A construção do Senna Tower, arranha-céu na orla de Balneário Camboriú (SC) projetado para ser o residencial mais alto do mundo, completou um ano desde o início de suas obras. Stéphane Domeneghini, engenheira responsável pelo projeto e diretora executiva da consultoria Talls Solutions — integrada ao Grupo FG Empreendimentos —, comenta que a evolução de edifícios grandiosos costuma dar a falsa impressão de estagnação por demorarem a se elevar do solo.
Durante esse primeiro ciclo, o principal obstáculo foi adaptar tecnologias internacionais de supertalls para a realidade brasileira. A equipe esbarrou na escassez de maquinário adequado, falta de mão de obra especializada e na complexidade para perfurar a rocha do litoral catarinense, exigindo uma reformulação completa da fase inicial.
Fundação e obstáculos no solo catarinense
A fundação da torre foi concluída três meses antes do prazo previsto, totalizando 800 estacas finalizadas após três anos de testes. Atualmente, os trabalhos se concentram na parede diafragma, estrutura fundamental para isolar o terreno, conter o lençol freático e viabilizar a escavação sem comprometer as construções vizinhas.
Inicialmente, o projeto previa cem estacas de grande diâmetro, mas o número saltou para 800 por exigências de segurança. A importação de brocas diamantadas capazes de romper o gnaisse — rocha metamórfica de altíssima dureza — exigiria equipamentos dos Estados Unidos ou da China avaliados em US$ 70 milhões. “Então, para você ver que essa lógica de ‘Ah, eu pego a consultoria de fora do Brasil e trago para cá e simplesmente coloco aqui’ não é tão simples. Foi esse o processo pelo qual passamos no Senna. No início achamos que era simples, projetamos como todo mundo projeta, mas na hora de fechar as contas e executar, não deu certo. Tivemos que regredir tudo e voltamos a estudar. Estamos há quatro anos testando em campo, o que não é normal num projeto convencional”, relata a engenheira.
Para contornar o déficit de maquinário e capacitação, a construtora passou a tratar os fornecedores como parte integrada da equipe, investindo em treinamentos práticos internacionais. Segundo Domeneghini, o setor de edifícios busca alternativas industrializadas para acelerar as obras, embora esbarre no alto custo e no desperdício oculto gerado pela falta de investimentos adequados em projetos.
Cenário internacional e exigências locais
Enquanto países como Estados Unidos, China e Emirados Árabes contam com subsídios estatais, flexibilidade de horários e turnos ininterruptos — como operações 24 horas em Dubai ou até as 21h em Nova York —, o Senna Tower precisa cumprir prazos rigorosos das 7h às 18h, totalizando oito anos previstos de obras.
“Nas questões de segurança, por exemplo, vendemos com preço de América do Sul, mas a exigência de normas é de mercado europeu. Estamos no topo da exigência, mas o mercado paga a base da base. Essa é a conta que a gente equilibra”, aponta a diretora.
Além dos desafios técnicos, Domeneghini destaca a baixa representatividade feminina em cargos de liderança na engenharia civil, relatando os impactos da alta pressão do mercado e da maternidade na permanência das mulheres na área. Natural de Cerejeiras (RO), ela acumula a gestão de projetos, a presidência do capítulo Brasil do CVU (Council on Vertical Urbanism) e a atuação em simpósios internacionais para projetar a engenharia nacional no exterior.
“O Brasil é um pouco recluso dessa participação internacional nos congressos sobre prédios altos. A gente pode mostrar o potencial do que o Brasil tem feito e, quem sabe, atrair também bons profissionais, investidores. Temos legislações super contemporâneas e modernas, o Brasil está no meio de uma grande transformação”, conclui.
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