'Por que eu penso tão rápido?', pergunta criança superdotada ao 'papa' da superdotação

Especialista alerta para riscos em cadastro de superdotados

Educação

A identificação de estudantes com altas habilidades não pode se limitar a testes padronizados de inteligência. A advertência é de Joseph Renzulli, de 90 anos, professor emérito da Universidade de Connecticut e uma das maiores autoridades mundiais no tema. Responsável por romper o paradigma que restringia a genialidade ao quociente de inteligência superior a 130 nos anos 1970, o pesquisador avaliou com cautela a recente legislação brasileira que institui um registro unificado de alunos superdotados.

Na visão do especialista, a iniciativa nacional — aprovada no meio do ano para monitorar o desenvolvimento desses jovens — apresenta armadilhas caso use métricas reducionistas. “Um dos problemas de um cadastro é que geralmente olhamos apenas para um aspecto, os resultados de QI ou de testes de desempenho”, afirmou. “E isso pode deixar de fora muitas crianças que têm interesses diversos e poderiam se beneficiar de programas de aprofundamento do conhecimento.”

Além dos testes de inteligência

Criador da célebre teoria dos três anéis, Renzulli sustenta que o potencial humano superior emerge da fusão entre capacidade acima da média, pensamento criativo e forte comprometimento com as tarefas. Diante disso, o acadêmico propõe o Modelo de Enriquecimento Escolar, metodologia que expõe toda a turma a estímulos diversos e avança progressivamente para projetos práticos apenas com os estudantes genuinamente engajados.

O pesquisador ressalta que o avanço socioeconômico depende do estímulo à inventividade e não da mera retenção de conteúdos. “Se queremos que os países cresçam, precisamos que, cada vez mais, crianças comecem a trabalhar em suas ideias em vez de memorizar informações do quadro-negro a semana toda para fazer uma prova na sexta-feira”, afirmou. “Um país grande como o Brasil tem uma quantidade ilimitada de potencial humano nos jovens. Só temos que descobrir as melhores maneiras de desenvolvê-lo.”

Em entrevista concedida por vídeo diretamente de sua residência, onde continua ativo na orientação acadêmica e na produção de materiais pedagógicos, o professor respondeu sobre os desafios do sistema educacional e atendeu a dúvidas enviadas por jovens brasileiros de destaque intelectual.

O papel da escola e a nova legislação

Ao ser questionado sobre a viabilidade de aplicar uma triagem em escala em um país desigual como o Brasil, Renzulli reforçou os riscos da rigidez métrica: “Um dos problemas de um cadastro é que geralmente olhamos apenas para um aspecto, os resultados de QI ou de testes de desempenho. Vamos dizer que é preciso ter QI 130 para ser incluído no cadastro, e uma criança tem 129, então não é considerada… Você pode ter uma criança muito interessada em ciência, por exemplo, que quer estudar, digamos, a migração de piranhas na Amazônia. Mas você diz: ‘Ela não está na lista, então não pode fazer isso’.”

Ele complementa que o entusiasmo individual deve guiar as oportunidades educativas: “Interesses fortes são tudo. E, se uma criança tem um interesse forte, ela vai trabalhar muito mais, vai gostar mais de aprender, vai produzir e criar mais. No Modelo Triádico de Enriquecimento, tentamos oferecer oportunidades para todos os estudantes, que são expostos a experiências extracurriculares de variados temas, como palestras, filmes, uma excursão a um museu de ciência ou de arte. E isso é bom para todos. Mas as crianças que realmente ficam entusiasmadas com aquilo deveriam ter a oportunidade de ir adiante, estejam elas em alguma lista ou não.”

Sobre a eficácia de cadastros governamentais, pontuou: “A questão é: como se entra na lista? Se vamos colocar crianças na lista somente com base em um resultado de inteligência ou de desempenho, vamos deixar de fora muitas que têm alta criatividade, alto comprometimento com a tarefa. E essas duas habilidades são tão importantes quanto a capacidade acima da média. E, quando digo capacidade acima da média, não quero necessariamente dizer capacidade superior. Quero dizer que elas podem ser mais inteligentes do que a média. Isso não significa que tenham QI 130. E isso é importante para um país porque são esses tipos de pessoas que impulsionam a economia. São as pessoas que abrem empresas, escrevem livros, fazem pesquisas. E o que as pesquisas nos dizem é que muitas das pessoas famosas por grandes feitos e invenções não necessariamente tiveram um QI superalto. Mas tinham, funcionando juntas, as três características dos círculos [habilidade acima da média, criatividade e forte comprometimento com as tarefas]. Nos EUA não temos um cadastro nacional, até porque a educação é definida em nível estadual.”

Renzulli também diferenciou os tipos de talentos: “Falo sobre dois tipos de superdotação. Um é a superdotação na aprendizagem de lições. Esses alunos aprendem muito bem o currículo. Vão bem nos testes, têm notas altas. O outro tipo é a superdotação criativo-produtiva. Eles produzem coisas, participam de competições de ciências, de redação, de teatro. E essas competições podem ser boas até para alunos que não estão em listas.”

Para evitar a dor do não reconhecimento em sala de aula, o especialista alerta: “Pode ser muito frustrante, e não somente para os superdotados. Crianças com interesses fortes, curiosidade, criatividade e comprometimento com as tarefas podem ficar extremamente frustradas. A formação dos professores é essencial. Eles devem ser formados para identificar esses alunos de maneiras diferentes, não apenas com provas. Desenvolvemos instrumentos para auxiliá-los. O mais conhecido é chamado de Interest-A-lyzer. Crianças ou adultos respondem a perguntas que nos ajudam a identificar seus interesses mais fortes. Temos vídeos também para orientar professores.”

Ao apontar a principal falha da sociedade moderna, foi categórico: “O maior erro é que damos crédito demais a provas. Por que não avaliamos também quantas crianças escreveram e publicaram artigos, poemas, histórias, fizeram filmes, participaram de competição de ciências, se apresentaram em uma peça de teatro? É mais importante do que simplesmente olhar para resultados de provas. Isso estrangula o sistema educacional, que está estagnado porque se baseia em quanta informação posso despejar na cabeça das crianças para que elas façam provas. E informação obviamente é importante, mas não tem valor se não for usada para criar ou produzir alguma coisa.”

Perguntas de jovens talentos

O universitário Alexandre Almeida, de 19 anos, estudante da Faculdade de Medicina da USP, pesquisador bolsista da Fapesp no Icesp e detentor de mais de 100 medalhas do conhecimento com diagnóstico de dupla excepcionalidade (superdotação e TEA), questionou sobre o impacto do ambiente e a socialização na era virtual:

“Não podemos fazer nada a respeito dos efeitos genéticos, podemos? Mas podemos fazer a respeito dos efeitos ambientais. Costumo falar dos três ‘Es’: Enjoyment [prazer], que leva a Engagement [engajamento], que leva a Experiences [experiências] em aprendizagem mais avançada. Podemos proporcionar aos jovens atividades prazerosas. Nem toda atividade será prazerosa para todos os estudantes, mas para uma, duas, cinco crianças que levantam a mão para fazer perguntas. Isso deveria ser um ponto de partida que leva a algum tipo de engajamento, a se fazer alguma coisa com aquela energia, com aquele interesse. Interesse, para mim, é o núcleo de tudo para a produtividade criativa. O debate sobre o fator genético tem sido um dos mais longos na história do estudo da superdotação. Sim, há pessoas que são tradicionalmente mais inteligentes no que chamo de superdotação escolar. Elas aprendem bem suas lições, tiram boas notas. A ideia, porém, é fazer com que usem essas informações para criar alguma coisa que seja útil para algum público.”

Sobre o isolamento digital, Renzulli destacou: “As redes sociais mudaram o mundo e podem ser usadas de maneiras positivas, para realmente aproximar as pessoas. Vi alguns projetos em que crianças dos EUA, do Vietnã e da Coreia do Sul estavam todas trabalhando juntas, via redes sociais, em um determinado projeto.”

Já Rafael Kessler, de 12 anos, criador aos 10 anos de uma fórmula matemática na Obmep que o levou a discursar na Universidade Harvard, além de autista e desenvolvedor de projetos tecnológicos, pediu conselhos práticos para potencializar suas invenções:

“O melhor conselho é tentar encontrar alguém em uma universidade próxima, algum órgão do governo ou empresa que possa ajudar essa criança. Professores de sala de aula regular talvez não consigam dar esse tipo de ajuda. Oportunidades, recursos e experiências que temos por meio das redes sociais podem ajudar, por exemplo, a colocar essa criança para conversar com um professor famoso online, explicando seu trabalho. Não seria bom se uma criança interessada em poesia pudesse conversar com o poeta mais conhecido do Brasil?”, ponderou Renzulli. “Comece localmente. Encontre outras crianças com interesses semelhantes, que podem estar em outras séries, para trabalhar em projetos com você. E vá para a internet, onde poderá entrar em contato com pessoas famosas que trabalham na sua área de interesse.”

Por fim, Sara Gomide, de 10 anos, esportista, desenhista e com facilidade precoce para compreender a evolução das espécies, perguntou sobre as dificuldades de dormir longe do ambiente familiar e a sensação de ter pensamentos acelerados:

“Muitos estudos têm sido produzidos nos últimos anos sobre o desenvolvimento social e emocional dessas crianças. Sempre nos sentimos melhor quando estamos com quem compartilha os mesmos interesses, que respeitam o fato de não necessariamente acreditarmos nas mesmas coisas. Interações sociais são importantes. Não fique com as crianças que estão xingando você. Encontre outras que gostem do que você gosta.”

Sobre o funcionamento da mente, concluiu: “O cérebro humano é muito complexo. E algumas pessoas pensam rápido, algumas, devagar, outras, só sobre certos tipos de coisas. Não tenho uma resposta fácil. Deveríamos encorajar e recompensar as crianças por sua curiosidade, por sua disposição de querer estudar alguma coisa nova ou se reunir com quem tem interesse naquela área. E, se você estiver com pessoas com os mesmos interesses, não vai ser xingada por ser inteligente.”

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