A atuação de famílias conservadoras que buscam o retorno ao passado, a forte presença de militares e forças de segurança na política e o temor constante de interferência norte-americana nas eleições são indicativos de que o país não está apenas repetindo a história. Para a historiadora Heloisa Starling, autora do recém-lançado A máquina do golpe: 1964 — como foi desmontada a democracia no Brasil (Companhia das Letras), a conjuntura atual é marcada por fortes ecos do período ditatorial.
“Se pensarmos em todas as ameaças em 1964 e las que estamos sofrendo hoje, não é que o passado está se repetindo, é que os ecos desse passado, desse golpe, estão muito fortes na nossa conjuntura hoje”, diz Starling em entrevista a Paulo Werneck no podcast 451 MHz. “A minha ideia é que, se as pessoas entendem o que é um golpe de Estado, se eu consigo escrever isso numa narrativa que seja interessante, estou fornecendo repertório para que a gente possa entender o presente.”
As quatro etapas da derrocada democrática
No livro, a historiadora e professora da Universidade Federal de Minas Gerais narra em detalhes os dias decisivos entre o planejamento e consolidação do golpe militar. A ação é dividida em quatro etapas: a conspiração; a desestabilização das instituições de forma que permitisse uma intervenção; a deposição do presidente João Goulart e a tomada de poder; e, por fim, a etapa de manutenção do novo regime.
Expor a montagem e a execução do golpe serve para que o leitor atual compreenda que “a direita reacionária não caiu do céu como um raio”. Pelo contrário, ela está no cenário político pelo menos desde o movimento integralista.
Uma das descobertas da pesquisa, segundo a historiadora, foi romper com uma leitura antiga de uma vertente da historiografia de que o governo inaugural do general Castelo Branco (1964–1967) ainda era democrata e que a verdadeira ditadura foi implantada depois.
“Chamo a atenção para o primeiro Ato Institucional. Está muito claro na nossa imaginação, pela violência da repressão, o AI-5, mas a estrutura da ditadura, os fundamentos, a base da repressão estão no primeiro Ato Institucional”, diz.
De acordo com Starling, o período também abriga a origem da narrativa de que os generais não cometeram um golpe, mas sim uma “revolução”, conceito que ainda encontra eco entre alguns militares. “Quando eu transformo um golpe de Estado em revolução, dou à revolução o poder de criar um ato que altera a Constituição de 1946 e coloca as condições de poder na mão do Executivo.”
Articulação com os Estados Unidos
Entre os achados mais marcantes do estudo está a coordenação estreita entre os oficiais da Escola Superior de Guerra e os aliados norte-americanos, em contato direto com o Pentágono.
A Operação Brother Sam, estratégia de sustentação logística e militar dos Estados Unidos validada pelo presidente Lyndon B. Johnson para assegurar o triunfo do golpe, contemplava inclusive uma invasão militar americana no território nacional, aponta a autora.
“Não é à toa que temos um Bolsonaro hoje, por exemplo. Ele foi treinado, na sua formação militar, por instrutores que participaram da repressão. Então você tem uma continuidade que passa pelos quartéis, que é como se cria esse imaginário [de revolução]”, diz.
Outro mito derrubado pela pesquisa é a suposta fragilidade e curta duração da democracia brasileira. Segundo a especialista, a trajetória democrática do país tem raízes no final do século 18, em episódios pouco explorados como a Conjuração do Rio de Janeiro. Ela reforça ainda que o sistema político brasileiro só foi derrubado por meio da força de um golpe de Estado, jamais por vontade popular ou articulação de forças políticas.
Apesar disso, ela deixa um alerta: “Se alguém disser que a democracia está estabilizada é bom a gente ficar esperto porque ela está sempre em movimento. E o que imputa movimento à democracia é a luta pelos direitos. Como dizia Rosa Luxemburgo, liberdade não é dizer ‘sim’, mas poder dizer ‘não’”.
What do you feel about this post?
Like
Love
Happy
Haha
Sad
