Quem governa a nossa paz

Eleições e negócios: como o empreendedorismo supera crises políticas

Mercados

As tensões de uma disputa eleitoral costumam refletir o peso que a população atribui à política na definição do futuro. Para muitos, o resultado nas urnas dita o otimismo ou o luto para os anos seguintes, um clima que rapidamente atinge o ambiente corporativo e afeta o planejamento de quem precisa investir, contratar e correr riscos.

Embora mudanças governamentais possam, de fato, ameaçar determinados investimentos, o ecossistema empreendedor precisa enxergar que existem demandas perenes, consumidores em busca de excelência e nichos que florescem justamente onde a administração pública falha.

Oportunidades nas falhas estatais

Uma deficiência do Estado frequentemente abre espaço para um negócio privado. Quando um serviço público não atende às expectativas, o que acontece com bastante frequência, quem pode pagar busca alternativas no setor privado. Esse grupo constitui um mercado. Os governos devem ser cobrados, mas não é preciso esperar por eles para abrir uma empresa e atender a esses consumidores.

Essa lógica guiou a fundação da Wise Up em 1995, voltada para adultos que precisavam do inglês para alavancar a carreira. No caminho, surgiram alunos com 12 anos de escolaridade básica e o idioma no currículo, mas incapazes de manter uma conversa simples. Doze anos de escolarização e nem uma conversa básica.

O ensino regular nas escolas públicas e privadas havia fracassado em atender àquela necessidade. Segundo pesquisa do Data Popular realizada em 2013 e publicada pelo British Council em 2014, somente 5,1% dos brasileiros de 16 anos ou mais declaravam ter algum conhecimento de inglês.

O raciocínio se repete em setores como segurança, saúde, infraestrutura e transporte. Uma clínica, um serviço de monitoramento ou uma tecnologia de acessibilidade encontram público entre os insatisfeitos. Cada negócio possui seus limites; quem não pode arcar com os custos, infelizmente, continua refém das deficiências estatais que geraram a oportunidade.

Experiências no esporte e na economia

A interferência da política também marcou a gestão do Orlando City, clube de futebol americano administrado entre 2013 e 2021. Logo na aquisição, havia uma parceria público-privada para erguer o estádio, mas debates parlamentares na Flórida sobre o uso de verbas públicas ameaçavam atrasar o projeto. A saída foi recorrer exclusivamente ao capital privado. Assumi um investimento um pouco maior para retirar o projeto da dependência daquela disputa política. Conhecia os riscos e estava disposto a assumi-los para fazer a obra andar.

Mesmo em cenários de instabilidade macroeconômica, como a recompra da Wise Up em dezembro de 2015 — durante o segundo mandato de Dilma Rousseff, em meio a recessão e rumo ao impeachment —, a análise de mercado prevaleceu. A economia exigia cautela, mas o mercado para aquele serviço permanecia. Minha avaliação sobre o governo não poderia substituir a análise da oportunidade. O caos político havia contribuído para a desvalorização das empresas e me permitiu recomprar a Wise Up por um preço bem menor do que aquele pelo qual a havia vendido.

A existência de alternativas privadas não diminui o direito da população de cobrar os serviços financiados por seus impostos. Enquanto cobra, o empresário pode abrir um negócio e atender parte das pessoas que precisam de uma solução.

De minha parte, continuarei exigindo um Estado mais competente, mas sem condicionar minhas decisões à chegada desse milagre. Afinal, o governo já custa caro quando fracassa. Entregar-lhe também o comando do meu futuro seria premiá-lo pela ineficiência e punir a mim mesmo pela omissão e pela falta de iniciativa.

What do you feel about this post?

0%
like

Like

0%
love

Love

0%
happy

Happy

0%
haha

Haha

0%
sad

Sad

0%
angry

Angry

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *