Da mesma forma que o crescimento das crianças é verificado rotineiramente nos postos de saúde, os idosos poderiam ter sua capacidade de caminhar, lembrar, enxergar, ouvir, se alimentar e manter o ânimo medida anualmente e comparada com a de pessoas da mesma idade. Essa é a proposta central do Icope (Cuidados Integrados para a Pessoa Idosa), um programa lançado em 2019 pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e que atualmente é testado em 16 centros de pesquisa no Brasil.
“É como se fosse uma puericultura invertida”, resume Eduardo Ferriolli, professor titular de geriatria da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e um dos coordenadores do estudo no país. Puericultura é o acompanhamento médico e de enfermagem que verifica se o crescimento e o desenvolvimento de crianças estão dentro do padrão. “Se uma pessoa de 67 anos já tem a força muscular diminuída, uma dificuldade de locomoção que não tinha no ano passado, então precisa ver o que está acontecendo”, exemplifica o especialista.
O funcionamento da avaliação no SUS
A metodologia proposta afasta o olhar focado apenas em doenças isoladas e direciona a atenção para a capacidade intrínseca, que se divide em seis domínios essenciais: locomoção, cognição, saúde psicológica, vitalidade (com foco principal no estado nutricional), visão e audição. A triagem básica dura aproximadamente cinco minutos e emprega testes diretos e simples, como lembrar três palavras (“flor, porta, arroz”), levantar-se de uma cadeira cinco vezes sem o auxílio dos braços em um intervalo de até 14 segundos, e informar se houve perda de mais de 3 kg sem intenção nos últimos três meses.
Caso o teste aponte queda em algum desses domínios, o protocolo da atenção primária estabelece uma investigação detalhada sobre as causas — que podem envolver patologias, efeitos colaterais de medicamentos, além de fatores sociais ou ambientais —, a criação de um plano de cuidados multidisciplinar e o encaminhamento a especialistas, sempre buscando agir enquanto o declínio ainda demonstra reversibilidade.
A segunda edição do manual da OMS, lançada em 2024, recebeu uma versão em português da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) neste ano. O documento amplia a triagem para detectar também a incontinência urinária, a carência de apoio social e a sobrecarga de cuidadores (na maioria mulheres da família), além de incentivar fortemente a vacinação.
Na última quinta-feira (29), Hilda Maria da Conceição, 84, e a sua filha Maria da Soledade Conceição, 61, receberam a vacina contra a Covid-19 no Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza, localizado na zona oeste de São Paulo e vinculado ao ambulatório de geriatria da USP. Hilda convive com o diagnóstico de Alzheimer há cinco anos. A filha, que atua como cuidadora, relata que no local a mãe realiza consultas e exames, enquanto ela própria obtém orientações vitais sobre nutrição, prática de exercícios e gestão de medicamentos. “Com esse apoio, minha mãe tem conseguido manter a autonomia e eu aprendo como cuidar melhor dela e de mim também. Ela ainda cozinha a própria comida, cuida da casa”, afirma Maria.
Cenário populacional e testes no país
De acordo com as diretrizes do Icope, a triagem inicial pode ocorrer diretamente na comunidade por meio dos agentes comunitários de saúde. A urgência da medida é justificada por dados demográficos alarmantes da OMS: o planeta registrava 1,18 bilhão de pessoas com 60 anos ou mais em 2024, e a projeção aponta para 2,1 bilhões em 2050, o equivalente a 22% da população mundial.
No Brasil, a investigação científica teve início com um projeto piloto conduzido em Porto Alegre entre 2022 e o começo de 2024, em uma unidade básica ligada ao Hospital de Clínicas da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). As ferramentas aplicadas na atenção básica costumam focar na identificação de fragilidade, mas o levantamento revelou que, entre os idosos considerados não frágeis, quase metade já enfrentava algum problema de locomoção, uma parcela expressiva exibia dificuldades cognitivas e quase um quarto sofria com sintomas depressivos.
“Cerca de 80% da população idosa brasileira é funcional e não se enquadra nos estratos de maior vulnerabilidade”, pontua Renato Bandeira de Mello, professor da UFRGS. “Existe uma transição entre ser uma pessoa idosa robusta e uma vulnerável, e essa é uma grande janela de oportunidade para intervir.” As intervenções podem ser elementares, como mudanças na alimentação, prática de exercícios e fortalecimento do suporte social e familiar. A equipe gaúcha utiliza um protocolo europeu de atividades físicas domiciliares adaptadas às limitações individuais, cujo ensaio clínico com pacientes pós-alta hospitalar apontou melhora funcional expressiva.
Atualmente, o estudo nacional denominado Icope Brasil já cadastrou mais de 2.600 idosos em centros distribuídos por todas as regiões do país, desde Manaus (AM) até Araranguá (SC). Todos serão monitorados durante três anos para aferir a capacidade intrínseca dessa parcela da população e a eficácia da triagem rápida proposta pela OMS.
Experiências internacionais e desafios no Brasil
A França destaca-se como a nação mais avançada na implementação do modelo. Em Toulouse, a equipe de geriatria da universidade local — centro colaborador da OMS — adotou o Icope em janeiro de 2020, semanas antes do primeiro lockdown da pandemia. Philipe de Souto Barreto, professor de gerontologia da Universidade de Toulouse e codiretor do centro, aponta que o monitoramento não foi interrompido graças ao suporte digital do aplicativo Icope Monitor, conectado a uma base de dados segura que orienta os profissionais no acompanhamento dos pacientes. O sistema já capacitou mais de 10 mil profissionais e registrou mais de 150 mil idosos, culminando em uma legislação aprovada em março deste ano que estendeu a triagem a todo o território francês.
Para Barreto, o principal obstáculo cultural reside na tendência de tratar cada patologia de forma isolada. “Quando você trata um idoso que tem cinco, seis doenças, ele vai acabar com 12, 13, 14 medicamentos.” O pesquisador também descarta a hipótese de que o programa sobrecarregaria o atendimento primário brasileiro: “Não é colocar mais alguma coisa, é colocar algo que abarque várias coisas. O erro a evitar é adicionar uma ferramenta a outra.”
Enquanto gestores aguardam comprovações de impacto econômico — cujos estudos randomizados em andamento em Toulouse demorarán de três a quatro anos para apresentar resultados —, o cenário no Brasil enfrenta barreiras políticas. O modelo ficou de fora da Política Nacional de Cuidados. Segundo Eduardo Ferriolli, duas propostas de projetos-piloto com teleconsultoria da USP para casos complexos foram submetidas ao Ministério da Saúde, mas não obtiveram receptividade sob justificativas de escassez de recursos, risco de sobrecarga nas unidades básicas e priorização de outras iniciativas recentes.
Apesar disso, a declaração do presidente Lula priorizando o cuidado com a população idosa renovou as expectativas dos pesquisadores. A Opas enxerga o Brasil como um potencial modelo regional. Barreto relata que há uma reunião agendada com o ministério para expor o Longeva, uma ferramenta digital que traduz a triagem em curvas de percentis similares aos gráficos infantis de crescimento. “A malha sanitária brasileira seria perfeita para o Icope”, avalia. “É incompreensível que não esteja na política.”
Em nota oficial, o Ministério da Saúde declarou que acompanha em conjunto com a OMS as diretrizes voltadas ao bem-estar dos idosos e os estudos realizados no país. A pasta ressalta que, ao final de 2024, incorporou o Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20), instrumento desenvolvido nacionalmente e validado para a realidade do SUS. “O IVCF-20 está disponível no prontuário eletrônico e-SUS APS para as equipes das UBSs (Unidades Básicas de Saúde), inclusive agentes comunitários de saúde. Tem aplicação simples e rápida para medir a saúde física e mental dos pacientes”, aponta o comunicado.
O ministério informou ainda que, em 2025, primeiro ano de difusão do IVCF-20, foram executados mais de 2,1 milhões de registros, com projeção de crescimento contínuo. Outras metodologias, como o Icope, permanecem sob análise e processos de validação para eventual adaptação ao contexto brasileiro. O projeto Saúde Pública conta com o apoio da Umane, associação civil voltada ao fomento de iniciativas de promoção da saúde.
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