A presença de Flávio Bolsonaro na disputa decisiva do segundo turno presidencial de 2026 traz à tona um dos aspectos mais controversos de sua carreira pública: a proximidade com grupos paramilitares do Rio de Janeiro. Muito além dos escândalos de apropriação de salários de servidores conduzidos ao lado de seu antigo assessor Fabrício Queiroz, a principal preocupação que cerca a trajetória do parlamentar é o elo sistemático com estruturas do crime organizado fluminense e a forma como tais grupos são tratados em seu discurso público.
O domínio paramilitar sobre a população
Para compreender o alcance desse cenário, é necessário observar o cotidiano do território fluminense. Os grupos paramilitares surgiram historicamente sob a fachada de uma “justiça paralela”, prometendo combater o crime convencional em comunidades desamparadas pelo poder público. Contudo, transformaram-se em uma máfia violenta que sequestra funções do Estado e submete moradores a regras impostas pelo uso de armas de fogo.
Hoje, essas organizações controlam o fornecimento de água, botijões de gás, sinal de internet, canais de televisão a cabo e as linhas de transporte alternativo. Também atuam na grilagem e ocupação ilegal de terras, na construção civil clandestina e na extorsão generalizada do comércio local.
Dados do Mapa Histórico dos Grupos Armados do Rio de Janeiro, levantamento elaborado pelo Instituto Fogo Cruzado em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), apontam que aproximadamente 4 milhões de pessoas vivem sob o jugo ou a influência direta das milícias na Região Metropolitana da capital.
A postura de Flávio em relação a esse panorama sempre gerou forte controvérsia. No passado, da tribuna parlamentar, o então deputado estadual declarou que certos policiais integravam milícias e que os cidadãos viam isso com bons olhos por se sentirem protegidos. Essa visão reflete a naturalização de uma organização que extorque as populações mais vulneráveis.
Relações históricas e o caso Adriano da Nóbrega
O vínculo com figuras desse submundo é antigo. O exemplo mais notório é o de Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope e pistoleiro profissional, com quem o político manteve ligações documentadas por meio de homenagens oficiais no Legislativo estadual e pela contratação de parentes para compor seu gabinete parlamentar.
Círculo político cercado por ações da Polícia Federal
As conexões problemáticas não se limitam ao passado e alcançam diretamente o grupo político que dá suporte ao candidato à Presidência. Dos aliados diretos de Flávio alvejados por ações da Polícia Federal, quatro já foram alvos de operações, sendo que três estão sob custódia da Justiça.
Um dos casos de destaque é o de Márcio Canella. Inicialmente cotado para disputar o Senado com a mãe de Flávio, Rogéria Bolsonaro, na primeira suplência, Canella recuou para concorrer à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), onde se consagrou como o segundo parlamentar mais votado. Após a vitória nas urnas, ele foi alvo de um mandado de prisão preventiva.
A crise atinge outros expoentes da política fluminense:
* Rodrigo Bacellar (União Brasil): Ex-presidente da Alerj, Bacellar está encarcerado sob a acusação de repassar informações estratégicas e confidenciais de investigações policiais a líderes da facção Comando Vermelho. Ele contava com a articulação de Flávio para assumir o Palácio Guanabara. * Thiego Raimundo dos Santos, o TH Joias (MDB): Ex-deputado estadual que integrou a base governista no Rio e transitava pelo mesmo espectro do clã, é investigado por envolvimento com o Comando Vermelho, lavagem de recursos, comércio ilícito de armamentos e vazamento de operações. * Cláudio Castro (PL): O ex-governador enfrenta investigações nas operações Compliance Zero e Sem Refino, que apuram possíveis fraudes financeiras com recursos do Rioprevidência. * Douglas Ruas (PL): Atual governador eleito e componente da mesma aliança partidária, Ruas é filho do Capitão Nelson, nome que constou nos autos da CPI das Milícias.
A chegada de uma liderança historicamente enraizada nessas alianças ao mais alto cargo do Poder Executivo nacional impõe um debate urgente sobre o risco de institucionalização de práticas criminosas no centro das decisões da República.
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