O segundo turno das eleições coloca frente a frente Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em uma disputa acirrada que também define os rumos do turismo nacional, atividade econômica responsável por quase 8% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.
O setor chega ao pleito embalado pelo reaquecimento pós-pandemia e por marcas históricas recentes. Em 2025, o fluxo de visitantes internacionais ultrapassou a marca de 9 milhões, impulsionando a recuperação de rotas aéreas nordestinas e a movimentação em terminais estratégicos. O aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, atendeu 17,5 milhões de pessoas, enquanto Guarulhos retomou o posto de mais movimentado da América Latina ao registrar 47,1 milhões de passageiros, superando a terminal de Bogotá. Além disso, as principais companhias aéreas do país — Azul, Gol e Latam — expandiram suas malhas, ao passo que redes hoteleiras globais, a exemplo de Accor, Hilton e Marriott, injetaram recursos expressivos no território nacional.
Apesar dos indicadores positivos, a influência direta das políticas públicas nesses resultados gera debates acalorados entre especialistas e profissionais da área.
O peso da gestão pública e os números do setor
Para Marcelo Freixo, deputado federal eleito e presidente da Embratur durante a gestão Lula 3, os avanços refletem o trabalho governamental na restruturação das relações diplomáticas e na melhoria de índices cruciais para o viajante, como a queda do desmatamento.
“Profissionalizamos a Embratur com um quadro técnico, que não existía antes, já que a agência era um cabide de emprego, e construímos uma equipe que trabalhou com inteligência de dados”, afirma. “Temos uma experiência concreta do que foi feito em um governo e do que foi feito no outro.”
Em contrapartida, Fabio Godinho, ex-CEO da CVC e ex-presidente da Webjet e da GJP Hotels & Resorts, avalia que o cenário atual difere do otimismo inicial de 2023. Apoiador de Flávio Bolsonaro, a quem entregou um planejamento de longo prazo, o executivo argumenta que o recorde decorre de um fator externo.
“Esse recorde que tivemos se deve basicamente ao crescimento do turismo argentino. E isso não se deu por uma estratégia de governo, mas por um gap cambial, que favoreceu a vinda dos vizinhos”, diz o executivo, que recebeu o candidato em sua residência em São Paulo.
Segundo Godinho, o relatório apresentado aponta pilares fundamentais como segurança e infraestrutura. “Flávio se mostrou disposto a colocar o setor como uma das principais bandeiras do governo, porque há um potencial enorme a ser destravado.”
A instabilidade ministerial
Um ponto crítico apontado pelo mercado é a alta rotatividade no comando da pasta. O Ministério do Turismo completou 23 anos de existência com 22 ministros diferentes, contabilizando os titulares e interinos — média de três nomes trocados tanto na gestão passada quanto no atual mandato.
No governo Bolsonaro, a pasta foi liderada sucessivamente por Marcelo Álvaro Antônio (PL-MG), demitido após escândalo de candidaturas laranjas; Gilson Machado, detido por suspeita de envolvimento na obtenção irregular de passaporte europeu para o tenente-coronel Mauro Cid; e Carlos Alberto de Brito.
Na gestão Lula, o controle do ministério integrou articulações com o Centrão. Daniela Carneiro ocupou o posto inicial até deixar o cargo por pressões do União Brasil, que indicou Celso Sabino. Com a expulsão de Sabino da legenda, Gustavo Feliciano assumiu a função para realinhar a base governista.
Ainda assim, a professora e pesquisadora de políticas de turismo da USP, Mariana Aldrigui, pondera que a instabilidade política não é o fator determinante. “Ninguém viaja porque o Ministério do Turismo funciona bem”, escreveu em texto publicado na Folha. “Viaja-se quando há renda, crédito, câmbio favorável, passagem a preço viável e a percepção de que o destino é seguro e acolhedor. Quase nenhuma dessas variáveis está na mesa do ministro.”
Para a acadêmica, a visão empresarial de que a atividade precisa de uma gestão puramente corporativa desconsidera o apoio estatal recebido recentemente. “O setor recebeu, nos últimos anos, socorro e renúncia fiscal na casa dos bilhões, via Perse (Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos) e Fungetur (Fundo Geral de Turismo). A relação com o Estado é de dependência mútua, não de abandono.”
Propostas na mesa: o que dizem os planos de governo
Embora concordem que o turismo é um alicerce econômico essencial com potenciais regionais a serem explorados, Lula e Flávio Bolsonaro apresentam abordagens divergentes.
O plano do candidato petista aposta em um papel indutor mais forte do Estado, prevendo aportes do Novo PAC em aeroportos regionais e estímulos a novas rotas. O documento destaca os gastos recordes de US$ 10,4 bilhões por estrangeiros no ano passado, propõe a criação de roteiros temáticos voltados à gastronomia, arte, cultura e ecologia, além de ressaltar a valorização dos 75 parques nacionais.
Já o programa do senador bolsonarista prioriza o fortalecimento da iniciativa privada, a redução de ministérios — sem especificar se o Turismo será impactado — e a destinação de R$ 900 bilhões para obras de infraestrutura. Entre as propostas de destaque está a criação do Trem do Nordeste para conectar capitais como Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal e Fortaleza.
O tema da segurança pública também ganha espaço no plano de Flávio, associado ao programa Brasil sem Medo, que visa tratar facções como organizações terroristas. A medida dialoga com a demanda de empresários como Fabio Godinho. “Precisamos de uma polícia turística, bilíngue e 24 horas, como fez o México”, afirma, citando que 47% dos estrangeiros que consideraram visitar o Brasil desistiram por receio da violência.
De acordo com Marcelo Freixo, a divergência central reside no limite de atuação entre os setores público e privado. “Política pública é responsabilidade do Estado”, diz. “Quem promove o país, quem tem que ter dados, é o Estado, e isso não é substituído pelo privado.” Freixo também critica a intenção de privatizar áreas públicas, relembrando a atuação de Flávio Bolsonaro como relator da PEC das Praias no Senado. Em contrapartida, Godinho avalia que o assunto deve seguir exemplos internacionais, ressaltando que “privatizar todas as praias do país, com certeza, é impossível.”
O programa de Flávio qualifica as praias como grandes riquezas nacionais, enquanto o projeto de Lula foca na preservação de territórios pesqueiros e das comunidades tradicionais. Para Mariana Aldrigui, o desafio do setor reside na falta de coesão interna: “Enquanto cada segmento negociar sozinho, e o setor se enxergar como uma ilha à espera de um bom gestor, seguirá produzindo diagnósticos com verniz técnico, que pedem ao ministério errado soluções que dependem do país todo.”
Resumo dos planos de governo
Propostas de Flávio Bolsonaro: – Turismo visto como vocação natural com grande potencial inexplorado. – Promoção internacional do Brasil com foco nas vocações regionais. – Reforço na segurança pública por meio do programa Brasil sem Medo. – Alocação de cerca de R$ 900 bilhões para rodovias, hidrovias, portos, aeroportos e ferrovias. – Viabilização do Trem do Nordeste interligando capitais nordestinas. – Preservação do patrimônio histórico atualmente deteriorado. – Aperfeiçoamento de leis de incentivo para corrigir distorções e apoiar polos regionais. – Implementação de metas voltadas ao combustível sustentável de aviação.
Propostas de Luiz Inácio Lula da Silva: – Tratamento do turismo como pilar estratégico da economia e do desenvolvimento. – Registro de recorde de turistas estrangeiros e de US$ 10,4 bilhões em gastos no exterior. – Concessão de apoio a mais de 6.000 operações pelo Fundo Geral de Turismo, mobilizando R$ 2,8 bilhões. – Instalação de escritório regional da Organização Mundial do Turismo no Rio de Janeiro. – Valorização de destinos baseados na natureza e na diversidade cultural. – Estímulo a roteiros temáticos de gastronomia, arte, cultura e ecologia. – Continuidade de investimentos em aeroportos regionais e novas rotas aéreas via Novo PAC. – Valorização dos 75 parques nacionais, integrando conservação, turismo, desenvolvimento regional e educação ambiental.
What do you feel about this post?
Like
Love
Happy
Haha
Sad
