Grupo Euro17 pede recuperação judicial com dívida de R$ 1,7 bilhão e mais de 5.000 credores

Grupo Euro17 pede recuperação judicial com dívida de R$ 1,7 bilhão

Mercados

O grupo Euro17, focado em concessão de crédito pessoal e comercialização de debêntures, protocolou um pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo acumulando débitos de R$ 1,7 bilhão e mais de 5.000 credores.

O processo compreende oito empresas e foi formalizado em 16 de outubro. A estrutura sob o controle do empresário Ik Cavalcanti Albuquerque abrange duas securitizadoras, além de companhias voltadas para gestão de negócios, imóveis, comunicação, marketing e produção de eventos. No Banco Central, a Euro17 figura como uma sociedade de crédito não bancária pertencente ao segmento S5, que engloba instituições de pequeno porte com exposição inferior a 0,1% do PIB (Produto Interno Bruto).

Descasamento de prazos e emissão de debêntures

Na petição apresentada, o conglomerado sustenta que as dificuldades são de natureza estritamente financeira, sem relação com falhas operacionais em seu modelo de negócio. A defesa aponta a ocorrência de um descasamento de prazos: a empresa concedia empréstimos a tomadores com prazos de quitação entre 12 e 18 meses, enquanto os investidores financiadores tinham a prerrogativa de requerer resgates imediatos e integrais.

O grosso dos recursos proveio da emissão de debêntures por meio da Euro Securitizadora e da Prime Euro Securitizadora, cujas ofertas deixaram de ser registradas na CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Investidores relatam que os repasses estão interrompidos desde junho. “A operação deles é de altíssimo risco, dependiam de captação de recursos para remunerar seus investidores”, diz o advogado Luiz Alfredo Bianconi, que representa parte dos debenturistas.

Investigações sobre o caso ocorrem desde março, incluindo apurações conduzidas pela Delegacia de Repressão à Corrupção e Crimes Financeiros de São Paulo. Questionada, a companhia declarou aguardar o deferimento da recuperação judicial protocolada. “Assim que houver decisão, faremos um comunicado oficial para o mercado.”

Impacto e fatores da crise financeira

A companhia detalha no processo que aproximadamente 4.000 pessoas físicas aplicaram R$ 1,28 bilhão nesses papéis, somando 9.393 contratos com taxas médias de remuneração de 1,62% a 1,66% ao mês, o equivalente a cerca de 21% ao ano. Em 73% das situações, tanto os juros quanto o principal seriam quitados integralmente na data de vencimento.

Para justificar o colapso, a defesa aponta a alta na inadimplência da carteira de crédito pessoal e um fator externo: a crise do Banco Master. Conforme o documento judicial, a liquidação do banco ligado a Daniel Vorcaro abalou a confiança dos investidores de varejo na renda fixa privada. Anteriormente, o índice de debenturistas que resgatavam valores no vencimento variava de 30% a 35%, mas atualmente esse patamar ultrapassa os 65%.

Paralelamente, a entrada de novos recursos sofreu forte retração. Em 2025, o grupo captou R$ 500 milhões em debêntures (média mensal de R$ 41,7 milhões), patamar que despencou para R$ 25,3 milhões mensais no primeiro semestre de 2026. Em junho, registrou apenas R$ 15,3 milhões, o pior desempenho mensal desde 2023. A defesa estima que R$ 1,07 bilhão em debêntures vencerá entre julho de 2026 e dezembro de 2027, exigindo desembolsos próximos a R$ 74 milhões por mês no segundo semestre.

Protestos judiciais e reestruturação

Diante do cenário, o grupo direcionou todo o capital captado para suprir os resgates dos investidores, paralisando a concessão de novos empréstimos. A estimativa é de uma saída líquida mensal de caixa entre R$ 30 milhões e R$ 40 milhões.

No pedido de recuperação, a empresa solicita a consolidação substancial das companhias como um devedor único, além de uma lista unificada de credores e um plano conjunto de pagamento. Também requereu a suspensão por 180 dias de execuções, bloqueios e penhoras, impedindo que bancos retenham recebíveis ou cortem serviços essenciais. Uma tentativa anterior de tutela cautelar de urgência havia sido negada pela juíza Isadora Botti Beraldo Moro, que destacou a obrigatoriedade da publicidade em casos que envolvem milhares de credores.

Enquanto isso, debenturistas tentam acessar os autos do processo e dezenas já movem ações cíveis com pedidos de arresto de recursos. Em seu site oficial, a Euro17 informou que executa uma reestruturação iniciada no dia 7, realizando contatos individualizados com investidores por meio de seu departamento de comunicação.

“O objetivo desta fase é compreender cada situação de forma individualizada, avaliar alternativas de composição e buscar tratativas compatíveis com a capacidade econômico-financeira momentânea da companhia”, aponta o comunicado veiculado na página da instituição, que reforça manter governança dedicada e compromisso com a transparência e a continuidade das atividades.

What do you feel about this post?

0%
like

Like

0%
love

Love

0%
happy

Happy

0%
haha

Haha

0%
sad

Sad

0%
angry

Angry

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *