Três décadas após uma das maiores catástrofes aéreas do país, as lembranças do acidente com o Fokker 100 da TAM ainda permanecem vivas na memória de quem presenciou o desastre. Em 31 de outubro de 1996, 99 pessoas morreram na queda da aeronave segundos após decolar do aeroporto de Congonhas, em um voo que seguiria para o Rio de Janeiro.
O jornalista e roteirista Jorge Tadeu da Silva, hoje com 62 anos, mora no sobrado localizado na rua Luís Orsini de Castro, no Jabaquara, zona sul de São Paulo. Para ele, o cheiro de combustível e de queimado continua presente em seu imaginário. “O cheiro é o mais difícil de apagar das lembranças.” No dia do impacto, um dos trens de pouso arrebentou a parede e entrou no quarto de seus pais, Arnaldo e Conceição, parando exatamente na cama do casal, que havia acordado minutos antes. “Eles ainda não haviam chegado à escada [que leva à cozinha] quando ouviram o barulho. Meu pai pensou que era um transformador estourado e demorou para saber o que havia acontecido”, conta.
Professor na época, Silva estava em sala de aula quando recebeu o aviso do irmão. Com a fachada do imóvel em chamas, seus pais conseguiram escapar por uma passagem lateral, sofrendo queimaduras leves. As casas atingidas exigiram cerca de 15 anos de disputas judiciais para receberem indenizações e reformas. Atualmente, restam apenas meia dúzia de antigos moradores na rua, enquanto as árvores destruídas foram substituídas uma década depois.
O resgate e o impacto no local
Jefferson Mello, coronel da reserva do Corpo de Bombeiros, atuou como tenente na época e passou 24 horas no local em busca de sobreviventes. Ao retornar à rua pela primeira vez em 30 anos, ele definiu o local: “Era um cenário de guerra”. Segundo ele, “Foi feito um improviso com sacos plásticos para preservar os corpos e para que as pessoas não ficassem chocadas com aquelas imagens”. Ele ainda relatou a trajetória desgovernada do avião: “Ele sobrevoou a escola e foi destruindo as residências. Havia pedaços do avião por todos os lados e, infelizmente, os corpos foram se espalhando ao longo da rua”.
O então promotor Mário Luiz Sarrubbo soube da queda pelo rádio do carro e acompanhou o inquérito. Entre as memórias marcantes, ele destaca um aparelho celular que continuava tocando entre os escombros: “Eu vi e falei: ‘Meu Deus do céu, era o celular de uma pessoa que, diante de toda essa tragédia, ainda estava funcionando'”.
Luto e suporte às famílias
O cardiologista José Rahal Abu Assali, de 45 anos, era um dos passageiros e não retornou da viagem de trabalho. Sua esposa, Sandra Assali, preside hoje a Abrapavaa (Associação Brasileira de Parentes e Amigos de Vítimas de Acidentes Aéreos), criada após o acidente e transformada em referência mundial no acolhimento de enlutados. “Esse é um assunto sem fim. A gente sempre vai precisar falar sobre essa questão”, afirma ela.
Falhas técnicas e investigação
Em apenas 24 segundos, o voo com 90 passageiros e cinco tripulantes transformou-se em tragédia após o acionamento inadvertido do reversor de empuxo do motor direito logo após a decolagem às 8h26. O especialista em segurança de voo Douglas Avedikian aponta que a tripulação confundiu o problema com uma pane anterior no autothrottle registrada no livro de bordo. A fabricante Fokker considerava o evento uma chance em “1 em 1 bilhão” e não previa treinamento específico. O Ministério Público pediu o arquivamento do inquérito por considerar a falha imprevisível e sem dolo da tripulação ou técnicos.
Em nota, a Latam declarou solidariedade aos afetados e destacou que o Cenipa recomendou alterações de procedimentos na época, enquanto o modelo deixou a frota em 2008. “Embora consciente de que nada poderá compensar a perda dos entes queridos, a companhia empenhou-se, desde o primeiro momento, em apoiar os familiares de todas as maneiras possíveis.”
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