Família Batista manteve bilhões em fundos da Reag até liquidação da instituição

Família Batista manteve bilhões em fundos da Reag até liquidação

Mercados

A família Batista, dona de empresas como a líder global de proteína animal JBS e a fabricante de celulose Eldorado, manteve por quase uma década bilhões de reais de seu patrimônio em fundos geridos e administrados pela Reag, instituição liquidada pelo Banco Central neste ano.

Onze fundos ligados aos Batistas, que somavam R$ 25,7 bilhões em ativos ao fim de setembro, tinham a Reag como gestora e administradora até o primeiro trimestre deste ano. Os fundos detêm ações da holding familiar J&F e do grupo em Luxemburgo, além de direitos creditórios, ações de outras empresas da família, além de bens dos irmãos Wesley e Joesley, controladores da J&F.

Fundada por João Carlos Mansur, que assinou em setembro um acordo de delação premiada com a PGR, ainda sujeito à homologação pelo STF, a Reag tinha porte relativamente pequeno quando começou a administrar fundos ligados à família Batista. Em 2018, aparecia na 42ª posição no ranking de gestores da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), com R$ 12,2 bilhões em ativos.

Desse total, R$ 6,4 bilhões estavam em cinco fundos controlados pela família Batista. Esses fundos representavam, sozinhos, mais da metade dos ativos contabilizados naquele ranking da Reag.

A entrada dos fundos dos Batistas coincidiu com um período de forte expansão da Reag. Sete anos depois, em agosto de 2025, a Reag era uma das dez maiores gestoras do país, com R$ 369,7 bilhões, dos quais R$ 19,9 bilhões estavam nos fundos da família Batista.

Na época, além da família controladora da JBS, a Reag tinha outro grande cliente, o Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro do ano passado. A quebra do Master gerou uma conta estimada em R$ 40,6 bilhões para o Fundo Garantidor de Créditos. O valor chega a R$ 51,8 bilhões quando considerados também Will Bank e Banco Pleno, instituições relacionadas ao caso.

Histórico e escândalos

A família Batista começou a utilizar a Reag na administração e gestão de fundos ligados ao seu patrimônio em 2017, à época em que os irmãos Joesley e Wesley Batista eram investigados pela PF (Polícia Federal).

Àquela altura, os dois empresários enfrentavam problemas judiciais decorrentes da investigação da Polícia Federal, que culminaram em um acordo de delação premiada assinado no âmbito da operação Lava Jato. Em meio aos escândalos, os bancos não queriam os empresários como clientes.

Quase dez anos depois, no ano passado, a Reag apareceu no centro de dois dos maiores escândalos financeiros da história do Brasil, investigados pelas operações Carbono Oculto, que apura um esquema bilionário de fraudes fiscais e lavagem de dinheiro em setores da economia ligados ao PCC (Primeiro Comando da Capital), e Compliance Zero, ligada às fraudes do Master. Em ambas as investigações, fundos administrados ou geridos por empresas do grupo Reag aparecem entre as estruturas investigadas.

Os fundos da família Batista não têm nenhuma relação com o escândalo do Master nem com a operação Carbono Oculto. É comum que estruturas de fundos tenham objetivos que vão além de investimentos, como facilitar a sucessão, proteção patrimonial e economias tributárias.

Procurada pela reportagem para comentar a escolha da Reag, a J&F disse que os fundos foram criados para responder a necessidades de negócios. “Todos os fundos cumprem rigorosamente as regras do setor, sendo devidamente registrados e prestando conta a todos os órgãos de controle”, diz.

A nota afirma ainda que “investidores encontram informações sobre os fundos que fazem parte das estruturas das companhias abertas do grupo nas demonstrações financeiras e nos registros oficiais”. “Sem transparência nessa estrutura de capital, o grupo não teria a confiança de investidores de todo o mundo em suas ações e seus títulos de dívida”, afirma.

A defesa de Mansur, ex-dono da Reag, não quis comentar.

Derrocada da Reag

A situação da Reag começou a se deteriorar publicamente com a operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, e se agravou com a liquidação do Master pelo BC três meses depois. A Reag foi um dos principais alvos da operação, ainda em andamento.

Reportagem da Folha de 9 de janeiro deste ano revelou que o BC tinha identificado seis fundos de investimento suspeitos de fazer parte do esquema de fraude capitaneado por Daniel Vorcaro. Todos esses fundos também aparecem nas investigações que miram a infiltração do PCC na economia formal, de acordo com cruzamento de dados feito pela reportagem. A Reag foi liquidada seis dias depois da reportagem.

Entre fevereiro e março deste ano, a família Batista migrou os fundos para outra administradora, a Planner, investigada pela PF no inquérito sobre aportes da Rioprevidência em letras financeiras do Banco Master. A gestão dos fundos foi para a Veritas Capital Management.

A Planner afirma que “a relação dos fundos sob sua administração é pública e acessível via CVM. Por outro lado, a identidade dos cotistas é estritamente protegida por sigilo legal, razão pela qual a instituição não a confirma nem comenta”.

Patrimônio dos Batistas

Informações obtidas pela Folha mostram como os investimentos dos Batistas estavam alocados nos fundos da gestora no momento em que o Ministério Público de São Paulo (MPSP/GAECO), a Receita Federal e a Polícia Federal deflagraram a Carbono Oculto.

A maioria dos valores está no FIP (Fundo de Investimento em Participações) Pinheiros, que tem R$ 11,4 bilhões em ativos. São investimentos em ações da J&F, a holding da família. As cotas do Pinheiros estão divididas entre a Colorado Investment Holdings, empresa de Joesley e Wesley com sede em Delaware, estado americano conhecido por sua legislação societária favorável às empresas, e as holdings patrimoniais dos dois irmãos, a JJMB (referência às iniciais de Joesley) e WWM (referência às iniciais de Wesley).

Os demais fundos abrigam ações da J&F Invest, holding do grupo em Luxemburgo, precatórios, ações da fabricante de produtos de higiene pessoal e limpeza doméstica Flora, empréstimos e empresas de energia.

Sobre os precatórios, a J&F disse em nota que o investimento feito pelo fundo Laguz visou à diversificação e rentabilização de caixa, representando “uma fração irrelevante do capital do grupo e apenas carrega a carteira existente”.

A estrutura conta ainda com três fundos, um ligado a cada uma das irmãs de Joesley e Wesley: VLBM (Valere Batista), VNMB (Vanessa) e VVMB (Vivianne).

Eles têm como ativo créditos contra Joesley e Wesley de R$ 454 milhões. Cada uma das irmãs tem esse valor a receber dos irmãos pela venda de sua participação na holding familiar J&F. Os balanços dos três fundos continuam registrando esses créditos.

Os créditos contra Joesley e Wesley constituem ativos dos fundos e, portanto, compõem o valor de suas cotas.

Procurada, a J&F afirma que todos os fundos foram transferidos para outros agentes quando vieram a público suspeitas sobre a Reag, encerrando qualquer relação com a gestora. “Até então, não havia nada que desabonasse a reputação da Reag”, diz, em nota, a holding dos irmãos Batista.

Nota da J&F

“Todos os fundos foram transferidos para outros agentes quando vieram a público suspeitas sobre a Reag, encerrando qualquer relação com a gestora. Até então, não havia nada que desabonasse a reputação da Reag.

Os fundos mencionados foram criados em momentos distintos, para responder a necessidades de negócios feitos à época, e não como uma grande estrutura de finalidade específica. Todos os fundos cumprem rigorosamente as regras do setor, sendo devidamente registrados e prestando conta a todos os órgãos de controle.

Investidores encontram informações sobre todos os fundos que fazem parte das estruturas das companhias abertas do grupo nas demonstrações financeiras e nos registros oficiais. Sem transparência nessa estrutura de capital, o grupo não teria a confiança de investidores de todo o mundo em suas ações e seus títulos de dívida.

O FIDC Laguz é um fundo que realizou investimentos financeiros visando a diversificação e rentabilização de caixa, que representa uma fração irrelevante do capital do grupo e apenas carrega a carteira existente.”

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