Um método inovador de reconstrução facial forense baseado em modelos tridimensionais foi desenvolvido por Bruno Robles Paschoal, desenhista técnico-pericial da Polícia Técnico-Científica de São Paulo. A tecnologia possibilita recriar digitalmente uma aproximação do rosto de pessoas falecidas a partir da análise da estrutura óssea do crânio.
Segundo informações da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), o procedimento começa no Instituto Médico-Legal (IML) com a preparação do crânio e a remoção dos tecidos remanescentes. Na sequência, o material é submetido à fotogrametria, técnica que extrai medidas e dimensões precisas por meio de fotografias tiradas de múltiplos ângulos, permitindo a geração de um modelo 3D detalhado da ossada.
O perito aprofundou seus conhecimentos em medidas anatômicas e técnicas de modelagem tridimensional, utilizando sua familiaridade prévia com animações no software Blender para estruturar a nova metodologia.
Aplicação prática em investigação criminal
Anos mais tarde, o aprendizado foi aplicado em uma investigação conduzida pela Polícia Civil em São José do Rio Preto, interior paulista. As autoridades apuravam um caso no qual partes do corpo de uma mulher haviam sido descobertas em diferentes pontos da cidade. O crânio estava em avançado estado de decomposição, o que inviabilizou o reconhecimento visual, e não havia mãos disponíveis para a coleta de impressões digitais naquele momento.
Diante do cenário, Paschoal solicitou a preparação do crânio ao IML e iniciou o processo de reconstrução digital. Munido do modelo tridimensional da estrutura óssea, ele realizou a recomposição da face utilizando o programa Blender.
A imagem gerada foi repassada às equipes de investigação, que identificaram semelhanças com a fotografia de uma mulher dada como desaparecida por seus familiares. A pista auxiliou no direcionamento do caso, e exames de identificação posteriores confirmaram que se tratava da mesma pessoa.
Limitações e importância da ferramenta
Apesar do sucesso, o método ainda apresenta limitações técnicas. Elementos superficiais da fisionomia — como rugas, cicatrizes, manchas e modificações decorrentes de procedimentos estéticos — não são reproduzidos na reconstrução facial. Por essa razão, a ferramenta funciona como um recurso auxiliar de suporte ao reconhecimento e à composição de material investigativo.
A técnica demonstra grande utilidade em cenários onde faltam elementos para determinar uma identidade. A representação aproximada do rosto viabiliza novas confrontações com registros fotográficos e cadastros de pessoas procuradas por parentes.
“Temos servidores absolutamente dedicados à ciência forense e também aos aspectos sociais que chegam ao nosso dia a dia. A identificação humana permite que familiares que sentem saudade e não têm respostas sobre um ente querido possam ter clareza do que aconteceu”, declarou Claudinei Salomão, superintendente da Polícia Técnico-Científica.
Planos de expansão e aprimoramento
De acordo com a SSP-SP, a expectativa é que a modelagem tridimensional continue sendo aplicada em novos casos e, após etapas adicionais de testes e validações, seja implementada em outras unidades da Polícia Técnico-Científica no estado de São Paulo.
Entre os pontos em fase de evolução está o refinamento das referências anatômicas usadas na reconstrução 3D. Atualmente, o trabalho se apoia em estudos científicos que determinam médias de espessura para os tecidos faciais. Contudo, a criação de parâmetros específicos voltados à população brasileira promete tornar as aproximações ainda mais compatíveis com a diversidade encontrada no país.
Embora o uso de técnicas de aproximação facial a partir de crânios seja estudado há décadas na antropologia forense, na arqueologia e na paleoantropologia, o grande diferencial na instituição paulista é a incorporação dessa metodologia na rotina de trabalho policial, unindo fotogrametria, referências anatômicas e modelagem 3D em benefício das investigações.
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