O estilista Ronaldo Fraga marcou presença na SPFW N61 ao liderar a quinta participação do movimento Sou de Algodão na semana de moda paulistana. Criada há dez anos pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), a iniciativa busca estreitar os laços entre o campo e as passarelas, integrando a programação do evento desde 2022 por meio de parcerias com grandes nomes do design nacional.
Nesta edição, a passarela recebeu a coleção batizada de “Cartas de Algodão”, concebida para resgatar o papel da fibra no cotidiano e na intimidade das pessoas. “Quando você pensa nos lençóis e nas camisolas de algodão, nas roupas íntimas que são feitas desse material, nos vestidos, visuais de batismo, enxovais e camisolinhas de bebê, percebe que o algodão está presente em quase tudo”, destacou o estilista nos bastidores.
Sustentabilidade e releituras históricas
Quase a totalidade das peças desfiladas teve o algodão como protagonista. Logo na abertura, dois looks — formados por um vestido e uma combinação de saia com camisa — destacaram o uso consciente de recursos ao reaproveitar sobras têxteis. Fragmentos de amostras, crochês e rendas foram estruturados por meio de uma entretela biodegradável solúvel em água, resultando em um patchwork rico em texturas.
A assinatura estética de Ronaldo Fraga apareceu em silhuetas alongadas, vestidos retos e na desconstrução da camisaria clássica, evidenciada por amarrações e laços posteriores. O desfile também trouxe elementos do período vitoriano, revelando golas de rufos, jaquetas de mangas bufantes e bermudas masculinas balonê como “referência a roupas que guardam a memória de outros tempos”.
O tingimento natural predominou em tonalidades terrosas, acompanhado de efeitos alaranjados obtidos pelo contato de tecidos com metais enferrujados. O toque artesanal se completou com bordados manuais de corpos nus, poemas e aplicações que remetem a lenços de pano e papéis de carta.
Diversidade e mistério em cada peça
As estampas da coleção mesclaram referências a envelopes e selos postais antigos com ilustrações inspiradas no imaginário romântico dos anos 1950. Ronaldo aproveitou para atualizar essas representações sob uma ótica mais inclusiva: “Eu via muitas (pinturas) quando era criança, mas me incomodava o fato de as figuras serem sempre heterossexuais e brancas. Refiz essas imagens com gays, negros e trisais. A coleção é toda analógica, mas aqui está um bom uso da inteligência artificial”, explicou.
Outro detalhe intrigante da apresentação foi a inclusão de um pequeno envelope de tecido costurado e lacrado em cada uma das criações. “Dentro deles, há uma mensagem, que pode ser um poema picante, um protesto político ou qualquer outra história. Só quem usar a peça saberá”, revelou Fraga, reafirmando sua visão de moda como instrumento de memória, afeto e manifesto.
What do you feel about this post?
Like
Love
Happy
Haha
Sad
