Estudo aponta possíveis causas da agressividade do câncer de intestino em jovens

Estudo revela causas da agressividade do câncer de intestino em jovens

Saúde

Uma pesquisa divulgada nesta quinta-feira (29) na revista científica Nature Medicine apontou distinções biológicas que ajudam a compreender os motivos pelos quais o câncer de intestino, ou câncer colorretal, costuma apresentar maior agressividade em indivíduos com menos de 50 anos.

Entre os achados estão a maior presença de células que podem contribuir para a resistência à quimioterapia e diferenças na atividade dos genes, que influenciam o funcionamento das células. Nos tumores de pacientes mais jovens, algumas dessas alterações podem favorecer a disseminação do câncer para outros órgãos.

O trabalho investigou 189 tumores de indivíduos com idades entre 29 e mais de 90 anos; 54 deles receberam o diagnóstico antes dos 50 anos, e 135, a partir dessa idade. Por meio de uma técnica denominada sequenciamento de RNA de núcleo único, os especialistas examinaram a atividade genética de mais de 850 mil células presentes nos tumores.

O exame revelou que as neoplasias de pacientes mais jovens continham uma proporção maior de células do estroma, tecido que fornece sustentação ao tumor e pode influenciar o seu desenvolvimento e a eficácia da terapia.

O coloproctologista André Silva, coordenador do serviço de coloproctologia do Hospital Santa Lúcia Norte, em Brasília, e integrante da SBCP (Sociedade Brasileira de Coloproctologia), esclarece que esse tecido pode dificultar a ação de medicamentos.

“O estroma atua como uma barreira física, como se fosse um escudo protetor, podendo dar uma característica de maior resistência ao tumor”, afirma.

De acordo com ele, a maior proporção dessas células poderia colaborar para uma menor resposta à quimioterapia. Essa hipótese, contudo, fundamenta-se em investigações anteriores com outros tumores sólidos, uma vez que o novo levantamento não avaliou de forma direta a efetividade dos tratamentos.

A pesquisa também notou que genes como o FN1, ligados a processos que podem facilitar a disseminação da doença, estavam mais ativos nos tumores de pessoas com menos de 50 anos.

Para Silva, os resultados indicam que o comportamento mais agressivo da patologia pode estar associado não apenas às propriedades das células cancerígenas, mas igualmente ao microambiente gerado ao redor delas.

O avanço da doença em jovens A maior agressividade do câncer colorretal nessa faixa etária já havia sido notada em investigações clínicas. Em setembro de 2025, um estudo brasileiro, coordenado por Silva, com 434 pacientes do Hospital Universitário de Brasília demonstrou que adultos entre 18 e 49 anos têm risco 93% maior de recidiva da enfermidade em comparação aos mais velhos.

Os pacientes jovens também exibiram maior proporção de tumores indiferenciados, definidos por células que perderam características do tecido de origem e costumam demonstrar comportamento mais agressivo.

O novo estudo pode auxiliar na compreensão dos mecanismos subjacentes a essas divergências. Os autores analisaram, por exemplo, se as particularidades dos tumores poderiam ser justificadas pelo diagnóstico tardio, visto que indivíduos com menos de 50 anos frequentemente não entram nas diretrizes habituais de rastreamento.

Para tanto, consideraram variáveis como o estágio da moléstia, o sexo dos pacientes e os tratamentos executados antes da intervenção cirúrgica. Ainda assim, as divergências biológicas entre os grupos persistiram, indicando que o comportamento do câncer nessa parcela populacional pode estar vinculado a traços intrínsecos dos tumores, e não somente ao diagnóstico tardio.

Silva pondera, porém, que o estudo divulgado nesta quinta-feira na Nature Medicine não avaliou desfechos como recidiva e sobrevida, tampouco a resposta aos tratamentos. Por essa razão, ainda não é viável assegurar que as alterações detectadas sejam responsáveis pela maior agressividade da enfermidade ou que pacientes jovens obrigatoriamente respondam pior à quimioterapia.

Para o especialista, os achados conseguem pavimentar o caminho para a criação de fármacos direcionados às células do estroma e aos mecanismos identificados. Outra alternativa seria apurar se tais variações poderiam funcionar como marcadores para monitorar os doentes após a terapia e identificar indícios de recidiva.

Previamente, serão exigidos exames laboratoriais para decifrar melhor esses mecanismos e checar se podem ser aplicados como alvos terapêuticos sem prejudicar células saudáveis.

Cenário nacional O câncer colorretal figura entre as neoplasias mais comuns no Brasil. Conforme projeções do Inca (Instituto Nacional de Câncer), o país deve computar 53.810 novos casos anuais entre 2026 e 2028, sendo 26.270 em homens e 27.540 em mulheres.

Desconsiderados os tumores de pele não melanoma, o câncer de intestino é o terceiro mais recorrente no território nacional e o segundo mais habitual tanto entre o público masculino quanto feminino.

Os fatores de risco englobam sedentarismo, tabagismo, excesso de gordura corporal, consumo de álcool, ingestão elevada de carnes vermelhas e processadas e baixo consumo de fibras. Histórico pessoal ou familiar de câncer colorretal ou de pólipos e enfermidades inflamatórias intestinais crônicas igualmente elevam o risco.

What do you feel about this post?

0%
like

Like

0%
love

Love

0%
happy

Happy

0%
haha

Haha

0%
sad

Sad

0%
angry

Angry

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *