“Para um menino ou menina que queira realizar seu sonho, saiba que tudo é possível —com trabalho duro quando ninguém está olhando.”
Depois de agradecer por 10 minutos a todos que o ajudaram na carreira —treinadores, companheiros de clubes e de seleção e família— foi assim que Harry Kane finalizou seu discurso ao ser eleito melhor jogador do mundo nesta semana. Falando em “nós”, nunca “eu.”
A escolha do atleta na premiação da Bola de Ouro, realizada em Londres, já contava com ampla justificação pelos feitos da temporada passada. Ele faturou o título da Bundesliga, balançou as redes 73 vezes divididas entre o Bayern de Munique e a seleção inglesa, além de conduzir a Inglaterra à terceira colocação na Copa do Mundo, alcançando a melhor marca histórica fora do território inglês —visto que o único título mundial veio em casa, em 1966.
Fazendo parte do conjunto da obra, o atleta atua como capitão e principal artilheiro de seu país, acumulando 91 gols em 125 partidas disputadas, o que empata seu recorde com Peter Shilton. Ele também marcou presença em duas finais de Eurocopa e duas semifinais de Copa do Mundo. No Tottenham, clube que defendeu com interrupções entre 2004 e 2023, consolidou-se como o maior goleador com 280 gols. Desde a sua transferência para o futebol alemão, faturou duas vezes o posto de artilheiro da Europa.
Apesar dos números, o atacante pode não ser uma unanimidade, uma vez que carece do carisma do craque francês Kylian Mbappé ou do status de sensação do jovem espanhol Lamine Yamal, atletas que ficaram com o segundo e o terceiro lugares, respectivamente.
Da rejeição ao topo do mundo
Kane certamente funciona como uma máquina de gols. No entanto, o prêmio ganha ainda mais legitimidade porque reflete a trajetória de um homem comum que, por meio de muita dedicação, alcançou o ápice possível. As palavras ditas em seu discurso resumem uma jornada que passou longe da facilidade.
Rejeitado pelo Arsenal quando ainda era criança, ele enfrentou passagens por empréstimo em equipes de menor expressão no cenário profissional, a saber: Leyton Orient, Millwall, Norwich City e Leicester. Chegou a ouvir que faltava velocidade em seu jogo, o que o motivou a treinar intensamente para aprimorar velocidade e aceleração. Já no Tottenham, céticos o rotulavam como o atleta dedicado que jamais levantaria um troféu. Vestindo a camisa da seleção — que carrega o fardo de disputar Mundiais sob a cobrança de um jejum de 60 anos sem títulos —, ele assume a responsabilidade após derrotas e concede entrevistas pautadas pela educação, valorizando o coletivo, a resiliência e a persistência.
Reconhecido pelo profissionalismo exemplar, ele também evita polêmicas fora dos gramados. Casou-se com a namorada de época escolar, fundou uma instituição voltada para a saúde mental e, aos 33 anos, leva a rotina profissional tão a sério que mantém um chefe de cozinha particular morando com sua família, tudo para prolongar seu desempenho em alto nível. Existe a possibilidade de que, em menos de dois anos, ele realize o sonho de conquistar um título com a seleção inglesa na Eurocopa, que será disputada em solo britânico.
Um triunfo da humildade
Existem críticos que defendem a extinção de premiações individuais de melhor do mundo, argumentando que tais honrarias estimulam o individualismo em uma modalidade coletiva e geram riscos ao elevar determinados atletas ao status de superestrelas.
Evidentemente, Kane desfruta de uma vida privilegiada, com status de milionário e residência em uma mansão. Contudo, em um universo dominado pelo futebol e pelas redes sociais, permeado por egos e vaidades onde possuir parece superar o valor de ser, ele declarou o desejo de transmitir bons exemplos. Trata-se de um alívio constatar que o topo ainda pode ser alcançado por alguém humilde e genuíno.
A consagração do primeiro jogador inglês desde Michael Owen, em 2001, a faturar o prêmio da revista France Football representa a vitória do esforço sobre o caminho mais fácil, fazendo um bem danado ao futebol.
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