Pastores alertam para ansiedade e autolesão entre jovens nas igrejas

Pastores alertam para crise de ansiedade e automutilação entre jovens

Brasil

Dados alarmantes revelam que seis em cada dez estudantes entre 13 e 17 anos afirmam não ver sentido na vida, conforme apontou a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, divulgada recentemente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O levantamento também mostrou que 43,4% das meninas e 20,5% dos meninos sentiram vontade de se ‘machucar de propósito’ nos 12 meses anteriores à pesquisa, 73% se sentem tristes de forma constante e 67,6% ficam irritados ou nervosos por qualquer razão.

O IBGE ouviu 118.099 adolescentes que frequentavam 4.167 escolas públicas e privadas de todo o Brasil em 2024. Não houve um recorte por religião, mas engana-se quem acha que o fato de estarem dentro de uma igreja livra os jovens desses problemas “do mundo”.

Desafios na saúde mental dentro das comunidades de fé

Ansiedade, autolesão e questões de autoestima estão cada vez mais comuns nos atendimentos pastorais, segundo Josué Gonçalves, que atua há mais de 30 anos no aconselhamento familiar.

Josué aponta o excesso de telas sem supervisão como um dos principais vilões das famílias. “A comparação ou busca por aquilo que o outro tem ou está vivendo tem tornado nossas crianças e jovens superansiosos”, observa.

Pai e filho, Josué e Douglas Gonçalves contestam a ideia de isolar jovens para protegê-los e lançaram o livro “Meus Filhos, Minhas Flechas” (Editora Vida). A obra, que se autodenomina um “manual de guerra”, é baseada do Salmo 127:4 que diz: “Como flechas na mão do guerreiro são os filhos nascidos na juventude”.

Para eles, a flecha foi projetada para o conflito, para alcançar alvos que o arqueiro, sozinho, não alcançaria. “Estamos em um campo de batalha, onde o inimigo mira sempre a próxima geração”, escrevem.

O impacto da cultura da performance

O livro também fala sobre a cultura da performance e a falta de resiliência. “Muitos trabalham incansavelmente para dar conforto aos filhos, mas muito poucos os preparam para lidar com a vida adulta em toda sua complexidade”, diz um trecho da obra. “Os pais são muito bons em proteger os filhos fisicamente: não andam sozinhos na rua, não pegam ônibus, mas, muitas vezes, são negligentes ao proteger a alma, o coração dos filhos”, pontua Douglas.

“Vejo jovens sedentários, com a alimentação e sono desequilibrados e muita carência em seus corações. Muitos deles não sentem a presença fiel dos pais como coluna. E muitos pais, mesmo quando estão fisicamente, não estão lá de verdade”, observa o pastor, que lidera o ministério JesusCopy (cópias de Jesus).

Para a psicologia, a autoestima da criança é desenvolvida através de uma presença atenta dos pais. “Seu filho até ouve seu ‘eu te amo’, mas só acredita nele quando você se senta 30 minutos com ele e sem perder o foco. É assim que a alma dele entende que ele tem valor”, diz Douglas.

“Formar filhos exige o melhor de quem somos e frequentemente confronta o que há de pior em nós. Exige paciência quando estamos esgotados e presença quando estamos sobrecarregados”, reconhecem.

O papel da família na proteção dos jovens

Um dos grandes temores dos pais evangélicos é que seu filho “se desvie dos caminhos do Senhor”. Há, inclusive, quem não mande os filhos para a universidade, pois acreditam que o contato “com o mundo” pode influenciá-los negativamente –ideia rechaçada pelos autores.

“Não posso decidir pelos meus filhos, mas posso plantar valores e princípios que vão funcionar como uma bússola orientadora na hora das decisões. Ensinamos a serem fiéis no meio de toda infidelidade e serem santos no meio de todo pecado”, diz Douglas.

Sobre os filhos que se desviam, Josué aconselha: “Muitos filhos pródigos não voltam por causa dos sermões do pai, mas por causa da saudade da paz que sentiam em casa”, diz Josué. “Seu trabalho é amar e orar”, conclui.

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