A menos de dez dias da votação, o estresse do calendário eleitoral costuma produzir distorções curiosas na percepção pública, entre elas a tentação passageira de enxergar sex appeal em figuras improváveis como Renan Santos. Em meio ao bombardeio de conteúdos nas redes, a militância trava uma batalha silenciosa contra impulsos afetivos direcionados a quem, historicamente, defendia a cartilha do “prendeu, matou”.
O fenômeno recente tem suas causas: o presidente do partido Missão publicou um registro de infância vestindo roupas vermelhas no Dia das Crianças e tem emplacado vídeos em que confronta Flávio Bolsonaro com retórica afiada. Ainda assim, ver no dirigente partidário — agora ostentando um implante capilar bem-sucedido diante de cenários avermelhados — um novo símbolo progressista é puro autoengano. Imagens que circularam dele fazendo o gesto do “L” não passam de criações por inteligência artificial, e qualquer ilusão de ouvir “A Internacional” ao vê-lo discursar deve ser controlada, reservando o entusiasmo para nomes historicamente alinhados, como Humberto Carrão em atos públicos.
A armadilha do herói de ocasião
Essa atração circunstancial repete uma dinâmica já conhecida da política nacional, que consiste em transformar adversários pontuais em ídolos salvadores. O risco de adotar figuras públicas como heróis de estimação quase sempre termina em desilusão.
O caso mais emblemático ocorreu com Alexandre de Moraes. Antes de se tornar um símbolo de resistência institucional, o ministro acumulava um histórico de embates com movimentos sindicais, fama de punitivista, prestígio entre conservadores, ascensão na gestão de Gilberto Kassab e uma indicação ao Supremo Tribunal Federal sacramentada por Michel Temer.
Apesar desse retrospecto, sua atuação firme nos inquéritos das Fake News e das Milícias Digitais, somada à liberação de estradas para eleitores em 2022 e às duras falas sobre os limites da liberdade de expressão perante a democracia, gerou uma onda de paixão coletiva. O custo desse entusiasmo momentâneo ainda ecoa no cotidiano de quem precisa ouvir provocações como “Aê, ainda quer dar seu cartão pro Xandão?”.
De Randolfe a Janones: os fetiches do Congresso
A carência por representatividade jovial e combativa também se manifestou em outros momentos de alta tensão política. Durante a CPI da Covid, por exemplo, o senador Randolfe Rodrigues despertou admiração popular pelo desempenho combativo, embora sua entonação vocal particular tenha servido de freio para maiores arroubos passionais.
O mesmo padrão repetiu-se na campanha de 2022 com André Janones. O deputado atraiu atenções ao operar uma guerrilha digital ininterrupta, exibindo um ritmo frenético de cortisol e noites em claro que contrastava com os métodos mais tradicionais e comedidos dos estrategistas partidários da época.
O surgimento de figuras anônimas virais, como manifestantes com moletons de algodão na Avenida Paulista, funciona como um respiro e um lembrete físico da realidade. Contudo, o alerta central permanece válido: a admiração estética e política por desafetos de ontem que criticam os adversários de hoje não deve obscurecer o discernimento do eleitor.
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