Conviver com cães pode estar diretamente relacionado à longevidade, indo muito além da alegria de chegar em casa e ser recebido com festa pelo pet. Uma revisão abrangente de quase 70 anos de investigações científicas, que analisou dados de cerca de 4 milhões de pessoas, associou a tutoria de cachorros a um risco 24% menor de morte por qualquer causa. O impacto mais expressivo foi observado em indivíduos que sobreviveram a um infarto e moravam sozinhos.
Os achados da revisão científica
O levantamento foi divulgado em 2019 na Circulation: Cardiovascular Quality and Outcomes, periódico científico da American Heart Association, sob o título Dog Ownership and Survival: A Systematic Review and Meta-Analysis. A condução do trabalho ficou a cargo da endocrinologista Caroline Kramer, da Universidade de Toronto, unindo investigações realizadas nos Estados Unidos, Canadá, Escandinávia, Nova Zelândia, Austrália e Reino Unido.
Além da queda de 24% na mortalidade geral, os tutores que haviam enfrentado um infarto ou um acidente vascular cerebral (AVC) registraram um risco 31% menor de falecer por complicações cardiovasculares. Para Kramer, ter um cachorro funciona como um fator de proteção contra a morte por qualquer motivo. Contudo, a metodologia do estudo não permite estabelecer uma relação direta de causa e efeito com o prolongamento da vida.
O impacto em quem mora sozinho após um infarto
Na mesma publicação, a pesquisa sueca Dog Ownership and Survival After a Major Cardiovascular Event, liderada pela epidemiologista Tove Fall, da Universidade de Uppsala, monitorou mais de 336 mil pessoas que resistiram a um infarto agudo do miocárdio ou a um AVC. Como o isolamento social representa um conhecido fator de risco para o coração, os indivíduos que vivem desacompanhados exibiram os índices mais marcantes:
– Sobreviventes de infarto que tinham cachorro apresentaram risco de morte 33% menor do que os que não tinham o animal. – Depois de um AVC, a redução ficou em 27% entre quem morava sozinho. – Para quem dividia a casa com parceiro ou filhos, o benefício também apareceu, mas em proporção menor.
Relação com pressão arterial e exercícios
Os pets exigem atenção e passeios diários, independentemente das condições climáticas. De acordo com os especialistas, as pessoas que caminham com seus cães conseguem acumular até 30 minutos a mais de exercícios físicos por dia em comparação àqueles que não possuem essa obrigação.
Outros fatores auxiliam a compreender a conexão entre o animal e o bem-estar do coração:
– Tutores tendem a apresentar taxas de colesterol e pressão arterial em condições mais favoráveis. – Fazer carinho no cachorro pode baixar a pressão, um dos achados preferidos de Kramer. – O convívio diário reduz o estresse e favorece o relaxamento, de acordo com o CDC, a agência de saúde pública dos Estados Unidos.
A cautela da American Heart Association
A American Heart Association avalia os dados como indicativos, e não como comprovação científica definitiva. Glenn Levine, responsável pela coordenação da declaração científica da organização sobre animais de estimação, classificou os resultados como robustos, mas ponderou que análises observacionais não descartam outras variáveis, a exemplo de tutores já possuírem um estilo de vida mais ativo ou maior poder aquisitivo. A entidade também reforça que um animal demanda investimentos financeiros e dedicação, pontuando que diminuir o risco cardiovascular não deve ser a única justificativa para realizar uma adoção.
Rotina ativa e cuidados médicos
Os benefícios à longevidade parecem derivar menos do animal em si e mais da rotina que ele impõe ao lar: caminhadas diárias, redução do tempo inativo no sofá e interação com vizinhos durante os trajetos. Kramer destaca que condutas incorporadas precocemente, como caminhar e não fumar, impactam fortemente a saúde, e o cão pode integrar esse conjunto de hábitos saudáveis.
Para quem já enfrentou um infarto e reside sozinho, a adoção pode ser debatida com o cardiologista, desde que haja disponibilidade de tempo, espaço físico e recursos financeiros para suprir as necessidades do bicho. Nenhum cão substitui remédio, reabilitação cardíaca ou exames de rotina, mas pode ser o motivo para sair de casa duas vezes por dia e manter o coração em movimento.
What do you feel about this post?
Like
Love
Happy
Haha
Sad
