Severamente castigados pelo temporal de quarta-feira (14), os arredores do parque do Ibirapuera, da praça da Bandeira e do túnel do Vale do Anhangabaú continuam sem perspectiva de receber as intervenções necessárias para conter as enchentes. Embora sejam classificadas como medidas urgentes e prioritárias nas diretrizes municipais desde 2022, grande parte das melhorias nem sequer saiu do papel e apresenta dotação orçamentária insignificante para 2026.
Diagnósticos técnicos da própria administração paulistana admitem o estrangulamento da infraestrutura hídrica nessas regiões. Na praça da Bandeira, por exemplo, o volume de água durante temporais chega a superar em até cinco vezes a vazão suportada pelas galerias. Paralelamente, o transbordamento crônico do lago do Ibirapuera é um problema documentado pelo poder público há mais de uma década.
Em nota, a gestão Ricardo Nunes (MDB) declarou que as diretrizes do Plano Diretor de Drenagem — apresentado em setembro pela Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras junto à Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica — são de longo prazo, com vigência até 2049. A administração afirmou que as intervenções seguem critérios técnicos de risco, complexidade e vulnerabilidade social.
“A sequência das obras não é feita por uma escolha arbitrária da gestão”, disse.
Sobre intervenções em reservatórios naturais, a prefeitura ressaltou que planeja entregar a ampliação do lago do parque do Carmo em fevereiro de 2027, medida que não consta no plano diretor. Já a implantação de uma praça de infiltração na avenida Nove de Julho está em etapa de projeto, com segunda audiência pública marcada para novembro. “Após essa etapa, serão viabilizados os recursos para a licitação da obra”, acrescentou.
Documentos elaborados pelo município em 2021 e 2022 apontam que as galerias pluviais dessas bacias ficaram defasadas diante do crescimento urbano. As estruturas sofrem com diâmetros reduzidos, rachaduras, afundamentos e tubulações danificadas, somados ao entupimento e bloqueios no trajeto das águas.
Projetos para o lago do Ibirapuera
O plano de drenagem coloca a ampliação do lago do Ibirapuera como ação crucial para equilibrar a bacia do córrego Sapateiro e evitar que a água avance até a avenida República do Líbano. A ideia é elevar as margens para fazer a capacidade de armazenamento saltar de 101 mil para 235 mil m³ — técnica similar à adotada no parque da Aclimação por volta de 2010.
A previsão inclui a instalação de comportas de controle de vazão e serviços de desassoreamento, elevando o volume a até 319 mil m³ (patamar muito superior aos 74 mil m³ suportados pelo piscinão do Pacaembu). A intervenção é avaliada como de baixo custo: cerca de R$ 7 milhões, com execução em 12 meses e despesas operacionais reduzidas.
O Ibirapuera integra a lista de cinco lagos artificiais da capital usados para retenção hídrica, ao lado de espaços como Cidade Toronto, Horto Florestal e Aclimação. Ao todo, as intervenções estruturais necessárias para toda a bacia do Sapateiro — cruzada também pelos córregos Boa Vista e Assembleia — demandariam entre R$ 326,5 milhões e R$ 378,9 milhões (cálculo de 2022), distribuídos ao longo de quatro décadas.
Gargalos na praça da Bandeira e Anhangabaú
O panorama é crítico também na bacia dos córregos Anhangabaú e Saracura. No momento, o plano mais avançado é a criação de uma praça de retenção e infiltração na avenida Nove de Julho, perto do Masp. Considerado inovador pelo uso de infraestrutura verde, o projeto prevê taludes, jardins filtrantes e reservatórios subterrâneos para reter entre 4.000 m³ e 5.000 m³, ao custo de R$ 9,6 milhões e prazo de um ano de obras.
Em contrapartida, a proposta de um piscinão na rua Avanhandava, com capacidade para 30 mil m³, despencou para o 124º lugar na lista de prioridades do município.
A defasagem na Nove de Julho concentra-se em dois pontos críticos: na altura da praça 14 Bis, onde o fluxo é quatro vezes maior que a galeria, e na praça da Bandeira, com vazão cinco vezes acima do limite suportado pela tubulação desgastada. Segundo os laudos, o sistema atual não suporta sequer precipitações rotineiras.
O reflexo direto é sentido no túnel do Anhangabaú, que inunda devido à enxurrada que desce pela Nove de Julho e a falhas no bombeamento causadas pelo acúmulo de sujeira nas grelhas.
“Os transtornos causados a essas avenidas de fundo de vale durante os eventos de inundação são recorrentes, causando impactos no desenvolvimento urbano, econômico e social do Município”, diz trecho.
Para conter os transbordamentos na praça da Bandeira, o projeto de maior porte envolve um reservatório no entorno e a reformulação da rede, gerando 45 mil m³ extras de retenção hídrica. A intervenção custaria R$ 186,5 milhões e levaria três anos. Embora debatida desde 2003, a obra enfrenta entraves logísticos por conta da proximidade com o terminal de ônibus. Na praça 14 Bis, outro projeto foi prejudicado pelas escavações da linha 6-laranja do metrô.
No total, as obras emergenciais indicadas para a bacia somam
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