Mesa cheia, um jeito de acolher para Tássia Magalhães e Danyel Steinle

Tássia Magalhães e Danyel Steinle revelam segredos da hospitalidade

Gastronomia

Natural de Guaratinguetá, Tássia Magalhães começou a carreira no Pomodori, então comandado por Jefferson Rueda. Depois de passar pela casa, arrumou as malas rumo à Europa ainda jovem, onde passou por cozinhas renomadas na Dinamarca, como o restaurante três estrelas Michelin Geranium e a confeitaria Summerbird.

De volta ao Brasil, retornou ao Pomodori e chegou ao cargo de chef, além de incluir novos pratos no menu da casa. Anos mais tarde, deixou o restaurante para focar em seus negócios ao lado do marido, o empresário Danyel Steinle. Entre eles está o Nelita, restaurante de cozinha italiana autoral com uma pitada de brasilidade, em Pinheiros. Com uma cozinha 100% feminina, a casa ocupa a 12ª posição no Latin America’s 50 Best Restaurants e estreou neste ano no The World’s 50 Best Restaurants, na 54ª posição.

Além de sócia e chef do Nelita, Tássia também está à frente do Mag Market, boulangerie de produção artesanal no Itaim Bibi. Há ainda o Riso.e.Ria e a Unno Masseria, operações exclusivas para eventos. Em 2026, foi eleita Chef do Ano no prêmio Melhores do Ano da Gastronomia, promovido pela Prazeres da Mesa.

No dia 13 de novembro, Tássia participa do Mesa Tendências ao lado de Danyel Steinle para falar sobre hospitalidade e a sensibilidade no cuidar.

A busca constante por aprendizado

Você sempre teve uma busca muito forte por conhecimento. De onde vem essa vontade de continuar aprendendo?

TM: Acredito que essa vontade vem da curiosidade e da consciência de que sempre existe algo novo para aprender. A gastronomia é um universo muito amplo, que está em constante transformação, e nunca enxerguei o conhecimento como algo que se esgota. Desde o início da minha trajetória, tive a oportunidade de aprender com profissionais diferentes, tanto no Brasil quanto fora, e cada experiência ampliou meu olhar sobre a cozinha. Continuo aprendendo porque acredito que esse movimento é essencial para evoluir, questionar o que já fazemos e encontrar novas formas de expressar nossa identidade por meio da comida.

Você se tornou uma referência para muitas cozinheiras. Em que momento percebeu que sua história também poderia abrir caminhos para outras mulheres?

TM: Acho que essa percepção veio com o tempo, à medida que fui construindo minha trajetória e assumindo a responsabilidade de liderar equipes. Quando comecei, meu foco estava muito voltado para aprender, trabalhar e conquistar meu espaço na gastronomia. Aos poucos, entendi que as escolhas que fazemos e os ambientes que construímos também podem transformar a experiência de outras pessoas. Ter uma equipe formada por mulheres no Nelita é uma maneira de colocar isso em prática. Mais do que ocupar um espaço, quero contribuir para que outras cozinheiras tenham oportunidades, desenvolvam seu talento e percebam que podem construir suas próprias trajetórias na gastronomia.

O Nelita tem uma cozinha formada por mulheres. Como construir um ambiente em que essas profissionais se sintam acolhidas, respeitadas e estimuladas a crescer?

TM: Acredito que tudo começa com respeito, escuta e oportunidades reais de desenvolvimento. É importante criar um ambiente em que as pessoas possam aprender, errar, trocar experiências e assumir responsabilidades, sempre com profissionalismo e comprometimento. A cozinha exige muita dedicação e disciplina, mas isso não precisa acontecer em um ambiente de medo ou desvalorização. No Nelita, buscamos construir uma equipe em que cada mulher tenha espaço para desenvolver suas habilidades, compartilhar conhecimentos e crescer profissionalmente. Para mim, liderar também significa reconhecer talentos, incentivar a autonomia e entender que uma equipe se fortalece quando todas têm a oportunidade de evoluir.

Hospitalidade também passa por dar espaço para que cada profissional desenvolva sua própria identidade?

TM: Com certeza. Para mim, hospitalidade vai muito além do que acontece quando recebemos alguém à mesa. Ela começa dentro da própria equipe, na forma como nos relacionamos. Dar espaço para que cada profissional desenvolva sua identidade é reconhecer que cada uma traz experiências, referências e sensibilidades diferentes, que podem enriquecer muito o trabalho coletivo. Isso não significa abrir mão da técnica, da disciplina ou da identidade do restaurante, mas permitir que essas individualidades contribuam para algo maior. Quando as pessoas se sentem respeitadas e têm liberdade para desenvolver seu potencial, isso aparece naturalmente no cuidado, na creatividade e na maneira como recebemos nossos clientes.

O universo dos vinhos e a experiência do cliente

Enquanto os comes do Nelita ficam por conta de Tássia, os bebes são de responsabilidade de Danyel Steinle. Hoje, ele é restaurateur, sommelier e sócio do Nelita, Lita e Mag Market. Com um currículo extenso no universo das taças, que inclui a certificação WSET 3 (Wine & Spirit Education Trust) e formação pela ABS-SP (Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo), é responsável pela curadoria dos rótulos das casas.

No ano passado, Danyel foi a Londres como único representante brasileiro a participar da WBSS (World’s Best Sommelier Selection), evento que reúne sommeliers de restaurantes premiados de todo o mundo. Já em 2026, seu trabalho foi reconhecido com o Lita levando o prêmio de Melhor Bar de Vinho no Melhores da Taça, da Prazeres da Mesa.

No seu antigo cargo em um banco, você trabalhava diretamente com a experiência do cliente. O que dessa vivência você levou para o seu trabalho com vinhos no Nelita?

DS: O trabalho no banco me abriu os olhos para a importância de encantar as pessoas. Um dos principais valores da empresa é colocar o cliente em primeiro lugar. As soluções devem levar em conta a experiência do cliente e a forma como ele interage com o negócio.

Desenvolvemos uma área voltada exclusivamente a encantar os clientes, e acredito que esse foi o melhor investimento que a empresa fez no início de suas atividades. Hoje, posso dizer que levo esse aprendizado para a nossa maneira de receber as pessoas e falar sobre vinhos.

O primeiro ponto, e o mais importante, é colocar o cliente em primeiro lugar. Não acho interessante, por exemplo, ficar corrigindo o cliente ou debatendo sobre o que eu gosto ou deixo de gostar. A primeira etapa do meu atendimento é uma investigação para entender como posso agradá-lo da melhor maneira. Não posso deixar que meu gosto pessoal seja um fator decisivo nas minhas sugestões.

Procuro entender o cliente e a ocasião e, por meio do vinho, surpreendê-lo para que tenha a melhor experiência conosco. Acho importante enfatizar que surpreender, muitas vezes, significa fazer o mais simples e servir exatamente o que o cliente pediu, com a temperatura adequada, a taça correta e o manuseio apropriado do vinho.

Como a hospitalidade pode ajudar a tornar o vinho mais acessível para quem ainda se sente intimidado por esse universo?

DS: Hospitalidade é reconhecer o outro, e esse é, para mim, o princípio que permeia nossa conduta em relação ao vinho. No Brasil, o vinho sempre foi visto como algo inacessível e muito elitista. Sempre me senti, de certa forma, desconfortável com essa percepção. O vinho não deveria ocupar esse lugar, pois, historicamente, sempre teve um papel social muito importante, associado à convivência e à partilha, e não à elitização.

A hospitalidade nos faz reconhecer nosso compromisso de levar o vinho à mesa com o propósito de reunir pessoas e permitir que desfrutem da bebida de maneira leve e prazerosa.

Para mim, um dos maiores gestos de hospitalidade no atendimento de um sommelier é indicar um vinho mais barato do que aquele sobre o qual o cliente pediu informações, quando se entende que outra opção atenderá melhor à ocasião e às suas necessidades. Isso, sim, é exercer a hospitalidade por meio do vinho.

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