O ministro paraguaio de Tecnologias da Informação e Comunicação, Gustavo Villate, tornou-se alvo de sanções da China após uma série de atritos diplomáticos e tecnológicos envolvendo a ilha de Taiwan. Um dia antes das punições, o representante do governo paraguaio publicou na rede social X uma saudação pelo feriado nacional ao “Governo da República da China (Taiwan)”, nome oficial do território reivindicado por Pequim.
Na segunda-feira (12), Villate integrou uma lista que a Lei Antissanções Estrangeiras de 2021 vinha reservando a políticos ocidentais e fabricantes de armas. Como consequência da penalidade, ele teve eventuais bens hipotéticos na China bloqueados, além de ficar proibido de realizar negócios com chineses ou visitar o país, Macau e Hong Kong.
A porta-voz Mao Ning acusou Villate de “espalhar mentiras sobre hackers chineses”, em referência ao anúncio feito em julho pelo ministério dele, em conjunto com a embaixada americana, sobre a suposta descoberta de invasores ligados ao regime de Pequim nos sistemas de segurança do Paraguai.
O impacto do leilão de 5G e a exclusão da Huawei
Em um longo texto publicado na quinta-feira (15), Villate apresentou sua própria perspectiva sobre os motivos da decisão chinesa. Segundo o ministro, a origem do conflito está no leilão de 5G realizado no ano passado, quando o regulador nacional exigiu de cada concorrente um relatório emitido pela missão diplomática paraguaia no país de origem dos equipamentos.
Como o Paraguai não mantém embaixada em Pequim, a exigência acabou eliminando a Huawei e a ZTE da disputa sem mencioná-las diretamente, além de prejudicar as duas maiores operadoras do país (Tigo e Personal), que utilizam tecnologia chinesa. Com isso, as licenças acabaram sendo direcionadas à Claro, controlada pelo mexicano Carlos Slim, e à Nubicom.
Enquanto os Estados Unidos passaram anos pressionando nações latino-americanas a limitarem negócios com a Huawei sem grande êxito, o Paraguai viabilizou essa exclusão apoiando-se em um decreto de 1957. Naquele ano, o ditador Alfredo Stroessner transformou o anticomunismo em política oficial de Estado para reconhecer Taipé e romper os laços diplomáticos com a China.
Os planos do governo paraguaio incluem estender os critérios de restrição à inteligência artificial e a um data center financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O ministro também mencionou um sistema de informação de saúde desenvolvido em parceria com Taiwan e já em operação em mil unidades públicas, um dado sensível que, segundo ele, colocaria a segurança nacional em risco se amplamente divulgado.
Mudança na estratégia geopolítica
Essa postura transforma a natureza do impasse geopolítico. Durante décadas, a estratégia chinesa consistiu em convencer o setor do agronegócio paraguaio de que a troca de aliança diplomática traria acesso a um mercado gigantesco para a exportação de soja e carne. A pressão chegou a gerar reflexos políticos — como um projeto da oposição apresentado ao Senado em 2020 para aproximar o país de Pequim, que acabou derrotado por 25 votos a 16 —, e culminou na derrota eleitoral de 2023 de Efraín Alegre, defensor da aproximação com a China, superado por Santiago Peña.
Enquanto a disputa permaneceu restrita ao campo comercial, os interesses econômicos dos pecuaristas poderiam influenciar o cenário. Contudo, ao vincular a parceria com Taiwan à segurança das redes de telecomunicação, a gestão de Peña transformou a aliança em uma diretriz de política tecnológica.
Essa escolha traz ônus que Assunção prefere evitar debater publicamente, começando pela implementação de uma rede 5G sem a participação das duas maiores operadoras do mercado, o que reduz a concorrência e tende a encarecer os serviços. Além disso, o projeto do data center depende de eletricidade barata, condição que, conforme projeções do próprio governo, deixará de existir até 2030.
Apesar dos custos, o governo de Pequim parece ter avaliado que a via comercial não trará resultados antes das eleições de 2028, pleito ao qual o presidente Santiago Peña não poderá concorrer, optando então por direcionar sanções nominais a autoridades. No curto prazo, a punição acabou conferindo a Villate uma projeção política que talvez ele não alcançasse apenas por mérito próprio, ao mesmo tempo em que envia um claro aviso ao próximo chefe de Executivo, que herdará uma infraestrutura de telecomunicações mais custosa e a certeza de que sustentar essas regras exige um preço de ordem pessoal.
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