Vance culpa guerra no Irã por derrota republicana e busca espaço para 2028

Vance culpa conflito no Irã por revés republicano e mira 2028

Economia

O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, passou a adotar um discurso político mais independente de Donald Trump, em um movimento que ganhou força após a derrota republicana nas eleições de meio de mandato e pode ajudar a definir seu posicionamento para a disputa presidencial de 2028.

Na reta final da campanha, Vance mudou de estratégia: passou a mencionar menos Trump e a concentrar seus discursos em temas associados à sua própria identidade política, como nacionalismo econômico, segurança pública e uma atuação mais moderada dos Estados Unidos no exterior. A mudança foi identificada pela Reuters em uma análise de seis discursos realizados desde a convenção republicana, em setembro. Nesse período, o vice-presidente evitou dar destaque a políticas emblemáticas de Trump, incluindo a guerra contra o Irã e as deportações.

O movimento ocorreu enquanto pesquisas apontavam que a queda na popularidade do presidente prejudicava os candidatos republicanos. Segundo duas pessoas familiarizadas com a estratégia, a mudança foi deliberada. Vance e seus assessores consideravam que os temas defendidos pelo vice-presidente tinham apelo eleitoral e permitiam que ele se apresentasse como uma voz de referência dentro do movimento conservador. A estratégia ganhou relevância após os democratas conquistarem o controle da Câmara e do Senado nas eleições de terça-feira (3).

Declarações sobre o Irã

Na quarta-feira (4), um dia após as eleições, Vance deu um passo mais explícito para marcar suas posições políticas. Em uma publicação nas redes sociais, atribuiu à guerra contra o Irã parte central da responsabilidade pela derrota republicana e apresentou propostas para a recuperação do partido. O vice-presidente defendeu o encerramento imediato do conflito e pediu que os republicanos priorizassem a redução do custo de vida, reavalassem a política externa e reformulassem o relacionamento dos Estados Unidos com Israel.

As declarações contrastaram com a postura de Trump, que classificou as preocupações dos americanos com o custo de vida como uma “farsa” dos democratas e continua defendendo a guerra iniciada após pressões do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Trump reconheceu que o conflito contribuiu para a derrota republicana, principalmente devido ao aumento dos preços da gasolina, mas manteve sua defesa da operação militar. “Eu não teria feito nada diferente”, disse o presidente a jornalistas na quarta-feira. A manifestação de Vance marcou a primeira vez em que o vice-presidente se posicionou publicamente a favor do encerramento da guerra.

Ausência de rompimento

Apesar das diferenças de posicionamento, integrantes do governo afirmam que Vance não está rompendo politicamente com Trump. Três pessoas familiarizadas com as comunicações da Casa Branca e do vice-presidente disseram à Reuters que a então chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, havia sido informada antecipadamente sobre a publicação. A agência não conseguiu determinar se Trump tinha conhecimento prévio do conteúdo. Na sexta-feira (6), o presidente reorganizou a cúpula da Casa Branca, substituindo Wiles por Stephen Miller, em uma mudança que sinaliza a intenção de reforçar políticas mais rígidas de seu governo.

As declarações de Vance também receberam apoio público de Donald Trump Jr., filho mais velho do presidente, e de outros aliados conservadores. Representantes do vice-presidente se recusaram a comentar o assunto. Já a Casa Branca remeteu a Reuters às declarações de Trump na quarta-feira, quando afirmou compreender a avaliação de Vance sobre os resultados eleitorais.

Olhar para 2028

A mudança de estratégia oferece uma indicação de como Vance, de 42 anos, poderá se apresentar politicamente à medida que os republicanos começam a discutir o futuro do partido após Trump. Embora ainda não tenha anunciado se disputará a Presidência em 2028, o vice-presidente é considerado um dos nomes potenciais para a sucessão republicana.

O desafio, segundo integrantes do partido, será preservar o apoio de boa parte da coalizão eleitoral construída por Trump e, ao mesmo tempo, estabelecer diferenças em relação às políticas que provocaram desgaste entre os eleitores. O próprio presidente já havia alimentado especulações sobre uma eventual disputa entre JD Vance e Marco Rubio pela sucessão republicana em 2028, embora não tenha declarado apoio formal a nenhum candidato.

A construção de uma identidade própria também ocorre diante de um cenário político mais desafiador para os republicanos, após a perda do controle das duas Casas do Congresso. Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada antes das eleições havia mostrado a aprovação de Trump próxima do mínimo histórico, com parte expressiva do eleitorado encarando a votação legislativa como uma oportunidade de se manifestar contra o presidente. Para Vance, a derrota abre espaço para defender uma mudança de prioridades dentro do partido, mas também o coloca diante do desafio de se diferenciar de um governo do qual continua sendo uma das principais figuras.

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