Lula defende Sul Global; Flávio quer proximidade com EUA e Israel

Lula e Flávio Bolsonaro divergem sobre rumos da diplomacia

Mundo

Os projetos de inserção internacional apresentados nas eleições presidenciais expõem visões de mundo antagônicas para a política externa brasileira. Enquanto a plataforma de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dedica quase seis páginas a uma estratégia centrada no fortalecimento do Sul Global e no multilateralismo, o programa de Flávio Bolsonaro (PL), detalhado em cerca de três páginas, prioriza o resgate de alianças tradicionais com potências ocidentais e parceiros estratégicos como Estados Unidos e Israel.

Alianças estratégicas e visões geopolíticas

O documento petista contextualiza o cenário internacional como marcado por disputas acentuadas e enfraquecimento das normas multilaterais. Para conter esse processo, Lula defende uma postura de não subordinação externa.

“Faremos firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica. Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas”, diz o documento.

O foco governista recai sobre o fortalecimento da atuação em fóruns como o G20 e a ampliação dos Brics — grupo que agrega potências como China, Rússia e Índia, além de novos membros como Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã —, fomentando alternativas comerciais ao dólar e laços históricos com o continente africano.

“Aprofundaremos a aproximação geopolítica com o Brics e com o Sul Global, bem como com o G20, espaços fundamentais para a afirmação dos interesses da maioria da humanidade”, diz o documento.

Em contraste, Flávio Bolsonaro sustenta que a soberania deve se manifestar de forma prática e acusa a condução atual do Itamaraty de ser pautada por preferências político-partidárias, contestando as posições adotadas em relação a países como Venezuela e Irã.

“Nos últimos anos, a política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia”, diz o texto, criticando a posição do governo Lula em relação ao Irã, à Venezuela e a Israel.

O candidato do PL busca uma guinada em direção a parceiros com os quais vê desgaste recente, incluindo a Argentina e os Estados Unidos.

“Não trataremos como adversários os nossos parceiros mais importantes e tradicionais. Nos últimos anos, as relações com países como Argentina, EUA e Israel foram levadas ao limite do rompimento. Vamos reverter esse quadro com profissionalismo e foco no interesse do Brasil”, diz o documento de Flávio Bolsonaro.

Apesar da proximidade com a ala conservadora norte-americana e do apoio a ações promovidas pela gestão de Donald Trump, Flávio afirma manter uma linha pragmática nas negociações comerciais.

“Negociaremos com todos os que interessam ao Brasil, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos, porque o que orienta a nossa diplomacia é o interesse do produtor e do trabalhador brasileiro, não a simpatia ou a antipatia por este ou aquele governo.”

O papel do Brasil na disputa por terras raras

Dono da segunda maior reserva mundial de minerais críticos — com cerca de 21 milhões de toneladas (23% do total global), atrás somente do território chinês —, o Brasil desponta como peça-chave no cenário de transição energética e inovação tecnológica. Os Estados Unidos detêm apenas 1,9 milhão de toneladas (em torno de 2%).

Para esse segmento, o projeto petista propõe a criação de uma estrutura interna voltada à verticalização industrial, evitando que o país atue somente como fornecedor de insumos primários.

“Promoveremos uma estratégia regional de mapeamento, beneficiamento e agregação de valor, para inserir o país de forma soberana nas cadeias globais de valor desses recursos”, diz o projeto de governo.

Já Flávio Bolsonaro articula uma cooperação estreita com o mercado internacional, vendo no subsolo nacional uma alternativa para reduzir o domínio de Pequim sobre o setor.

“Estabeleceremos parcerias internacionais com todos os 55 países que queiram a cooperação do Brasil, sem preconceitos ou ranços ideológicos.”

Durante participação em um encontro conservador nos Estados Unidos, o senador ressaltou essa estratégia.

“O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do Hemisfério será lutado porque o Brasil é a solução da América [os EUA] para quebrar a dependência da China de minerais críticos, especialmente dos elementos de terras raras”, disse.

Investimentos militares e defesa nacional

A modernização das Forças Armadas também divide espaço relevante nos dois programas, sendo tratada como um braço direto da capacidade de projeção externa.

Lula conecta a indústria bélica à preservação dos interesses nacionais diante de rupturas geopolíticas.

“Neste cenário, política externa e defesa nacional são dimensões complementares de uma mesma estratégia voltada à proteção dos interesses do Brasil. Não há projeção internacional soberana sem capacidade de defesa”, diz o plano.

O plano petista enumera realizações viabil

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