Maurício de Sousa completou 91 anos nesta terça-feira, 27 de outubro, e ganhou uma homenagem emocionante do filho Marcelo Sousa nas redes sociais. O criador da Turma da Mônica aparece em um vídeo acenando para crianças que brincavam perto do escritório dele. Uma mãe que acompanhava a filha se emocionou ao reconhecer o cartunista e enxugou as lágrimas. Assista abaixo.
Sentado em uma cadeira amarela, em um ponto elevado atrás de um vidro, Maurício observa a alegria das crianças, acena e faz sinal de positivo. Os pequenos retribuem o carinho fazendo corações com as mãos. A cena mostra o encontro entre o criador e uma nova geração de fãs dos personagens que acompanham a infância dos brasileiros há décadas.
Na legenda do vídeo, o filho brincou com a disposição do pai: “Meu coroa indo trampar aos 90 anos de idade”. A referência indica que as imagens foram feitas antes do aniversário de 91 anos. Maurício continua acompanhando os projetos da empresa que fundou, embora hoje mantenha uma rotina mais reservada.
Homenagem emocionante do filho Na mensagem publicada pelo aniversário, Marcelo revelou um lado de Maurício que vai além do talento de criar personagens: o pai que gosta de conversar, filosofar e refletir sobre a vida. “Eu tenho um pai filósofo! Pai de longas conversas. De indagações, reflexões, prosas, contos e causos”, escreveu.
O filho também recordou a infância no interior de São Paulo, as brincadeiras nas ruas de pedra e barro, os banhos de lago e as mangas colhidas diretamente das árvores. Lembrou ainda dos conselhos amorosos que recebeu ao longo dos anos, especialmente sobre as diferentes fases da vida e a importância de encontrar alternativas diante das dificuldades.
“Sobre encontrar as janelas abertas ao se deparar com portas emperradas…” Marcelo encerrou a homenagem com uma declaração de amor e gratidão ao pai: “Obrigado, meu coroa! E parabéns pelos seus 91 anos!”
Quem é Maurício de Sousa Maurício de Sousa nasceu em 27 de outubro de 1935, em Santa Isabel, no interior de São Paulo, cresceu em Mogi das Cruzes e se tornou um dos cartunistas mais famosos do Brasil. Filho de Antônio Maurício de Sousa, barbeiro e poeta, e Petronilha Araújo de Sousa, poetisa, teve contato com desenhos, livros e histórias desde pequeno.
Aos 19 anos, mudou-se para São Paulo com o sonho de trabalhar como desenhista. Mas a primeira oportunidade profissional veio como repórter policial no jornal Folha da Manhã. Em 1959, publicou as primeiras tirinhas com Bidu, o cachorrinho azul, e Franjinha. Era o início de uma carreira que transformaria a história dos quadrinhos brasileiros.
Os personagens mais famosos foram surgindo aos poucos. Mônica, inspirada na filha do cartunista, apareceu em 1963. Magali também foi inspirada em uma das filhas. Já Cebolinha e Cascão nasceram de lembranças da infância do autor. A revista própria da Mônica foi lançada em 1970 e se transformou em um dos maiores sucessos editoriais do país.
Maurício foi perseguido e entrou na “lista negra” O que muita gente não sabe é que o criador da Turma da Mônica também enfrentou perseguição política e censura no Brasil. No início dos anos 1960, Maurício presidiu a Associação dos Desenhistas de São Paulo (ADESP) e liderou uma campanha para garantir mais espaço aos quadrinistas brasileiros nos jornais e revistas.
Na época, a maior parte dos quadrinhos publicados no Brasil vinha dos Estados Unidos. Maurício defendia cotas para os artistas nacionais, mas o movimento acabou sendo associado ao comunismo. Ele foi acusado de ser comunista, perdeu o emprego na Folha e entrou em uma “lista negra” que dificultou a publicação dos desenhos dele nos jornais paulistas.
Em uma entrevista concedida em 2015, o cartunista relembrou o episódio: “Eu perdi o emprego… a Folha me mandou embora… os jornais aí, do outro lado, me chamavam de comunista.” Maurício também contou que passou mais de um ano enfrentando dificuldades para vender as tirinhas. Naquele período, já era pai de duas meninas e chegou a acumular dívidas.
A perseguição começou antes do golpe militar de 1964, mas a chegada da ditadura agravou o ambiente de repressão aos artistas e às associações culturais.
Até o bumbum do Cebolinha foi censurado Nem as histórias infantis da Turma da Mônica escaparam dos censores durante a ditadura militar, que governou o Brasil de 1964 a 1985. Em 2018, Maurício revelou nas redes sociais que precisou mudar o título de uma história chamada “O Sequestro do Cascão” porque um embaixador estrangeiro havia sido sequestrado no Brasil. O censor instalado na redação da Editora Abril exigiu a alteração.
Em outra ocasião, a editora recebeu uma advertência porque o personagem Cebolinha apareceu mostrando o bumbum durante um banho. Maurício também contou que precisava viajar pessoalmente a Brasília para apresentar roteiros e desenhos dos filmes da Turma da Mônica à censura federal. Sem a autorização dos censores, os filmes não poderiam ser lançados.
Ao recordar aquele período, o desenhista resumiu o sentimento em uma frase: “Foi um tempo sem saudade.”
Críticas escondidas nas histórias infantis Apesar da repressão, Maurício encontrou maneiras de abordar o autoritarismo por meio de fábulas e metáforas. Em uma entrevista à revista Veja, em 2023, contou que criou uma história do Astronauta sobre um planeta onde era proibido cantar.
A inspiração surgiu na época em que músicos brasileiros como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil enfrentavam a repressão da ditadura. Em outra história, da Turma da Mata, o Rei Leonino queria saber antecipadamente o que seria publicado nas tirinhas e, para isso, decidiu prender o próprio autor.
Era uma sátira ao controle da imprensa e à falta de liberdade de expressão. Maurício também revelou que, depois do fim da ditadura, perguntou a um antigo censor por que nunca havia sido preso. A resposta foi que as histórias dele eram destinadas às crianças e, por isso, não eram consideradas influentes. O cartunista respondeu à lembrança com uma ironia: “Mal sabiam eles.”
O legado da Turma da Mônica Ao longo de mais de seis décadas, Maurício criou centenas de personagens e ajudou milhões de brasileiros a aprender a ler. As histórias da Turma da Mônica chegaram a outros países e ganharam adaptações para o cinema, televisão, teatro e parques temáticos.
O desenhista também recebeu prêmios nacionais e internacionais e ocupa uma cadeira na Academia Paulista de Letras. Em 2025, a trajetória dele chegou às telas com “Mauricio de Sousa – O Filme”, cinebiografia protagonizada pelo filho Mauro Sousa.
Este ano o criador da Turma da Mônica foi eternizado em uma escultura de bronze inaugurada na Avenida Paulista, em São Paulo, bem em frente ao Museu de Arte de São Paulo (MASP), em comemoração aos 90 anos do cartunista, desenhista e escritor que ajudou a construir parte da cultura brasileira.
Vive no interior de SP Hoje, aos 91 anos, Maurício divide o tempo entre São Paulo e uma propriedade em Caçapava, no interior paulista.
Os filhos também participam da administração e dos projetos da MSP Estúdios.
Mesmo com a redução dos compromissos públicos, o cartunista continua acompanhando as decisões e novidades da empresa, enquanto personagens como Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e Chico Bento seguem conquistando novos leitores.
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