Memória sapatão

Levante do Ferro’s Bar: a história do Stonewall brasileiro

Cultura

A memória da resistência contra a violência policial e o preconceito durante a ditadura militar tem um endereço emblemático no centro de São Paulo. O levante do Ferro’s Bar, ocorrido em 1983, consolidou-se como um divisor de águas na militância brasileira e serviu de base para a criação do Dia Nacional do Orgulho Lésbico, celebrado em 19 de agosto. O resgate dessa trajetória é o tema central da historiadora Julia Kumpera, autora da obra Na noite lésbica: o levante do Ferro’s Bar (Autêntica).

Mestra em história pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutoranda pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Kumpera pesquisa as mobilizações lésbicas desde 2018. A pesquisadora, que também publicou O lesbianismo é um barato: o GALF e o ativismo lésbico-feminista no Brasil (Intermeios, 2024), aborda como a oralidade, a literatura e a cartografia urbana resgatam redes de sociabilidade e resistência que desafiaram o conservadorismo e o autoritarismo da época.

A geografia boêmia do centro paulistano

Em debate mediado pela poeta Bruna Beber, a pesquisadora relembrou a dinâmica urbana da capital paulista nas décadas de 1970 e 1980. Naquele período, a região central era delimitada popularmente entre a “Boca do Lixo” e a “Boca do Luxo”. “Esses nomes já são bastante sugestivos do tipo de imagem que se tinha desses lugares, de como eles eram representados na imprensa”, afirma.

Enquanto a “Boca do Lixo” carregava o estigma da marginalidade e do meretrício, a “Boca do Luxo” abrigava estabelecimentos voltados para as classes de maior poder aquisitivo.

O Ferro’s Bar situava-se justamente no limiar entre as duas regiões, configurando-se como um ponto estratégico de convergência social. Pela localização fronteiriça, reunia perfis múltiplos que transitavam entre as duas realidades. De acordo com a historiadora, o bar “pegava gente de todos os tipos” e “pessoas que circulavam por esses dois mundos”.

Com o passar dos anos, o endereço na rua Martinho Prado teve sua destinação alterada. O imóvel onde funcionava o histórico reduto atua hoje como alojamento, vestiário e estrutura de apoio para garçons de restaurantes da vizinhança.

O levante histórico contra a repressão

No dia 19 de agosto de 1983, militantes lésbicas articularam uma ocupação na calçada e no interior do Ferro’s Bar. A mobilização contou com o respaldo de movimentos feministas, organizações homossexuais e lideranças políticas, incluindo o então deputado federal Eduardo Suplicy. O objetivo foi a leitura coletiva de um manifesto contrário à censura, à lesbofobia e à perseguição policial rotineira. A contundência do protesto levou o evento a ser chamado de “Stonewall brasileiro”, em alusão ao confronto pioneiro de Nova York em 1969.

O convívio com os proprietários do bar era marcado pela contradição. Embora o público LGBTQIA+ garantisse a clientela, os donos evitavam a caracterização do bar como um espaço voltado a esse nicho. “Os donos eram homens conservadores e só estavam interessados em manter o bar funcionando porque era o ganha-pão deles”, diz a historiadora.

Kumpera ressalta que havia um distanciamento deliberado em relação à identidade das mulheres presentes. “Tem essa camada do ‘eu posso fingir que não estou vendo que essas mulheres são lésbicas, posso tentar ignorar isso ao máximo’, que é um desrespeito à sexualidade delas.”

Protagonismo e história oral

Ao comentar a estruturação de seu livro, a autora evidenciou o impacto das fontes orais na reconstrução do passado. Para Kumpera, os sentimentos e as impressões compartilhadas pelos sujeitos históricos agregam mais camadas do que o simples encadeamento dos fatos: “O que é bonito e dá riqueza são quais significados ela [a fonte] atribuiu, ao longo da vida, para aqueles acontecimentos, para aquelas relações.”

A historiadora propõe uma ruptura com a ideia do ativismo lésbico-feminista pautado exclusivamente pela opressão. “A gente pode sair da narrativa de que a história das lésbicas é uma história de tragédia. Essas mulheres não foram só reprimidas; elas também tiveram agência, elas também foram criativas, elas também foram ousadas e elas também romperam com uma série de normas da sua época.”

Dica literária

Ao tratar de memórias formativas, o escritor e historiador português Rui Tavares — autor de obras como Hipocritões e olhigarcas: passado e futuro das guerras culturais — apontou a clássica sátira A guerra das salamandras (Record, 2011), escrita por Karel Čapek.

“Em A guerra das salamandras aparecem umas salamandras que têm um tamanhinho assim como de uma criança, um metro e pouco, e que são extremamente hábeis com as mãos e que desenvolvem a capacidade da fala. Elas aparecem numa ilha na Indonésia, são descobertas por um navegador e rapidamente a humanidade percebe que as pode usar como força de trabalho praticamente escravizada. As próprias salamandras entram em guerra — e tem todas as figuras das salamandras do fascismo dos anos 20 e 30; tem a salamandra Mussolini, a Hitler…”, diz Tavares sobre a alegoria contra os regimes autoritários.

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