Economistas, CEOs e líderes setoriais cobram ajuste fiscal e previsibilidade no 4º mandato de Lula

Líderes e economistas cobram ajuste fiscal no quarto mandato de Lula

Mercados

Representantes de diversos setores econômicos, empresários e analistas financeiros manifestaram a expectativa de que o quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva traga um rigoroso ajuste fiscal, além de maior previsibilidade nas decisões, regras estáveis e segurança jurídica. Para esses agentes do mercado, tais pilares serão determinantes para ditar o ritmo da produção e dos investimentos no país.

Aos 80 anos, Lula (PT) venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da disputa presidencial realizado neste domingo (25). Com o resultado, a posse está marcada para janeiro de 2027, estendendo seu período no poder até o encerramento de 2030.

“Feita a virada política, é hora de governar e virar a economia”, afirmou o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga. Durante a campanha, ele manifestou preocupação com a deterioração das contas públicas.

Promessas de campanha e o impacto no orçamento

No período posterior ao primeiro turno, o presidente eleito apresentou diversas promessas, como o perdão de dívidas para microempreendedores individuais, a ampliação do programa Pé-de-Meia para universitários e a tarifa zero no transporte público durante os fins de semana. Um levantamento apontou que tais propostas podem gerar um impacto de pelo menos R$ 53,6 bilhões no Orçamento de 2027, gerando apreensão entre especialistas em finanças públicas e agentes do mercado.

“Lula ganha do brasileiro uma nova oportunidade de fazer o que já deveria ter feito: governar para todos os brasileiros reduzindo a polarização, ser responsável com as contas públicas e fortalecer as instituições do Estado de Direito”, afirmou João Amoêdo, empresário e um dos fundadores do Partido Novo. “Se não fizer nada disso, teremos novamente um governo medíocre, que irá fortalecer uma candidatura bolsonarista para 2030.” Ele declarou neste mês voto em Lula.

O economista Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e sócio da Jubarte Capital, também prevê dificuldades, caso não haja ajuste nas contas.

“Do ponto de vista econômico, Lula está herdando do próprio governo dele, uma situação fiscal absolutamente insustentável, não só no longo prazo como no curto prazo. Então ele terá de fazer um ajuste importante e, caso não faça, vamos colher um ano, muito provavelmente, com recessão já bastante razoável. Ele vai ter que mostrar esse ajuste para que minimamente tenha alguma condição de governar”, diz Figueiredo.

Felipe Salto, economista-chefe e sócio da Warren Investimentos e ex-secretário da Fazenda de São Paulo, também destacou a urgência do reequilíbrio fiscal, embora tenha ressaltado a força da democracia no processo. “Os desafios econômicos são grandes, a começar pelo reequilíbrio das contas públicas, mas venceu a democracia e, sob ela, há efetiva possibilidade de construção.”

Desafios e prioridades estruturais

Especialistas reforçam a necessidade de que o futuro titular da Fazenda seja anunciado rapidamente para guiar as expectativas sobre os gastos públicos.

“Espero que [Lula] reconheça que adiar o ajuste também compromete o financiamento das prioridades sociais do próprio governo”, afirma Daniel Wainstein, co-CEO da Seneca Evercore, destacando que os gastos previstos com o INSS no orçamento de 2026 alcançam cerca de R$ 1,1 trilhão.

Flávio Augusto da Silva, fundador da rede Wise Up e colunista, também apontou riscos associados às diretrizes apresentadas na campanha. “É um cenário que pode prolongar a permanência dos juros acima de dois dígitos, impondo desafios adicionais às empresas, especialmente àquelas que ainda administram dívidas contraídas durante a pandemia”, diz ele.

Demandas de diferentes setores produtivos

Empresários de várias áreas ressaltam que o controle de despesas deve vir acompanhado de melhorias estruturais. “O próximo governo precisa priorizar a redução do custo Brasil e a criação de condições para ampliar os investimentos privados. Isso exige segurança jurídica, estabilidade regulatória e que a reforma tributária incentive a modernização da infraestrutura”, analisa Murilo Barbosa, presidente da ATP.

Augusto Salomon, do Sindicom, reforça o pedido por desburocratização e investimentos. “Esperamos que essas pautas estejam entre as prioridades desde os primeiros 100 dias de gestão”, afirma. Já Paulo Solmucci, da Abrasel, chama atenção para os reflexos econômicos da regulamentação do fim da escala 6×1.

Renata Herani, CEO do Technobank, e Ana Celina Bueno, da Fenapro, enfatizam o papel do crédito e da infraestrutura na retomada. “Juros baixos, crédito, infraestrutura é o que o setor produtivo espera. Tendo sinais de retomada o mercado todo reage e isso sempre é perceptível de forma rápida no nosso segmento”, avalia Ana Celina.

Encerrando as expectativas do setor corporativo, Breno Masi, sócio do iFood, cobra um ambiente mais favorável ao empreendedorismo. “Não podemos continuar tratando quem empreende como se fosse parte do problema”, afirma.

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