Dificuldade em relacionar sintomas como ansiedade e palpitações à perimenopausa pode atrasar diagnóstico

Falta de diagnóstico da perimenopausa atrasa tratamento de mulheres

Saúde

Insônia, ansiedade, dores musculares e lapsos de memória podem ser sinais evidentes da transição para a menopausa, mas nem sempre recebem a associação correta com o climatério. Sem uma avaliação médica adequada, muitas mulheres acabam utilizando medicamentos de forma desnecessária e deixam de receber os cuidados essenciais que ajudariam a prevenir problemas de saúde associados a esse período específico da vida.

A dificuldade de reconhecer esses sinais ocorre tanto na rede pública quanto na rede privada de atendimento, conforme aponta a endocrinologista Ana Priscila Soares, membro da Associação Brasileira de Climatério (Sobrac). Parte desse obstáculo reside na escassez de capacitação para identificar a perimenopausa, que corresponde à fase anterior à última menstruação, momento em que as queixas já podem surgir mesmo com o ciclo menstrual ainda regular.

“Muitas vezes, essa mulher é encaminhada para um psiquiatra, para um ortopedista, porque ela tem um ombro congelado, ou porque está com ansiedade, depressão. A gente tem muita dificuldade em fazer o diagnóstico de perimenopausa”, afirma.

A lentidão em obter o reconhecimento clínico e o tratamento apropriado ganha visibilidade no Dia Mundial da Menopausa, data voltada para conscientizar a sociedade sobre essa importante etapa feminina.

A endocrinologista Cristina Bellotti, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) em São Paulo, relata atender frequentemente pacientes que fazem uso de múltiplos fármacos sem que o climatério tenha sido cogitado pelos profissionais. Segundo ela, quando existe a indicação correta para a terapia hormonal, torna-se viável amenizar diversas queixas e diminuir a dependência de outros remédios.

A jornada de diagnóstico e a barreira do preconceito

A barreira para conseguir um atendimento correto marcou a trajetória de Adriana Ferreira, de 60 anos, fundadora e presidente do Instituto Menopausa Feliz. Quando tinha 47 anos, ela enfrentava ondas de calor e irritabilidade intensa, mas os médicos da época jamais relacionavam seus sintomas ao processo de transição da menopausa.

“É só seu corpo envelhecendo, Adriana, acostume-se”, relata ter ouvido de um médico. Ela também recorreu ao uso de diferentes ansiolíticos — fármacos indicados para o controle da ansiedade — sem conseguir alcançar qualquer alívio para o seu quadro. Em seu próprio prontuário, conta ter encontrado o termo “mulher poliqueixosa”, empregado para classificar pacientes com reclamações variadas.

“Por trás daquela palavra havia uma mulher tentando explicar o que estava sentindo”, afirma.

Somente aos 53 anos, após buscar orientações por iniciativa própria, ela conseguiu se consultar com uma médica experiente no cuidado de mulheres nessa fase. Durante a avaliação, foram mapeados 48 sintomas associados à menopausa. Com a conduta terapêutica certa, Adriana relata ter conseguido abrandar as ondas de calor e recuperar sua qualidade de vida.

Essa vivência a motivou a fundar, em 2021, o Instituto Menopausa Feliz, organização voltada para a conscientização e a promoção de políticas públicas focadas na saúde feminina.

Nos encontros promovidos pela instituição, ela passou a escutar relatos semelhantes ao seu: mulheres que buscavam ajuda médica por quadros de insônia, ansiedade e oscilações de humor, mas que acabavam recebendo tratamentos isolados para cada sintoma, sem que a transição menopausal fosse investigada.

“Antidepressivos e medicamentos para insônia podem ter indicação e ser fundamentais. O problema é quando a prescrição encerra a investigação e a mulher continua sem explicação e acompanhamento”, afirma.

Adriana também destaca as barreiras e desigualdades no acesso ao sistema de saúde. Para aquelas que dependem de transporte público, precisam se ausentar do trabalho ou encontrar alguém para cuidar dos filhos, conseguir marcar e comparecer a uma consulta exige uma complexa reorganização da rotina diária.

“Quando essa mulher consegue chegar, precisamos aproveitar a oportunidade para ouvi-la por inteiro”, afirma.

A dimensão do problema é corroborada por dados científicos. Um estudo divulgado em 2022 na revista Climacteric, que avaliou 1.500 brasileiras na faixa etária de 45 a 65 anos, revelou que 87,9% das participantes apresentavam sintomas típicos do climatério. Do total de mulheres na fase de transição ou já na menopausa, 52,1% haviam recebido alguma prescrição médica, mas somente 22,3% contavam com indicação para terapia hormonal.

Sintomas que vão muito além das ondas de calor

Além das tradicionais ondas de calor, as oscilações hormonais características da menopausa podem desencadear palpitações, dores musculares, rigidez nas articulações, zumbidos, formigamentos, ressecamento nos olhos e na boca, além de variações nas dores de cabeça.

Também podem manifestar-se fadiga profunda, oscilações de humor e a chamada névoa mental, quadro marcado por lapsos de memória e dificuldade de foco. De acordo com Bellotti, tais queixas costumam ser incorretamente creditadas ao esgotamento provocado pela rotina diária.

Soares complementa que o cansaço físico e os distúrbios do sono podem se manifestar bem antes das irregularidades nos ciclos menstruais. Na ausência de uma associação com o climatério, o tratamento tende a aliviar apenas sintomas pontuais, falhando em solucionar o quadro global da paciente.

Para além do impacto negativo na qualidade de vida, nos vínculos interpessoais e na rotina profissional, o consumo inadequado de fármacos traz riscos de efeitos colaterais indesejados. Determinados remédios voltados para induzir o sono, por exemplo, carregam o risco real de dependência química.

Isabel Cristina Sorpreso, professora de ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), esclarece que as manifestações clínicas podem iniciar de três a quatro anos antes da menopausa propriamente dita, estendendo-se por um período de oito a dez anos.

No Brasil, a última menstruação costuma acontecer entre os 48 e 50 anos de idade, sendo o diagnóstico da menopausa confirmado após um intervalo de 12 meses seguidos sem sangramento menstrual.

O reconhecimento da perimenopausa apoia-se fundamentalmente em critérios clínicos, aponta Soares, que também compõe a comissão de climatério da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Cabe ao médico analisar a idade da paciente, o histórico médico, o padrão do ciclo menstrual e o conjunto de sintomas apresentados. Exames isolados de dosagem hormonal geralmente não bastam, visto que os níveis de hormônios flutuam bastante durante essa fase.

A eficácia da terapia hormonal e outras alternativas

A terapia de reposição hormonal é apontada como a conduta mais eficaz para atenuar as manifestações da menopausa. O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza estrogênio conjugado (0,3 mg), acetato de medroxiprogesterona (10 mg), noretisterona (0,35 mg), estrogênio conjugado tópico vaginal (0,625 mg/g) e estriol tópico vaginal (1 mg/g).

O tratamento também desempenha um papel fundamental na prevenção da perda de massa óssea, além de atenuar problemas como o ressecamento vaginal e o desconforto durante as relações sexuais.

O protocolo terapêutico geralmente engloba o uso de estrogênio associado à progesterona — esta última indispensável para mulheres que conservam o útero, servindo para proteger o endométrio. A administração pode ocorrer por meio de comprimidos, adesivos cutâneos ou géis, dependendo da indicação médica individual. Existem, contudo, contraindicações importantes, a exemplo de históricos de determinados tipos de câncer e certas cardiopatias.

Isso não quer dizer que outras classes de fármacos sejam totalmente descartadas. Entre as alternativas mencionadas por Sorpreso encontram-se alguns tipos de antidepressivos, que demonstram eficácia no alívio das ondas de calor para pacientes que estão impedidas de realizar a terapia hormonal, embora não assegurem os mesmos ganhos para a densidade óssea.

Bellotti reforça ainda a relevância da prática regular de exercícios físicos e da manutenção de uma alimentação equilibrada. A menopausa, conclui a especialista, não deve ser encarada como uma patologia, mas sim como uma fase natural da vida que demanda atenção e cuidados especializados.

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