Objetivo do Lula 4 é ser Lula 1, mas precisa desarmar bomba fiscal, diz Silvia Matos

Desafios do governo Lula 4: economista aponta a necessidade de ajuste

Economia

O resultado das urnas garantiu a continuidade de Luiz Inácio Lula da Silva na presidência, mas deixou evidente que a política econômica está em xeque. A polarização e os votos direcionados ao oponente mostraram que parte expressiva da população desejava cortes de gastos, enquanto outra parcela priorizou a manutenção de direitos e benefícios sociais. O grande dilema do novo mandato será equilibrar o orçamento sem abandonar o apoio ao eleitorado.

Na visão da economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro IBRE na FGV, o presidente precisará adotar uma postura altamente pragmática e selecionar nomes ministeriais capazes de restaurar a confiança dos mercados.

“O objetivo do Lula 4 é ser Lula 1. Não precisa inventar nada”, afirma a especialista, fazendo referência ao primeiro mandato (2003-2006), período marcado pelo compromisso com a responsabilidade fiscal logo na transição. “Ficou claro que a vitória do PT não é uma vitória endossando a política econômica do PT. Metade da população faz uma avaliação muito ruim da economia”, completa Matos.

Desaceleração, inflação e rigidez orçamentária

O país enfrenta um momento de atividade econômica em desaceleração, inflação persistente e taxas de juros elevadas. Conforme a avaliação da FGV, o governo herdará um cenário fiscal severo, intensificado pelos gastos realizados durante a campanha eleitoral. O orçamento brasileiro atual é altamente engessado pelas despesas obrigatórias, somando-se a uma dívida pública expressiva e a um Legislativo inclinado ao populismo fiscal, prática que ganhou caráter suprapartidário.

“O Congresso, apesar de ser de direita, tem se mostrado com uma capacidade enorme de fazer populismo fiscal, que está sendo ecumênico. É de esquerda e de direita. E isso está levando a uma falta de espaço para orçamento público”, pontua a economista.

O peso do cenário internacional e a bomba fiscal

As dificuldades internas coincidem com um ambiente externo adverso, marcado por juros reais elevados e conflitos geopolíticos que encarecem commodities. Essa conjuntura pressiona os índices de preços no país e dificulta a atuação do Banco Central na redução da taxa Selic. Diante da alta do câmbio e dos juros, a estabilização das contas públicas passa a ser a única saída.

Para afastar riscos de recessão e instabilidade, Matos reforça a urgência de uma guinada rumo à ortodoxia fiscal para desarmar o que define como uma “bomba fiscal”.

“A gente precisa ter uma ponte para o futuro. E hoje o que a gente tem? A gente não tem essa ponte para o futuro, a gente só tem uma bomba fiscal que está estourando”, avalia.

Qualidade dos gastos e foco em reformas

O ajuste das contas públicas, segundo a especialista, deve priorizar a revisão minuciosa da qualidade dos dispêndios do Estado, combatendo isenções para setores privilegiados.

“O Brasil resolveu ter um estado de bem-estar para todo mundo antes de ter dinheiro”, argumenta, criticando subsídios direcionados à elite e gastos fora do teto fiscal. Ela enfatiza que o crescimento sustentável depende de investimentos reais em áreas como infraestrutura, saneamento e educação.

“O fiscal não foi feito para estimular a economia quando você tem juro alto. Se você não tem dinheiro, você não vai fazer política fiscal, política social, porque vai gerar mais demanda. E, com menos crescimento, arrecada menos”, diz.

Nomes de peso e articulação política

A credibilidade da nova administração dependerá do perfil da equipe econômica, que precisará de autonomia e características reformistas para conter pressões políticas, a exemplo de figuras históricas como Antonio Palocci e Henrique Meirelles.

“Você não faz revolução, ministro não pode ser revolucionário. Tem que ser reformista, saber como comprar as brigas, que brigas e ser político e humilde também com as pessoas. Porque, se você for arrogante, você não vai conseguir”, orienta.

Para tranquilizar os investidores, a economista sugere a aproximação com lideranças moderadas, destacando a atuação do vice-presidente Geraldo Alckmin e governadores como Camilo Santana e Rafael Fonteles, além de outros nomes com histórico de boa gestão fiscal.

A OCDE como salvaguarda institucional

Por fim, Silvia Matos defende que a governança estrutural do orçamento poderia ser blindada por meio da entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A adesão exigiria o cumprimento de regras rígidas, revisões contínuas de gastos e avaliações de produtividade. Além de proteger os recursos públicos de interesses fisiológicos, a medida serviria como um importante sinal de segurança jurídica para atrair investimentos estrangeiros de longo prazo.

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