A presença prévia de determinados anticorpos na circulação sanguínea pode indicar com que intensidade o corpo reagirá a um imunizante. Essa é a conclusão central de uma pesquisa conduzida pela Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos, divulgada na publicação científica Cell Press Blue em agosto. Segundo os cientistas, essas moléculas podem funcionar como uma espécie de termômetro da capacidade reativa das defesas biológicas diante da vacina contra a Covid.
“Já se sabe há muito tempo que nem todo mundo responde igualmente às vacinas”, observa o pediatra Alfredo Gilio, coordenador da Clínica de Imunização do Einstein Hospital Israelita. Elementos genéticos, faixa etária e condições clínicas prévias interferem nessa equação, provocando oscilações até entre indivíduos perfeitamente saudáveis.
“O estudo procurou responder a uma questão de muito interesse em imunologia e vacinação: se é possível prever, antes da aplicação, quais indivíduos terão uma resposta fraca de anticorpos a determinada vacina que, nesse caso, foi a contra a Covid”, analisa Gilio.
Marcadores de defesa no sangue
Para investigar o fenômeno, os especialistas monitoraram 4.089 voluntários por um intervalo de até 18 meses, avaliando 8.687 amostras biológicas. O grupo experimental compreendia 2.445 pessoas sem comorbidades e 1.644 pacientes com quadros de imunossupressão ou sob terapias debilitantes — incluindo pessoas vivendo com HIV, diagnosticadas com câncer, doenças autoimunes, inflamações intestinais crônicas e transplantados de órgãos.
O protocolo mediu a presença de anticorpos direcionados a 185 antígenos diferentes (estruturas identificadas pelo sistema de defesa) ligados a vírus, bactérias e alvos autoimunes. Em seguida, os cientistas correlacionaram esses achados com os níveis de anticorpos contra um trecho da proteína spike gerados após as doses iniciais e o reforço da vacina contra o coronavírus.
Os dados confirmaram que a resposta deficitária foi consideravelmente mais recorrente entre os imunossuprimidos. Logo após o esquema vacinal primário, 71,6% dos pacientes transplantados tiveram proteção fraca, contra apenas 6,2% no grupo de voluntários saudáveis. Com a administração do reforço, 95% das pessoas saudáveis atingiram patamares elevados de resposta imune; já entre os transplantados, 37,9% continuaram exibindo índices fracos ou inexistentes.
O papel dos “anticorpos sentinela”
No rastreamento laboratorial, três tipos de anticorpos mostraram relação direta com uma imunização mais robusta contra o coronavírus: os voltados à bactéria Staphylococcus aureus (associada a infecções cutâneas, pulmonares e sanguíneas), ao vírus sincicial respiratório (VSR, causador de bronquiolites e pneumonias) e ao respirovírus humano 3 (parainfluenza tipo 3, causador de doenças respiratórias).
Como esses agentes infecciosos são amplamente disseminados na comunidade, a maior parte dos adultos já teve contato com eles em algum momento da vida. Os cientistas destacam que ter esses anticorpos não eleva diretamente a proteção contra o coronavírus nem combate a Covid de forma cruzada. Na verdade, eles funcionam como pistas estatísticas de como o corpo lidou com invasores no passado.
“Se uma pessoa já teve contato com um vírus comum e não tem anticorpos contra ele, isso pode indicar que seu sistema imunológico, por alguma razão, não respondeu como esperado”, explica Alfredo Gilio. “É uma espécie de fotografia da capacidade do sistema imunológico.”
Apelidados de “anticorpos sentinela”, esses biomarcadores foram avaliados também por meio de inteligência artificial. Os algoritmos processaram o conjunto completo de dados em vez de focar apenas em marcadores isolados, atingindo índice de acerto superior a 75% na diferenciação entre indivíduos saudáveis que teriam resposta alta ou baixa. Contudo, a precisão do modelo computacional foi inferior nos grupos com histórico de transplante e doenças autoimunes.
Fatores que afetam a imunidade na prática
Apesar da relevância dos anticorpos sentinela, inúmeras outras variáveis modulam o organismo. O avanço da idade é o mais evidente: pelo processo de imunossenescência, o sistema imune vai perdendo vigor com o tempo, o que faz os idosos gerarem menos anticorpos para certos produtos biológicos. Na outra ponta, bebês e crianças pequenas ainda possuem defesas em formação.
Outros entraves envolvem desnutrição, enfermidades crônicas, imunodeficiências e intervenções médicas intensas — como quimioterapia, tratamentos pós-transplante e altas doses de corticoides. A própria genética individual pode ditar respostas distintas. Vale lembrar também que a dosagem de anticorpos não conta toda a história da imunização.
“A imunidade é muito mais complexa. De forma geral, ela pode ser dividida em imunidade humoral, ligada aos anticorpos, e imunidade celular, formada pela ação das células de defesa”, explica o médico do Einstein.
Como a análise avaliou somente a vertente humoral e a investigação celular requer testes laboratoriais mais complexos e raramente aplicados na rotina clínica, a prática médica já adota estratégias preventivas baseadas em perfis populacionais.
“Na prática, temos condutas baseadas nesse conhecimento. O calendário de uma pessoa acima de 60 anos difere do calendário de um adulto de 30 ou 40 anos”, exemplifica Gilio. Idosos, por exemplo, costumam receber fórmulas potencializadas, enquanto indivíduos imunossuprimidos contam com intervalos reduzidos e doses adicionais.
Mesmo com a perspectiva de que a descoberta auxilie na criação de esquemas vacinais personalizados no futuro, os médicos ressaltam que não há razão para realizar testes de anticorpos antes ou depois de receber uma vacina.
“O conhecimento científico avança de grãozinho em grãozinho, e isso aqui [esta pesquisa] é um grãozinho. Precisa ser confirmado por outros estudos”, afirma o especialista. “Não quer dizer que amanhã vamos dosar esses anticorpos para decidir quem deve receber uma dose a mais. Estamos muito longe disso.”
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