo da crise. Não importa. Eu entendo que as pessoas estão tentando se qualificar cada vez mais para pegar empregos mais qualificados. Atendente de quiosque talvez seja a porta de entrada no mercado de trabalho, e está cada vez mais difícil de eu conseguir [esses trabalhadores]. Essa é uma das principais reclamações dos meus franqueados. Então, quando pensamos nessa máquina, era para resolver esse problema de mão de obra”, explica o executivo.
Enquanto um quiosque tradicional demanda no mínimo três funcionários — o que exigiria 30 contratados para uma rede de dez pontos —, a operação com máquinas exige muito menos. “O máximo que um franqueado precisa com uma vending machine é contratar uma pessoa para abastecer todas as máquinas, quando ele mesmo não faz isso. Para atender um quiosque é preciso, no mínimo, três funcionários. Se um franqueado tiver 10 lojas, ele precisa ter 30 funcionários.”
Questionado sobre a substituição de empregos, Coelho é direto: “Exatamente, é isso aí. Não é uma questão de tirar o emprego de muita gente. Eu não tenho gente para trabalhar, então eu preciso botar a máquina em vários lugares.”
Impacto nas vendas e na jornada de trabalho
Apesar do temor inicial de que as máquinas pudessem canibalizar o movimento das lojas físicas, o efeito foi o oposto. “Teve franqueado que ficou com medo de diminuir as vendas depois que colocássemos as vending machines e o que vimos é que a venda dos quiosques aumentou depois da vending machine”, relata. O motivo está na complementaridade: “O cliente vai na máquina e pega uma coleção de frutados e encontra lá um de framboesa, um de pistache e um de amora. Mas ele queria também um de bergamota que ele provou e adorou, mas não tem na máquina. Então ele tem que ir no quiosque. Aí quando vai no quiosque, ele não compra só de bergamota, compra também de brownie, chocolate ao leite, creme brulé e vários outros. Então, percebemos que isso ajudou muito na venda do quiosque.”
Sobre a repercussão das discussões políticas e trabalhistas, o fundador reforça que a iniciativa antecede os debates recentes. “Antes de ter essa discussão já tínhamos o problema de mão de obra. E é algo que sempre falamos: ou você fica chorando ou dá jeito de vender lenço. Foi uma coisa que não tem nada a ver com a escala 6×1 ou 5×2 ou partido político, nada.”
A procura, no entanto, acelerou após as mudanças legais. “Eu não tenho isso mapeado ainda exatamente, mas vou te dizer que eu tinha, em média, uma negociação [de máquina franqueada] a cada semana. Nas duas semanas após a aprovação [do fim da escala 6×1] entraram cinco pedidos de máquinas para nós.”
Em termos de lucratividade, o modelo de autoatendimento se destaca. “Depende. O faturamento é menor, com certeza. Agora, a rentabilidade, que é o dinheiro que sobra no final, talvez não. Porque, para ter um quiosque, tem que pagar pelo menos três funcionários e o aluguel, que é, no mínimo, uns R$ 7.000. Então, a rentabilidade fica em torno de 10%. Já, com uma máquina, o aluguel é cerca de R$ 1.000 e não precisa de funcionário. A rentabilidade de uma máquina chega a ser entre 30% e 40%. Agora, em relação a dinheiro no bolso, tudo vai depender de quanto o quiosque e a máquina vão faturar. Hoje tem máquina que coloca mais dinheiro no bolso do franqueado do que um quiosque.”
Raio-X
Roger Righi Coelho, 49 anos, é cofundador, sócio e diretor de novos negócios da Le Petit Macarons. Com especialização em gestão comercial pela FGV (Fundação Getulio Vargas), acumulou passagens como gerente comercial e de vendas em companhias como a Ambev, até fundar a própria empresa em 2012 ao lado da esposa e sócia, Valquiria De Marco. O casal inaugurou a primeira loja física da rede em 2014.
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