Desigualdade reduz acesso de mulheres negras e indígenas à mamografia

Desigualdade limita acesso de mulheres negras e indígenas à mamografia

Saúde

A mamografia é um exame de imagem que permite visualizar em detalhes o interior da mama e, assim, identificar a existência de nódulos, inclusive aqueles ainda tão pequenos que sequer são sentidos na palpação. Trata-se de um procedimento-chave na detecção precoce do câncer, mas o acesso ainda é desigual no país.

Conforme uma pesquisa divulgada em junho na revista Ciência & Saúde Coletiva, 82,2% das mulheres autodeclaradas brancas e amarelas com 50 anos ou mais já haviam realizado o procedimento ao menos uma vez na vida. Em contrapartida, entre as cidadãs pretas, pardas e indígenas, essa taxa recuava para 71,9%. O levantamento baseou-se na análise dos dados da primeira onda do Estudo Longitudinal de Saúde do Idoso Brasileiro (ELSI-Brasil), coletados nos anos de 2015 e 2016.

“Na prática, o resultado evidencia que a realização da mamografia não ocorre de maneira igualitária e que as desigualdades também se refletem no acesso aos serviços de saúde”, explica a economista Alana Ramos da Silva, professora da Universidade Presfiltrana Mackenzie, em São Paulo, e autora correspondente do estudo. “É um sinal de que precisamos compreender e enfrentar as barreiras que dificultam o acesso ao exame, especialmente entre as mulheres em situação de maior vulnerabilidade.”

Fatores socioeconômicos e o impacto no rastreamento

Para mensurar essa realidade, os cientistas avaliaram variáveis como posse de plano de saúde, escolaridade, estado civil e número de filhos. O fator de maior peso foi a existência de um convênio médico particular, elemento associado a uma elevação de cerca de 12,9% na probabilidade de submissão ao exame preventivo.

No tocante aos demais aspectos, o matrimônio demonstrou relação com um incremento de 6,9%, ao passo que a maternidade gerava uma retração de 1,6% para cada herdeiro. Adicionalmente, constatou-se que um grau de instrução mais elevado elevava as chances de execução do procedimento.

“Esses resultados indicam que parte importante da desigualdade no acesso à mamografia está relacionada às diferenças nas condições socioeconômicas observadas entre os grupos”, aponta Silva. Os cálculos apontam que, se o grupo de mulheres pretas, pardas e indígenas dispusesse do mesmo perfil socioeconômico das brancas e amarelas, a probabilidade estimada de feitura do exame seria 5,9% superior.

Mesmo assim, a eliminação completa das disparidades não ocorreria apenas com a equidade nesses quesitos. “Ainda existiria uma diferença de 4,3% que não é explicada pelas características observadas no modelo, o que reforça a importância de investigar outras barreiras ao acesso e de formular políticas públicas que considerem tanto as condições socioeconômicas quanto as possíveis dificuldades de acesso aos serviços de saúde”, avalia a autora.

A gravidade do câncer de mama no Brasil

O câncer de mama desponta como a segunda neoplasia mais comum entre o público feminino no território nacional. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) projeta que, entre 2026 e 2028, o país contabilize cerca de 78.610 novos casos anuais da enfermidade. Trata-se também da principal causa de morte por câncer entre mulheres, registrando uma taxa de 12,58 óbitos para cada 100 mil habitantes em 2025, segundo o mesmo órgão.

Encontrar a doença em fases iniciais eleva drasticamente as perspectivas de cura. “No estágio 1, as chances de cura superam 90%. Por sua vez, no estágio 4, o quadro é praticamente incurável e apresenta uma taxa de recuperação inferior a 10%”, explica o oncologista Max Senna Mano, do Einstein Hospital Israelita. “Além da curabilidade, quanto menor o estágio da doença, maiores as chances de receber tratamentos mais brandos. Quando a doença é diagnosticada nos estágios 2 e 3, praticamente ninguém escapa da quimioterapia e/ou radioterapia.”

Embora o autoexame auxilie no autoconhecimento corporal e ajude a notar modificações, ele não substitui a mamografia como principal método de rastreio. No Brasil, o Ministério da Saúde orienta que o acompanhamento comece aos 40 anos, com repetição anual ou bienal até os 70 anos.

Para indivíduos com histórico familiar ou mutações genéticas de risco, a vigilância deve ser redobrada. “Nesses casos, a indicação é começar os exames até antes dos 40 anos e repeti-los semestralmente”, aponta Mano. “O mais comum hoje em dia é alternar entre a ressonância magnética e, após seis meses, a mamografia com a ultrassonografia. É importante também que mulheres de alto risco para a doença tenham acompanhamento especializado em clínicas de alto risco.”

Desafios e caminhos para a superação

Ultrapassar os obstáculos para realizar o exame vai muito além da simples abertura de vagas nas unidades de saúde. “Para mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica, a prevenção muitas vezes disputa espaço com necessidades imediatas, como colocar comida na mesa, custo do deslocamento até o exame, atenção a outras condições de saúde e mesmo pagar as contas”, destaca o oncologista. “Além disso, a falta de informação sobre a importância do rastreamento e a dificuldade de priorizá-lo diante de outras urgências contribuem para afastar essas mulheres do diagnóstico precoce.”

Mesmo quando a suspeita é levantada, o percurso até a confirmação diagnóstica costuma ser árduo devido a despesas de transporte, longas distâncias até os centros médicos e a lentidão no agendamento de consultas e exames especializados.

A mitigação desse cenário passa por investimentos estruturais. “É importante fortalecer a atenção primária, tanto na busca ativa e orientação das mulheres quanto no encaminhamento para os serviços de diagnóstico”, conclui Alana Silva, enfatizando a necessidade de expandir a infraestrutura e o quadro de profissionais em zonas periféricas e distantes dos grandes polos urbanos.

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