Brasil não é hostil para empreender nem é o país mais complexo, diz fundador do Waze

Uri Levine diz que Brasil não é hostil nem o mais complexo

Mercados

Aos 61 anos, o israelense Uri Levine, um dos fundadores do Waze e pioneiro como investidor do Moovit, afirma ter uma preferência clara pela simplicidade. “Isso não é moeda corrente no Brasil, certo? É muito difícil encontrar coisas simples aí”, afirma ele.

Apesar da ressalva com a burocracia local, o empresário afasta duas impressões recorrentes sobre o país: a ideia de que o Brasil seria um ambiente hostil para novos negócios e a noção de que os ciclos de vendas por aqui costumam ser mais longos do que em outras nações.

“Não é hostil. É complexo, sim. Mas nem é o mais complexo [do mundo]. Pense na Índia. São 38 línguas formais diferentes. Ser complexo cria uma oportunidade porque vai inibir ainda mais a concorrência e empresas de outros países vão relutar em entrar no mercado. Para mim, isso é uma vantagem. E o ciclo não é mais longo. Vender é difícil. É apenas isso”, completa.

Reconhecido no ecossistema global de inovação por ostentar o título de “duocórnio” — devido às vendas do Waze e do Moovit por cerca de US$ 1 bilhão cada —, Levine construiu uma base sólida de admiradores no Brasil, país que relata visitar “frequentemente”.

O sucesso editorial no território nacional comprova essa proximidade. O livro “Apaixone-se pelo Problema, Não pela Solução” (Citadel Editora, 448 páginas, R$ 76,90) vendeu mais cópias na versão brasileira do que no original em inglês. Na sequência, sua segunda obra, “O Simples Vence: Foco e o Que Não Fazer se Você Quiser Ser Um Empreendedor de Sucesso” (Citadel Editora, 160 páginas, R$ 64,90), teve lançamento exclusivo no Brasil.

O co-fundador do Waze também escolheu o país para estrear a Uri Levine Startup Academy, plataforma de aulas online voltada para a formação de novos empreendedores, cujo objetivo declarado é treinar 100 mil pessoas. Ele atua ainda como professor na IE University, em Madri, onde reside, e na Universidade de Tel Aviv, em Israel.

Valor, inovação e retenção

A máxima que dá título ao seu primeiro livro funciona como um mantra corporativo. A vivência de Levine sustenta a tese de que entregar valor a uma demanda existente supera a tentativa de inventar algo completamente inédito.

Nos primeiros dias do Waze, convencer aportes financeiros era um desafio. Analistas e investidores demonstravam ceticismo, argumentando que motoristas não usariam um GPS para rotas diárias e já conhecidas. Nesse cenário, Levine consolidou outro de seus principais lemas: “retenção é a única métrica que importa.”

“Significa que você criou valor para o seu cliente”, explica.

Para ele, a busca desenfreada por inovação costuma ser superestimada no universo das startups.

“As pessoas não estão procurando algo novo, certo? O grupo de inovadores é muito pequeno. Talvez 10% da população quer algo mais valioso do que aquilo que já tem. A grande maioria tem medo de mudanças. Eles querem algo que funcione bem”, pontua.

“Gostamos de pensar que queremos mudanças, mas não. Não queremos. Só vamos querer algo melhor se o que temos não é bom o suficiente. O ‘bom o suficiente’ sempre vai vencer. Se o seu produto é bom o suficiente, as pessoas não vão trocá-lo”.

Oportunidades no ecossistema brasileiro

Após a consolidação do Waze, Levine direcionou recursos para diferentes startups, como FairFly, Refundit, Pontera, SeeTree e Fibo. Destacam-se casos como o da Pontera — voltada para consultores gerenciarem previdência privada nos EUA —, avaliada entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão pela Dealroom. Desde 2016, ele também integra o conselho da Here Technologies e preside o colegiado da Zoomcar, plataforma indiana de compartilhamento de automóveis.

Com base em sua trajetória de exibições literárias, viagens e negócios de sucesso, o israelense acredita compreender o perfil do público brasileiro e as características das startups com maior potencial de prosperar na região.

“É um país grande e social. Muito interativo, certo? WhatsApp e Instagram fazem muito sucesso e o resultado disso é o que existe muito diálogo entre as pessoas. E tem mais: a maioria das empresas norte-americanas, até perceberem que chegou a hora de ir para o Brasil, leva tempo”, analisa.

“O resultado disso é que existe menos concorrência, o que torna o ecossistema de startups no país muito lucrativo. Por isso lancei a academia primeiro no Brasil. Porque sou empreendedor, fundador, mas também sou professor”, conclui.

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