A chef Sara Aqel cresceu ouvindo do pai e da avó paterna histórias sobre a vida na Palestina, onde vizinhos, amigos e parentes faziam grandes refeições coletivas. Eram ocasiões em que pessoas se reuniam para compartilhar pratos e receitas da região.
Sua família, porém, deixou a região junto a outros árabes no grande êxodo conhecido por essa população como nakba, ocorrido em meio à independência de Israel e à primeira guerra árabe-israelense. Assim, começa sua história. “Não sabemos se meus pais teriam escolhido nos criar na Palestina ou não, porque eles nunca tiveram essa opção”, afirma Sara.
Nascida na Jordânia, a chef de 30 anos cresceu, estudou, fez amigos e construiu sua carreira no país que acolheu seus pais, sua avó paterna e outras 2,4 milhões de pessoas segundo dados da UNRWA (Agência das Nações Unidas para Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo).
Mesmo assim, Sara faz questão de se identificar também como palestina. Em sua trajetória, a bagagem dos dois territórios é inseparável.
Em sua primeira visita ao Brasil, a chef participa do Mesa São Paulo, evento que reúne jantares, congresso e aulas de gastronomia. No dia 10 de novembro, prepara um jantar com outros chefs de destaque, como Telma Shimizu, do Aizomê, e Alessandra Montagne, do Muses, no museu do Louvre, em Paris.
Depois, em 12 de novembro, palestra sobre a importância da comida para a preservação da identidade e da cultura palestina, em especial por meio das mulheres que transmitem receitas e técnicas de preparo, muitas vezes apenas de maneira oral.
Tanto sua avó paterna quanto sua mãe servem de fio condutor do tema. As duas guardam referências de diferentes cidades palestinas e ensinaram à chef nuances dessa cozinha —a mãe viveu em Jenin, e a avó nasceu em Hebron, mais ao sul da Cisjordânia.
Apesar das diferenças entre Palestina, Jordânia, Síria e Líbano (localidades que integram o que é chamado de Levante), as muitas semelhanças se destacam. As receitas da região são abundantes em vegetais, azeite, leguminosas, grãos como o trigo, especiarias como o sumagre e folhas verdes. Nos doces, o uso de cardamomo é comum como especiaria.
Além dos ingredientes, os pratos também guardam similaridades. Sara diz que a infância foi marcada por preparos como a maqluba (que significa “virada de cabeça para baixo” em árabe), preparado com arroz sobreposto por camadas de vegetais, carne ou frango. Depois do cozimento na panela, o prato é desenformado em uma travessa.
Já o musakhan é feito com camadas de pão fino assado sobre uma pedra, depois embebido em muito azeite e caldo de frango, coberto com sumagre, cebola e pedaços de frango. Para ela, a relação com a comida ganha ainda mais importância diante de conflitos “que ameaçam lavouras, recursos e modos de vida na Palestina”, afirma.
Hoje, dona de uma carreira internacional com passagens pela Suíça e Hong Kong, Sara é uma das cozinheiras mais importantes do Oriente Médio. Em 2023, ela abriu o Dara Dining, em Amã, capital da do seu país natal, restaurante de cozinha contemporânea em que coloca em prática o que aprendeu na infância.
Os insumos que ela estava acostumada a ver na região se tornam novos pratos, como uma versão cremosa de tabule e charutos de folha de uva recheados de peixe. Também é da capital da Jordânia que Sara acompanha as notícias sobre o conflito na Palestina, en especial porque alguns familiares ainda vivem lá. “Deixou de ser uma dor familiar e passou a ser uma dor humana.”
Serviço
Jantar de Sara Aqel em São Paulo Aizomê Japan House – av. Paulista, 52, 2º andar, Bela Vista, região central. (11) 91662-4170. Ter (10/11), às 20h. A partir de R$ 640
Mesa São Paulo 2026 Memorial da América Latina – av. Mário de Andrade, 664, portão 13, Barra Funda, região oeste. De 12 a 14/11. Qui. a sáb., das 10h às 18h. Ingr.: a partir de R$ 150 em mesasp.com.br
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