Túnel do Anhangabaú tem histórico de enchentes e depende de bombas para tirar água de rio enterrado

Túnel do Anhangabaú: saiba por que a via sofre com enchentes

Brasil

A vulnerabilidade do túnel do Anhangabaú a inundações severas está diretamente ligada à geografia subterrânea do centro de São Paulo. A via expressa foi construída exatamente sobre a bacia hidrográfica formada pela confluência de quatro córregos canalizados — Saracura, Bexiga, Augusta e Itararé —, que desaguam no rio Anhangabaú e, mais adiante, correm em direção aos rios Tamanduateí e Tietê. Ocultos sob a malha urbana, esses cursos d’água tendem a transbordar rapidamente durante tempestades de forte intensidade.

O impacto dessa característica voltou a ficar evidente nesta quarta-feira (14), quando uma precipitação extrema castigou a capital paulista e provocou pontos críticos de alagamento, incluindo a avenida 23 de Maio e a própria passagem subterrânea. No túnel, a lâmina d’água avançou na pista sentido avenida 9 de Julho (em direção à zona sul), danificando pelo menos 26 automóveis e dois ônibus. O volume subiu de forma abrupta: os veículos começaram a flutuar e passageiros precisaram subir nos tetos para se proteger, resultando em carros empilhados após o escoamento.

Como funciona o bombeamento de drenagem

Inaugurada em 1990, a estrutura depende obrigatoriamente de um sistema mecânico contínuo para retirar a água do rio que passa logo abaixo do asfalto. De acordo com a prefeitura, o “Plano de Prevenção às Chuvas” estabelece o funcionamento de oito bombas para garantir o escoamento da região.

No episódio mais recente, a administração municipal informou que seis equipamentos fixos atuaram sem interrupção. A estrutura conta ainda com duas bombas auxiliares de emergência, divididas entre os sentidos da via. “A bomba auxiliar instalada no sentido Aeroporto funcionou normalmente, e a segunda bomba auxiliar não foi preciso ser acionada, uma vez que não houve alagamento no sentido Santana”, afirmou a gestão.

Apesar da operação, a prefeitura admitiu que a capacidade instalada foi superada pela força do temporal: “A vazão não foi suficiente para escoar todo o volume de água registrado. Para reforçar a drenagem, foi enviado um caminhão de bombeamento emergencial ao local”.

Em pronunciamento nesta quinta-feira, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) ressaltou que a cidade enfrentou 40% de toda a chuva esperada para o mês de outubro em poucas horas e associou os danos ao “volume gigantesco de água”. O mesmo temporal gerou transtornos em diversas regiões e provocou um deslizamento com uma vítima fatal na Brasilândia, zona norte.

“Em menos de uma hora conseguimos reduzir a água, com a ação das bombas fixas do túnel do Anhangabaú e das bombas emergenciais dos caminhões que ficam de plantão 24 horas para serem acionadas”, disse Nunes ao detalhar a drenagem.

Fechamento preventivo e dinâmica da enchente

A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) adota desde 2006 protocolos para interdições preventivas diante de temporais. Na quarta-feira, a intervenção começou às 15h48, com o bloqueio de duas das quatro faixas no sentido bairro.

“Neste momento, havia uma mínima formação de lâmina d’água no piso. Às 16h, as outras duas faixas de rolamento foram bloqueadas, levando, então, ao fechamento total do túnel, antes da forte entrada de água no local entre 16h07 e 16h10”, detalhou a prefeitura. A força da enxurrada foi tamanha que, em um intervalo de três minutos, o “nível de água no local atingiu cerca de um metro”.

O conflito entre o rio enterrado e o concreto

Especialistas ressaltam que o problema transcende a capacidade dos motores de sucção. Para o coordenador do programa Água Limpa da SOS Mata Atlântica, Gustavo Veronesi, os episódios refletem a ocupação histórica do solo: “Costumam dizer que o rio invadiu a rua, mas é justamente o contrário: o rio já existia ali, e foi a rua, o asfalto e as construções que invadiram o espaço do rio”.

Veronesi alerta que as obras subterrâneas encontram limites claros perante as mudanças do clima. “O rio sempre vai mostrar a sua cara, mesmo enterrado. Não adianta a gente ficar lutando contra o rio, ainda mais no cenário de emergências climáticas, com um regime de chuva diferente do que era o natural”, pontua.

O especialista argumenta que, embora reabrir córregos seja inviável no tecido central consolidado, alternativas baseadas na engenharia natural mitigariam o problema: “Nós precisamos criar soluções inspiradas na própria natureza, como os jardins de chuva ou parques lineares”. Os jardins de chuva retêm e infiltram a água superficial, enquanto parques lineares preservam margens e oferecem zonas naturais de amortecimento de cheias.

Entre 2021 e setembro de 2026, a capital investiu R$ 11,4 bilhões em infraestrutura de drenagem urbana — montante que supera em mais de duas vezes o que foi aplicado no setor entre 2011 e 2020, segundo os dados oficiais.

Passagem acumula histórico de panes e inundações

Os episódios de alagamento no vale são anteriores à estrutura atual. Em 1948, foi aberto no local o “buraco do Adhemar”, batizado em alusão ao ex-prefeito Adhemar de Barros, que registrou repetidas inundações até ser substituído pela atual via subterrânea em 1990.

O túnel moderno também vivenciou momentos críticos. O caso mais emblemático ocorreu em 1º de maio de 1999, quando uma enchente histórica fez a água alcançar quase a altura do teto devido à inoperância do sistema de bombas. Anos depois, em 19 de setembro de 2006, bastou uma precipitação de 14,2 mm durante a madrugada para alagar o complexo, situação atribuída na época a uma falha no mecanismo de acionamento automático das bombas.

What do you feel about this post?

0%
like

Like

0%
love

Love

0%
happy

Happy

0%
haha

Haha

0%
sad

Sad

0%
angry

Angry

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *