Quando Bob Wolfenson fez um retrato em preto e branco de Fernanda Montenegro para a Elle Brasil, em 2024, foi a atriz que o alertou para um fenômeno das redes: “Mas foto em preto e branco? As pessoas vão achar que eu morri!”. Ao publicar a imagem nas redes sociais, Montenegro avisou: “95 anos. Ainda estou viva. Acho!”.
A preocupação da artista tem a ver com o fato de que, nos últimos anos, fotografias P&B publicadas nas redes viraram motivo de susto e reprovação. “Levei muitas críticas porque publiquei a ministra Cármen Lúcia em P&B”, lembra Wolfenson, conhecido pelos retratos monocromáticos. A escolha custou manifestações como “Só eu achei que ela tinha morrido?”, “Em P&B é pra matar um do coração” e “Que susto a foto em preto e branco, achei que tinha ido”.
Também foram surpreendidos os leitores da escritora Maria Valéria Rezende, de 83 anos, após a Quatro Cinco Um publicar no Instagram um retrato dela na coluna Folha de Rosto, do fotógrafo Renato Parada. “Gente, não me assusta assim”, escreveu um seguidor. Outros reivindicaram um registro colorido: “Que susto! Cadê as fotos coloridas da querida?”. E houve até quem acusasse a publicação de oportunismo, comentando que foto em preto e branco virou “estratégia de engajamento”.
Tradição da imprensa Independentemente do gosto dos leitores, antes do surgimento da internet, jornais como o New York Times e a Folha de S.Paulo já elegiam a fotografia em preto e branco para retratar pessoas que haviam morrido, ainda que essa não seja uma regra inquebrável. Recentemente, a morte da jornalista e ativista Gloria Steinem (1934-2026), por exemplo, foi anunciada com uma foto colorida no mesmo New York Times. Na Folha de S.Paulo, segundo o editor de fotografia Otavio Valle, o preto e branco é usado nos obituários da seção “Mortes” da edição impressa. Na versão on-line, coloridas e P&B podem se revezar.
Talvez por causa dessa memória do jornalismo impresso, as fotos nas duas cores publicadas nas redes acabam sendo associadas à morte de alguém. Valle, que também é professor de fotojornalismo na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), recorre à semiótica e ao conceito de primeiridade, aquela impressão imediata que temos ao bater o olho, para explicar a associação com a morte: “Em nossa cultura, a cor do luto é o preto, sendo constantemente usado em memoriais e homenagens”.
Esse debate, que não é exatamente novo, volta com frequência às redes sociais brasileiras e em outras partes do mundo — de Instagram e TikTok a fóruns do Reddit, onde uma discussão criada em 2026 perguntava: “Por que algumas pessoas acham que uma foto em preto e branco de alguém sugere que a pessoa está morta?”.
A maneira como interpretamos uma foto tem mais a ver com a nossa memória, cultura e repertório do que com o que está enquadrado na imagem. “Nossos conhecimentos e crenças influem no modo como vemos as coisas”, explicou John Berger em Modos de ver, clássico de 1972.
Mas o susto tem limite: não é toda fotografia monocromática que desperta atenção. “Eu posto muita foto antiga em preto e branco e ninguém fala nada. O que causa essa comoção é o retrato em preto e branco de pessoas vivas”, diz Wolfenson. Segundo o fotógrafo, quando posta fotos em P&B de personalidades que se destacaram no passado, estejam vivas ou mortas, é como se apresentasse um arquivo histórico. Já quando traz uma pessoa viva, atuante no presente, é como se a imagem ativasse uma memória do luto.
Mudança geracional Essas manifestações também podem ter uma explicação geracional, relacionada à popularização da fotografia colorida, no final dos anos 1950. Quem nasceu a partir da década de 60 viu a infância e parte da vida de seus familiares registradas a cores. Já a trajetória de antepassados remotos permaneceu em preto e branco. Essa quebra visual entre gerações criou uma espécie de regra: o preto e branco passou a ser sinônimo de passado, enquanto a cor se tornou a representação do presente.
Há ainda o fato de que a fotografia P&B é comumente associada àquilo que é épico ou trágico: “parecem mais dramáticas e mais trágicas do que as fotos coloridas”, escreve o pesquisador Mauricio Puls no artigo “Cor ou preto e branco? Razões de uma escolha”, publicado na revista Zum. Para Wolfenson, o uso do P&B adiciona justamente uma camada ficcional à fotografia, por não revelar todas as cores e texturas. “Ninguém vê em preto e branco, então você constitui uma outra narrativa, mais fictícia, por mais que seja ainda uma representação do real”, diz.
A busca por registrar a realidade com o máximo de fidelidade existe desde antes da invenção da fotografia. Após a chegada dessa nova tecnologia, inicialmente monocromática, desenvolve-se a fotopintura, como forma de retocar os retratos, até a adoção em massa dos filmes coloridos, impulsionada pelo lançamento do Kodachrome, em 1935. “A cor tem a ver com a ideia de informação mais completa, mais precisa. Até porque nós enxergamos em cor”, diz Wagner Souza e Silva, professor e pesquisador da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP).
Nos Estados Unidos, foi na década de 30 que os americanos começaram a ser expostos à fotografia colorida, primeiro em anúncios e campanhas publicitárias, afinal “é no exagero das cores que está o consumo em sua forma mais original”, explica Boris Kossoy, fotógrafo e pesquisador da ECA-USP. Posteriormente, as cores ocuparam revistas de estilo de vida e semanais como a Life, que lançou sua primeira capa colorida em 1941.
No Brasil, apesar do pioneirismo da revista O Cruzeiro (1928) em se tratando de imagens, foram a Manchete (1952), a Realidade (1966) e a Veja (1968) que padronizaram o uso da fotografia colorida para apresentar histórias da maneira mais real possível.
Em um tempo sem internet ou Instagram, as revistas tinham a tarefa de mostrar o mundo por meio das fotografias impressas. Com imagens coloridas, a imersão era mais completa. “Você vende mais ao mostrar a realidade de um produto e tem mais alcance com o fotojornalismo em cores. São as duas frentes dessa fotografia midiática que circulava bastante e que, hoje, nas redes, ganha ainda mais força”, diz Souza e Silva.
A fotografia colorida se disseminou e foi incorporada de tal maneira que definiu o mundo colorido e brilhante das redes sociais — isso pode explicar por que uma imagem em preto e branco nos remete imediatamente à morte. “Esse incômodo tem muito a ver com o confronto com a vitalidade que a cor traz para o cotidiano. O preto e branco surge como um ruído nesse fluxo”, acrescenta o professor.
Realidade óbvia Embora esteja presente hoje em diferentes meios, durante muito tempo a foto colorida não era bien-aceita pelos fotógrafos profissionais e críticos de arte, que a consideravam pouco inventiva ao retratar o mundo como ele é. “Era vista como uma fotografia de amador porque seria óbvia”, diz a crítica de fotografia e jornalista Simonetta Persichetti.
O fotógrafo americano Edward Weston (1886-1958), reconhecido por sua produção em preto e branco com viés claramente artístico, foi convidado pela Kodak, em 1946, para criar fotografias coloridas da paisagem californiana usando o então novo filme Kodachrome. “O preconceito que muitos fotógrafos têm contra a foto colorida vem de não pensarem a fotografia como forma. Você pode dizer coisas com as cores que não podem ser ditas em preto e branco”, afirmou Weston na época.
A rejeição ao colorido era tanta que a primeira exposição individual do americano William Eggleston no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), em 1976, resultou em muitas críticas da imprensa especializada. A lendária jornalista americana Janet Malcolm (1934–2021) escreveu na New Yorker, em 1977, que as imagens de Eggleston eram “inartísticas, antiquadas e fora de lugar em um museu de arte”, enquanto o crítico de arte Hilton Kramer (1928–2012) as chamou, no New York Times, de “perfeitamente banais, talvez” e “perfeitamente chatas, certamente”.
Hoje, o cenário se inverteu: a cor está em toda parte e em um volume e intensidade cada vez maiores (basta ver como são vívidas as fotos que o seu celular é capaz de produzir). Já os retratos P&B, apesar de seu legado, vêm sendo resumidos aos obituários. Walter Firmo, fotógrafo de 89 anos reconhecido pelos retratos coloridos, resume como vê o fenômeno: “O mundo modernizou seu olhar através da vida, da fantasia, dessa coisa que se chama cor. E a cor é a banda de música, a zoadeira, a vida em si. Isso move o mundo. Enquanto o preto e branco parece que se resigna a uma situação saudosa”.
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