Equipar as escolas é parte do investimento em tecnologia na educação. Para apoiar a aprendizagem, porém, os recursos precisam estar articulados ao trabalho dos professores, ao acompanhamento dos estudantes e à participação das famílias. Esse esforço envolve toda a comunidade escolar e está presente nas iniciativas de Angra dos Reis (RJ) e na FUMEC (Fundação Municipal para Educação Comunitária) de Campinas (SP), vencedoras do Prêmio Gestão Inovadora na Educação, promovido pela Mind Lab com apoio técnico do Porvir.
A transformação digital em Angra dos Reis
Quando começou a falar sobre desenvolver um sistema para matrículas online nas escolas de Angra dos Reis, logo que assumiu o cargo de secretário de Educação, em 2021, Paulo Fortunato ouvia frases como “isso não vai dar certo”. “Diante disso, tive certeza que precisava fazer dar certo. Porque não fazia sentido os pais terem de acampar na porta das escolas para garantir a matrícula”, afirma o secretário.
O site Matrícula Digital entrou no ar no ano letivo de 2022. Hoje, a aproximação com as famílias também ocorre pela plataforma Escola Digital, na qual os responsáveis seguem, pelo celular, notas, frequência, conteúdos das aulas e cardápio da merenda. A ferramenta amplia a transparência e facilita o monitoramento da vida escolar sem que as famílias dependam exclusivamente de reuniões presenciais. “Para a educação dar certo, o aluno precisa estar engajado. A família precisa estar engajada”, diz Paulo.
Em Angra, a inovação está vinculada a uma política gestão orientada por dados e focada em resultados. Um dos instrumentos dessa estratégia é o AvaliAR, que realiza avaliações diagnósticas bimestrais em parceria com o CAEd/UFJF (Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora). O município também criou o Idear (Índice de Desenvolvimento da Educação de Angra dos Reis) para acompanhar indicadores educacionais.
A ideia é não esperar o fim do ano letivo ou a divulgação de avaliações externas para descobrir que uma turma ou um grupo de estudantes enfrenta dificuldades. Com os resultados das avaliações municipais, as escolas podem identificar habilidades que precisam ser retomadas, analisar o desempenho por turma e componente curricular e planejar intervenções pedagógicas ao longo do percurso escolar.
Angra vem registrando avanços no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). Nos anos iniciais, passou de 5,1, em 2019, para 6,1, em 2025; nos anos finais, subiu de 3,8 para 4,7 no mesmo intervalo. Os resultados de 2025 são os melhores do município desde a criação do índice. A taxa de abandono caiu para 0,8%, a menor da história da rede.
Quatro escolas do município figuram entre as mais bem avaliadas do estado do Rio de Janeiro, entre elas a Escola Municipal Professor Ururahy, com 7,8 nos anos iniciais, e o CETI (Centro de Educação de Tempo Integral) Escola Municipal Remo Baral Filho, com 5,8 nos anos finais.
Embora os equipamentos não sejam tudo, eles também fazem parte dos investimentos em inovação. A rede municipal incorporou a computação e a robótica à matriz curricular, da pré-escola ao 9º ano, e ampliou a conectividade nas unidades. Professores, pedagogos e gestores recebem notebooks com acesso à internet, enquanto os estudantes contam com tablets conectados e as salas de aula dispõem de TVs inteligentes.
A proposta é utilizar os recursos digitais como instrumentos de apoio ao ensino, aproximando os conteúdos curriculares de experiências práticas. Com a robótica e a abordagem STEAM, que integra ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática, os estudantes trabalham com motores, sensores, montagem e resolução de problemas, em atividades voltadas ao desenvolvimento do raciocínio lógico e da criatividade.
Tecnologia na Educação de Jovens e Adultos (EJA)
Na FUMEC de Campinas, os resultados da rede municipal ajudam a contextualizar o investimento em aprendizagem. Há um público, porém, que não aparece em nenhum desses indicadores: o Ideb não mede a EJA (Educação de Jovens e Adultos). E é justamente aí que se concentra o trabalho da instituição, na qual as ações combinam inclusão digital, formação docente e monitoramento da permanência de jovens, adultos e idosos que retomam os estudos.
Criada em 1987, a FUMEC atende atualmente cerca de 1,8 mil estudantes, distribuídos em nove unidades, além de classes descentralizadas em entidades parceiras. Segundo José Batista de Carvalho, que está à frente da gestão da EJA na rede desde 2021, ampliar o acesso à tecnologia exige investimento não apenas em infraestrutura, mas também em formação docente e suporte técnico permanente.
Foi durante a pandemia de covid-19 que se percebeu a urgência de ampliar o uso das tecnologias também nas aulas da EJA. “Antes, o acesso das salas à internet e computadores era limitado, especialmente nas regiões mais periféricas”, lembra o educador. Em meio à crise sanitária, a necessidade de manter o vínculo com os estudantes levou a rede a investir em conectividade e na ampliação da oferta de recursos digitais. “Foi uma revolução do acesso e do uso”, resume.
A chegada de novos equipamentos exigiu adaptação dos professores e formação para o uso pedagógico das ferramentas. “O primeiro passo para dar certo é acolher o professor, dar formação. Se o professor embarcar, se engajar, ele conquista o aluno, mesmo os mais velhos”, explica o gestor.
Na EJA, a inovação tecnológica precisa considerar as experiências e os ritmos de aprendizagem de quem passou anos longe da escola ou teve pouco contato com ferramentas digitais. Por isso, a FUMEC combina equipamentos e conectividade com atividades de alfabetização, jogos educativos, aplicativos de leitura e escrita, vídeos e ambientes virtuais. Os estudantes têm acesso a dispositivos em regime de comodato, ou seja, por empréstimo gratuito, e a rede oferece suporte para seu uso.
A iniciativa também se relaciona à preparação para o mundo do trabalho. Para estudantes que tiveram pouco contato com computadores e plataformas digitais, aprender a utilizar essas ferramentas pode ampliar as possibilidades de participação social e de aproximação com as exigências dos empregadores.
Assim como em Angra dos Reis, a tecnologia auxilia o trabalho diário da gestão na FUMEC. A equipe analisa indicadores de matrícula, frequência e permanência, além de monitorar o desenvolvimento das atividades pedagógicas. “Esse acompanhamento permite identificar turmas com redução na presença dos estudantes e solicitar justificativas aos professores. A partir dessas informações, a gestão pode investigar os motivos das ausências e discutir possíveis intervenções”, exemplifica Carvalho.
Na EJA, a aprendizagem precisa ser analisada à luz das condições de quem retorna à escola: o acesso às ferramentas digitais, a frequência e o suporte necessário para permanecer estudando.
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